Pelas mãos dos bandidos, São Paulo parou

 

*Cláudio Damião Santos Pereira

 

Estupefação...perplexidade... É o estado em que me encontro diante dos fatos recentes, onde bandidos ocuparam os noticiários do Brasil e do mundo para dizer: “estamos no comando”. E estiveram. Isso para mim está claro: os bandidos deram as cartas. Durante horas, tomaram o comando e implantaram o terror. Autoridades de segurança pública e o governador de São Paulo, tontos, se revezavam à frente das câmaras das TVs para tentar explicar o inexplicável: os bandidos controlavam a situação.

Enquanto a população assustada, ainda sem saber muito claramente o que estava acontecendo, corria de um lado para o outro, sem saber como melhor se defender, os bandidos de dentro dos presídios, davam as ordens para a execução de policiais, lideravam rebeliões em vários presídios, determinavam o ataque a delegacias, postos policiais e agências bancárias. Dezenas de ônibus foram incendiados - esta pratica talvez tenham copiado dos bandidos aqui do nosso estado - e viaturas policiais metralhadas. E que controle as autoridades públicas tinham sobre a situação? Nenhum!

Os bandidos, organizados, surpreenderam as forças de segurança do estado de São Paulo. Mais um pouco, tamanho o caos e a violência, imporiam o toque de recolher, já que lojas e até shoppings foram obrigados, pelos criminosos, a fecharem suas portas; escolas suspenderam as aulas para proteger as crianças e tranqüilizar os pais.

O que mais me assusta diante de tudo isso é saber que este não foi o primeiro e nem será o último ato de guerra comandado pelos bandidos de dentro e de fora dos presídios, favorecidos que estão pela corrupção do sistema prisional e pela ausência de um consistente projeto de segurança pública do estado. Acham, os nossos governantes, que a solução é construir presídios, casas de custódia etc... para amontoar pessoas em prisões superlotadas e sem chances de recuperar nenhum dos presos. Comandados por facções criminosas e sem nenhuma ocupação, que chance alguém terá de sair de lá melhor do que entrou? Mistura-se tudo: crimes de pequena monta, trafico de drogas, estelionato, assalto, homicídio num único caldeirão, deixa-se ferver por alguns anos e teremos sempre o mesmo resultado: o aperfeiçoamento na arte do crime.

Mesmo longe destes episódios ocorridos em São Paulo, mas vivendo num estado bastante violento como o nosso, fiquei imaginando, assustado, se tragédia não teria sido ainda maior se ocorresse aqui. Sabemos que os bandidos estão melhor armados que os policiais, possuem armas de guerra, granadas, metralhadoras e, de forma assustadora, controlam também os presídios e casas de custódia. Mantém entre si estreito contato através de telefones e radiotransmissores. Comandam quadrilhas, traficam, roubam, seqüestram, matam por telefone, chantagiam, subornam, e as “autoridades” sabem, mas não têm controle sobre a situação, por omissão ou por incompetência.

Tudo parece grotesco, surreal, impossível de se imaginar até que algo mais grotesco e surreal venha superar a nossa perplexidade e mostrar que o pior ainda pode estar por vir.

Nós, cidadãos, viramos reféns dos bandidos e do Estado inoperante nas suas atribuições. Viramos reféns também dos políticos bandidos, que roubam sem nenhuma desfaçatez e quase sempre não são punidos. Pagamos pela segurança e não temos segurança. Pagamos pela saúde e pela educação e não temos a menor qualidade nestes serviços básicos.  Os recursos para estas áreas nunca chegam ao seu destino porque encontram um desvio para alguma conta no exterior, para propinodutos, sanguessugas, cuecões etc...  Estamos comandados pelo improviso, pelo messianismo político. E o pior é que nós, eleitores e cidadãos, temos sido tolerantes com a corrupção. A sociedade também tem uma parcela de culpa. O que falta para a saúde, educação e segurança está sendo drenado por quadrilhas instaladas em gabinetes legislativos. Eleitos pelo voto sem qualidade: trocado, comprado. Gente que se perpetua no poder. São eles os culpados por tudo isso.

O que aconteceu em São Paulo deve nos fazer refletir. A solução para a segurança, ao contrário do que pretende o governo do estado e alguns áulicos de plantão, não está em distribuir presídios e casas de custódia pelo interior do estado, mas sim em ter um projeto de segurança pública consistente e operante, livre de improvisos e de soluções paliativas. Algo em que possamos confiar. Afinal, pagamos muito caro para isso e temos muito pouco de retorno. Queremos apenas que, de fato, o Estado cumpra o seu papel. Para o bem do seu povo.

*Presidente do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo

E-mail: claudiodamiao@pop.com.br