TERRA MADRE E A ALIMENTAÇÃO  SAUDÁVEL  


 por Frei Betto

Comer e escrever são o que mais nos diferenciam dos animais. Sabemos que eles pensam, cantam e cuidam da  educação  dos filhos. Muitos têm habilidades mais aperfeiçoadas que  as humanas, como o  senso de direção, o olfato e a capacidade de  mover-se numa selva sem se ferir.  Nós, homens e mulheres, somos os  únicos animais que manipulam e cozinham os  alimentos antes de  ingeri-los. E fazemos da culinária obra de  arte.

 A  industrialização afeta duplamente os alimentos: pela  poluição do  meio ambiente e pela utilização de recursos químicos destinados a   produzi-los mais rápido, em maior quantidade e com melhor aparência  (uso de  agrotóxicos, manipulação genética, acréscimo de substâncias  produzidas em  laboratório etc).

  Não sabemos  exatamente quantas  enfermidades contraímos por força dessa  desnaturalização dos alimentos. O fato  é que ela se soma ao nosso  sedentarismo, à nossa ignorância em matéria de  reação do organismo a  cada alimento, à pressa (fast food) com que tomamos as  refeições e à  gula.

  Na contramão deste quadro preocupante   nasceu, em 1986, Slow Food, importante associação internacional  empenhada na  defesa da biodiversidade agroalimentar, que de 26 a 30  de outubro promoverá,  em Turim, Itália, o encontro mundial entre  comunidades do alimento – o evento  Terra Madre.  

  Desde 1996 Slow Food cataloga os alimentos   tradicionais ameaçados de extinção em todo o mundo. É a Arca do  Sabor, que  apóia as comunidades interessadas em preservá-los, como é  o caso do guaraná da  Amazônia.

  Em 1999 nasceu o  projeto Baluartes, que  incentiva produções alternativas, artesanais,  situadas fora dos processos  agroindustriais que controlam a maioria  dos produtos oferecidos por  supermercados.

  Slow  Food descarta também os produtos  transgênicos, seja pela ameaça à  saúde, seja por fortalecerem o monopólio de  empresas transnacionais.  Os transgênicos tendem a privar os agricultores de  liberdade na  escolha dos produtos a cultivar. Quando o pólen das plantações de   organismos geneticamente modificados (OGM) viaja quilômetros,  através das  aves, e poliniza cultivo convencional ou biológico, os  agricultores  involuntariamente investem capital e trabalho na  colheita de produtos que não  plantaram. Slow Food defende ainda a  rotulagem de todos os produtos contendo  OGM, para facultar aos  consumidores a escolha consciente do que   ingerem.

  Em outubro de 2004 ocorreu em Turim o  primeiro  evento Terra Madre, do qual participaram 4.888 delegados de  1.250 comunidades  do alimento de 130 países: camponeses,  pecuaristas, pescadores, cozinheiros  etc. Havia ampla representação  brasileira, da qual fiz parte.  

 Para outubro deste ano  estão previstas 1.500 comunidades do  alimento, 1.000 cozinheiros e  delegações de 200 universidades. Na pauta, três  grandes temas:  antigas práticas de produção e consumo de alimentos;  criatividade  dos produtores atuais; a ciência acadêmica e a alimentação.   

 Para os interessados, mais informações pelo site   www.slowfood.com <http://www.slowfood.com/ ou   terramadre@slowfood.it

 * Com a transvivenciação de  José Maria  Cançado e Gianfrancesco Guarnieri pederam a literatura e  a teledramaturgia  dois grandes talentos. E perdi dois admiráveis  amigos.

 Frei  Betto é escritor, autor, em parceria  com Maria Stella Libanio Christo, de  “Saborosa viagem pelo Brasil –  Limonada e sua turma em histórias e receitas a  bordo do fogãozinho”  (Mercuryo Jovem), entre outros livros.   


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