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por
Frei Betto
Há
em mim uma legião de auroras. Nem sei como numa alma tão conturbada
pode florescer essa luminescência que cega os olhos do espírito.
Talvez seja isso a noite escura cantada agonicamente pelos místicos.
Talvez seja a perfeição do olhar. É como estar sedento frente ao mar.
Água, muita água, e no entanto dela não se pode beber. Só contemplar
a pele ondulosa do Planeta, essa voracidade oceânica que devora todos
os meus sonhos.
Por mais que eu resista, o aluvião me corrói por dentro. Às
vezes tenho ganas de descrer de todas as auroras ou acreditar que não
passam de fogo-fátuo em meu oblíquo horizonte. Oh sofreguidão! O
mundo lá fora engrenado em suas cobiças, essa luta insana pela
sobrevivência animal e eu aqui, no apartamento 704 do Hotel Donatello,
em Modena, em pleno abril chuvoso, tentando me abrigar do frio que faz
dentro de mim.
É isso, não consigo ver o que os outros enxergam, não consigo
rir do que os outros acham graça, não consigo deixar de ser eu mesmo,
desconfiado, taciturno, porque são muitas as minhas cismas. Por
exemplo, coleciono fechaduras e fotos de rinocerontes. Fechaduras, é
obvio, servem para fechar, porque o ser humano não suporta a transparência.
Precisa sempre se cobrir: de pêlo, máscaras, teto, muro, porque a
nudez é uma arte que exige talento. Ainda que um homem e uma mulher
estejam sem roupas, trancados num quarto, entregues às infinitas
possibilidades do jogo erótico, não significa que estejam nus. Estão
despidos. Nudez é outra coisa. É enfiar a faca até o cabo, arrebatar
a lua com as mãos, destampar todos os recônditos da alma, os mais
obscuros e ínfimos. Se nem suportamos ficar nus diante de nós mesmos,
quanto mais diante dos outros! Por isso as fechaduras deveriam estar de
língua recolhida, mas quase sempre elas se projetam interditando-nos.
Por que fotos de rinocerontes? Faz tempo sonhei que eu era um
rinoceronte, daqueles enormes que pesam toneladas. Locomovia-me com
muita dificuldade, o que exigia paciência de todos à minha volta. Ao
atravessar uma rua, eu me encontrava a meio caminho quando o sinal
abria, irritando os motoristas; no cinema, precisava ocupar meia fila de
cadeiras; no restaurante, comia metade do bufê.
Gosto das esferas elegíacas. Da arte que não exprime lamento,
dos primitivistas que ponteiam suas telas com o talento que supera todas
as formalidades acadêmicas. Sou por eflorescências. Quase toda semana
irrompem em mim vulcânicas primaveras. São flores de fogo. Procuro fixá-las
em retábulos e, no exercício de iluminuras, copiá-las em pergaminhos.
Porque só flores e borboletas superam as obras-primas da arte
universal. Mas não sou dado a caçar borboletas.
Não me agradam as idéias ajaezadas. Prefiro-as despojadas,
diretas, translúcidas. Há dias em que me recolho à biblioteca do
mosteiro em que vivo e passo horas contemplando iluminuras de
manuscritos antigos.
Eis que me apareceu em sonhos um homem cujos sapatos tinham bicos
finos e longos; na cintura, profusão de laços; as mangas eram tufadas
como balões e os punhos de renda. Ele estava de pé num salão fechado
por cortinas de cores brilhantes, pontilhadas de estrelas de ouro entre
espaços vazios cheios de sóis. Em volta, capitéis e um pesado brasonário.
E ele sabia que a ataraxia é uma propriedade das mais belas
esculturas.
Súbito, ele começou a dançar em movimento suaves. Não havia música,
apenas uma orquestra invisível de rinocerantes imensos e diminutos,
gordos e delgados, altos e baixos, pesados e lépidos. Todos traziam
fechaduras em suas patas arredondadas e ao abri-las e fechá-las
imprimiam o ritmo que conduzia o dançarino. Acordado do outro lado do
sonho, fiquei a me perguntar se tamanha ilogicidade que preside as emanações
do inconsciente não seria a verdadeira lógica que a razão tanto teme
e repudia.
Só então compreendi porque René Descartes foi encontrado morto
na Biblioteca Nacional, em Buenos Aires. Uma fina espátula prateada
atravessava-lhe o coração. Suspeita-se que o assassino chama-se Jorge
Luis Borges, mais conhecido pela alcunha de “El Brujo”.
Frei
Betto é escritor, autor de “Treze contos diabólicos e um angélico”
(Planeta), entre outros livros.
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