Simonal, o primeiro pop star negro
do Brasil
por
Sérgio Farias
Hoje pouca gente
sabe quem foi Wilson Simonal. O que menos se sabe é que ele foi,
junto a Roberto Carlos, o cantor de maior sucesso no Brasil dos anos 60
e início dos 70, chegando a ter tanto prestígio que foi o
primeiro pop star negro a ser
capa de revista. Apesar de sua enorme popularidade, ele não era
“brega” e o exigente Caetano Veloso se referiu a ele como “um bom
cantor de samba-jazz”. Mas esta estrela de bela voz em riqueza de
timbre e de âmbito vocal semelhante ao dos melhores cantores
americanos, além de multi-instrumentista, se apagou bem
antes de sua morte em 25 de junho de 2000.
Filho de uma empregada doméstica, Wilson Simonal de Castro
começou a cantar por pura diversão em meados dos anos 50,
durante os três anos que serviu no 8o Grupo de Artilharia da
Costa no Leblon, no Rio de Janeiro, onde era chamado de “o Harry
Belafonte brasileiro”. Ao dar baixa, foi crooner do grupo de rock e
calypso The Dry Boys, depois rebatizado de Os Guaranis. Em 1961, foi
descoberto pelo compositor e empresário Carlos Imperial, que
logo o lançou em carreira solo com o disco (de 78 r.p.m.)
“Teresinha”, um típico chá chá chá, que o
levou ao programa de TV “Os Brotos Comandam”. No programa, Simonal,
sempre impecavelmente vestido, conquistou os espectadores com seu
charme e simpatia radiante. O cantor também flertou com a bossa
nova e foi levado por Luiz Carlos Miéle para se apresentar no
lendário Beco das Garrafas, onde ganhou a
admiração de Elis Regina.
Contratado pela gravadora Odeon (subsidiária da EMI no Brasil),
lançou seu primeiro álbum “Wilson Simonal Tem Algo Mais”
em 1963, que trazia o sucesso “Balanço Zona Sul”. No ano
seguinte, foi figura constante do programa musical “Spotlight”, na TV
Tupi, e lançou seu segundo Lp “A Nova Dimensão do Samba”.
O album rendeu o compacto “Naná”, que estourou nas rádios
de todo o Brasil.
Mas Wilson Simonal mostrou que era mais que um sucesso comercial com
“Jeito Bom de Sofrer”, uma composição de sua autoria com
os sofisticados arranjos de Eumir Deodato. A fórmula
Simonal/Deodato rendeu os álbuns “Wilson Simonal” (destacando os
hits “Garota Moderna” e “Chuva”) e “S´imbora” ambos de 1965, que
puxaram uma turnê pelo Brasil. Na excursão, o cantor foi
companhado do Zimbo Trio (Ámilton Godói – piano,
Luís Chaves – baixo e Rubinho – bateria) e patrocinado pela
Rhodia, que também os levou para apresentações em
Cannes, na Riviera francesa, junto a Elizete Cardoso e Chico Buarque.
Em 1966, o álbum “Vou Deixar Cair”, gravado com o Som Três
(César Camargo Mariano – piano, Sebastião Oliveira Paz –
baixo e Antonio Pinheiro Filho – bateria) popularizou a “pilantragem”
um ritmo dançante criado por Simonal, Carlos Imperial e o
compositor Nonato Buzar, que emplacou nas paradas com os compactos “Meu
Limão, Meu Limoeiro” e “Mamãe Passou Açúcar
em Mim”. O sucesso de vendagem foi tamanho que Simonal, ainda em 66,
lançou mais dois compactos de sucesso com “Não Vem Que
Não Tem” – incluída no filme “Cidade de Deus”, de 2002 –
e “Carango”, ambos no ritmo da “pilantragem”. Apesar do comercialismo
do ritmo, arranjadores como César Camargo Mariano e Erlon Chaves
garantiram a qualidade do repertório. Foi nessa época que
estreou “Show em Si...monal”, na TV Record, que lançou Tim Maia
ao estrelato e onde Simonal apresentou seu próprio
merchandising: o Mug, um boneco redondo de pano preto com um palmo de
altura que foi uma coqueluche naquele natal. O “Show em Si...monal”
também foi título de um álbum duplo gravado ao
vivo durante um show do cantor no Teatro da Record em São Paulo
em comemoração ao primeiro aniversário do
programa, que colocou Simonal com um dos melhores salários da TV
brasileira na época. O concerto foi aclamado pela
crítica, que ressaltou as habilidades de Simonal como showman. O disco trouxe uma
versão ao vivo de “Tributo a Martin Luther King”, uma
canção anti-racista de autoria de Simonal e Ronaldo
Bôscoli, lançada em compacto de grande sucesso no mesmo
ano.
