Uma cidade humanizada é direito de todos.

 

*Cláudio Damião Santos Pereira

 

       Você já experimentou andar às escuras dentro de casa? Pois faça um teste: coloque uma venda ou feche bem os olhos e tente andar dentro de sua casa, da sala para o quarto, do quarto para a cozinha, da cozinha para o banheiro. Não vale olhar. Dar aquela espiadinha, não vale! E aí, o que sentiu? Bateu quantas vezes nas quinas dos móveis? Sentiu-se num mundo completamente estranho, não foi? Mesmo num ambiente tão familiar e seguro como a sua casa, você sentiu-se perdido em labirintos estranhos, completamente desamparado, não foi isso que sentiu?

Agora imagine um deficiente visual andando pela cidade...  O ambiente familiar ele domina. Consegue se localizar e movimentar-se com alguma segurança. Mas quando ganha as ruas a coisa muda.

O ambiente urbano foi projetado para as pessoas que não portam deficiência. É um ambiente desordenado para os que não podem fazer uso completo dos seus sentidos. A mesma dificuldade que você sentiu ao andar às cegas dentro de casa, sente o deficiente visual, por exemplo, ao andar nas ruas da cidade. São calçadas esburacadas, muitos degraus, obstáculos outros como postes, orelhões, placas, bicicletas nas calçadas. Os prédios públicos e os edifícios comerciais normalmente não possuem rampas ou sinais de orientação. Poucos são os elevadores que possuem os números em relevo com o alfabeto em braile. Se atravessar uma rua é risco de morte para os que enxergam, imagine para os deficientes visuais...

O mesmo vale para os que portam outras deficiências. As calçadas são verdadeiros obstáculos. Em muitos casos, irregulares e mal cuidadas. Nem todas possuem rampas para acesso com cadeiras de rodas. Em vários locais as calçadas servem de estacionamento de automóveis, obrigando os deficientes a passarem pela rua e correrem o risco de atropelamento.

Faltam telefones públicos adaptados, ônibus adaptados. Falta bom senso... Leis não faltam. Falta somente que sejam cumpridas.

Humanizar a cidade não é só um ato de respeito aos que portam deficiência, mas a toda à população, que não está livre de acidentes. Não podemos aceitar calados que calçadas cheias de buracos transformem-se em armadilhas para os idosos, por exemplo.

Outro dia, enquanto participava de uma manifestação do Sindicato na porta de um banco situado na Avenida Alberto Braune, assisti à queda de pelo menos três pessoas, que tropeçaram no ressalto de uma calçada inacabada. Isso em pleno centro da cidade, à luz do dia. Um pouco mais à frente, vários buracos "adornavam" o passeio público.

Talvez falte às nossas autoridades andar pelas ruas da cidade e conhecer de perto o que estou falando e o que dizem os portadores de deficiências. E compreender que uma cidade humanizada é direito de todos e obrigação dos que a administram.

 

 

*Presidente do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo

E-mail: claudiodamiao@pop.com.br

 

 

Publicado no jornal A Voz da Serra dias 02 e 03/11/2005