A partir de 1967, Simonal realizou uma série de quatro
álbuns com interpretações dos melhores jovens
compositores da época, como Caetano Veloso, Jorge Ben(jor),
Antônio Adolfo, Tibério Gaspar, Marcos e Paulo
Sérgio Valle: “Alegria Alegria - vol. 1”, “Alegria Alegria -
vol.2 – ou quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga”
de 1968, “Alegria Alegria - vol.3 – ou cada um tem o disco que merece”
e “Alegria Alegria - vol.4 – ou em homenagem à graça, a
beleza, o charme e o veneno da mulher brasileira”, ambos de 1969. Estes
discos foram embalados por grandes êxitos como “Sá
Marina”, “Zazueira”, “Que Maravilha”, “Mustang Cor de Sangue”, “Silva
Lenheira”, “Maquilagem” (de autoria de Simonal), “Que Maravilha”, “Quem
Mandou” e seu maior sucesso, “País Tropical”, também
lançado na Itália como “Ecco Il Tipo Oche Io Cercavo”.
Com apenas 31 anos, Simonal chegou ao topo, com uma carreira
internacional que incluía apresentações na
Inglaterra, Itália, França, Portugal, Venezuela, Peru e
Argentina. No Brasil, Simonal fez apresentações
triunfantes (algumas com a renda revertida para orfanatos). Uma delas
foi no encerramento do IV Festival Internacional da
Canção, no Maracanãzinho. Wilson Simonal, que era
presidente do júri, foi convidado para abrir o show para Sergio
Mendes e Brasil 66, que era uma estrela internacional. Mas seu sucesso
foi tão grande que encobriu a atração principal.
Durante o show, Simonal “regeu” um coro de 30 mil vozes, reafirmando
sua característica de manter domínio total sobre a
platéia.
E em 1969, Wilson Simonal quis também ter domínio total
sobre sua carreira e tornou-se o primeiro artista brasileiro a se
auto-empresariar, abrindo a Simonal , e logo assinou um contrato
milionário com a multinacional Shell para estrelar uma campanha
publicitária sem precedentes. Em 1970, Simonal estrelou o
longa-metragem “É Simonal” dirigido por Domingos Oliveira, e foi
para Copa do Mundo no México com a Seleção
Brasileira de Pelé, Tostão, Jairzinho e Rivelino.
Enquanto o Brasil brilhava nos gramados, os sucessos que Simonal gravou
em espanhol estavam nas listas dos mais tocados nas rádios
mexicanas. Seus shows no luxuoso Camino Real, em Guadalajara, estavam
sempre superlotados. Com a conquista brasileira do
tri-campeonato, Simonal voltou para o Brasil com fama de
“pé-quente” para lançar o álbum “Simonal” e os
hits “Tostão, a Fera de Ouro” e “Que Cada Um Cumpra o Seu Dever”
que, naturalmente foram na onda de todo este sucesso.
Em 1970, Wilson Simonal era o maior cantor do Brasil. As vendas de seus
discos atingiam 500 mil cópias, enquanto Roberto Carlos estava
na casa das 300 mil. No final do ano, ele fez um especial para TV onde
cantou em dueto com a prestigiada cantora norte-americana Sarah
Vaughan. O ano de 1971 aguardava ansiosamente o álbum
“Jóia”, novo trabalho de Simonal, um disco de soul-funk-pop bem
abrasileirado que, provavelmente, repetiria o sucesso de seus
antecessores. Dez anos após lançar seu primeiro disco,
Simonal já era inspiração para novos cantores como
Emilio Santiago.
Até que em agosto a história tomou outro rumo. Conta-se
que um gerente de banco ligou para Simonal avisando sobre um grande
rombo na conta-corrente da Simonal Produções, e tudo
levava a crer que o contador da empresa estava desviando dinheiro. Mas
de réu o contador passou a vítima pois, dias depois da
denuncia, o contador declarou ter sofrido torturas nas
dependências do DOPS (Departamento de Ordem Pública e
Social) e processou Simonal por ter sido o mandante, porque, segundo o
contador, ele teria sido seqüestrado por seguranças do
cantor e conduzido até o DOPS, onde teria apanhado até
confessar o roubo. Em pouco tempo, o caso chegou à imprensa e
tomou enormes proporções. Num clima político
nacional adverso como no início dos anos 70, onde vários
intelectuais e artistas eram delatados e, depois, presos e torturados
no mesmo DOPS, Simonal foi, então, difamado como informante a
serviço da ditadura militar.
O mundo desabou sobre Simonal: as vendas de seu LP “Jóia”
caíram drasticamente, as rádios se recusavam a tocar seus
discos, músicos o boicotaram. Durante um show no Teatro
Opinião, em São Paulo, ele foi vaiado. Na
televisão, pouquíssimos programas lhe abriam
espaço (um deles foi o de Flávio Cavalcanti) e a
gravadora rescindiu seu contrato. Simonal foi julgado culpado por
extorsão mediante seqüestro e, chegou a passar doze dias
preso, até que um outro juiz desqualificou o seqüestro em
outro julgamento e Simonal, por ser réu primário, cumpriu
o resto da pena em liberdade. Seus discos lançados logo
após o escândalo, como “Se Dependesse de Mim” (1972) e
“Ninguém Proíbe o Amor” (1975), não causaram
impacto nas paradas de sucesso. Em 1976, Wilson Simonal ainda conseguiu
um êxito com o compacto “A vida é só para cantar”,
mas logo uma série de reportagens voltou a lhe atribuir a fama
de delator o afastando da grande mídia.
Seus álbuns seguintes “Se todo mundo cantasse seria bem mais
fácil viver” (1979), “Simona” (1983), “Alegria Tropical” (1985),
“Os Sambas da Minha Terra” (1991) e “Bem Brasil – Estilo Simonal”
(1998, seu 37o e último álbum) não tiveram
repercussão e Simonal ficou restrito a
apresentações em pequenos clubes e boates. Apesar de sua
popularidade em países como Chile e Cuba, Simonal nunca
conseguiu se recuperar artisticamente.
O cantor morreu no ostracismo aos 62 anos em São Paulo
vítima de falência múltipla nos
órgãos em decorrência de hepatopatia. Simonal
sempre alegou inocência e, segundo ele, foi vítima de
preconceito racial e de inveja, pois era um artista negro e muito bem
sucedido. Em 2003, a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos
Advogados do Brasil, após examinar documentos registrados na
época do regime militar, afirmou que não procedia a
acusação de delator atribuída a Wilson Simonal.
Apesar dos tristes fatos que comprometeram Wilson Simonal, nunca ficou
provado se ele era delator ou não. Mas o valor de sua obra
é incontestável na história da música
popular brasileira. Seus filhos, os cantores Wilson Simoninha e Max de
Castro, pretendem recuperar o legado musical do pai.
Em 2009, estreou nos cinemas o documentário “Ninguém Sabe
O Duro Que Dei”, de Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito
Leal. O filme foi a maior bilheteria em documentários do ano e
ganhou três prêmios em festivais de cinema. Com isso, a
obra do cantor voltou ao cenário da MPB, com força total.
Foi lançada uma biografia, “A Vida e o Veneno de Wilson
Simonal”, escrita por Ricardo Alexandre. Seus discos foram
remasterizados e lançados em CD. O show “O Baile do Simonal”,
com Caetano Veloso, Marcelo D2, Mart´nália, Fernanda Abreu
e Ed Motta, entre outros, foi lançado em Cd e DVD com grande
sucesso.
Sergio
Farias
sergioricardofarias@yahoo.com.br
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