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por
Frei Betto
Caso raro: meus pais e os
oito filhos estudaram no Grupo Escolar Barão do Rio Branco, em Belo
Horizonte. Ali fomos alfabetizados. Tempo de evocações líricas, pássaros
em revoadas sobre mangueiras frondosas, e redações chamadas pelo
significativo nome de ‘composições’. Professoras tinham salário
digno e status, o que despertava as vocações formadas pelo Instituto
de Educação.
Fui feliz no Barão, onde pobres e ricos trajavam o mesmo uniforme e
mereciam igual tratamento. O que me torna, hoje, convicto de que todo o
ensino fundamental deveria ser público. Ali estudei na primeira metade
da década de 1950, após cursar o Jardim da Infância Bueno Brandão,
que fica do outro lado da Avenida Getúlio Vargas, outrora Paraúna, em
homenagem à nação indígena.
O Barão era alheio à segurança. Os muros eram baixos e limpos, e
jamais tive notícia de que ali dentro houvesse um roubo. Guardava-o o
porteiro, seu José, homem de sorriso fácil e afável no trato. No
entanto, havia rigor disciplinar: perfilados no pátio, os alunos
ingressavam em classe ordenados em fila ao som de hinos marciais dos
EUA, moda naquele pós-guerra aquecido pelo conflito que provocou a
fratura da Coréia. Os fartos bigodes de José Maria da Silva Paranhos Júnior,
o Barão do Rio Branco, metalizados no bronze que lhe esculpia o busto,
à entrada principal, imprimiam-nos respeito e veneração.
Trajávamos sapatos pretos (os meus, com solas de pneu, inacabáveis),
meias brancas, calça curta azul de brim e camisa de algodão com o
escudo da escola cerzido no bolso sobre o coração. Nossas pastas de
couro preto continham o estojo de lápis, apontador, régua e borracha.
Todo o material era adquirido numa única loja no centro da cidade: Ao
Mundo Colegial.
Encapávamos com papel pardo nossos cadernos e livros. Com a ajuda da régua,
marcávamos, em cada folha do caderno, as margens com lápis vermelho. O
risco vertical repetia-se nas folhas de papel almaço utilizadas nas
provas.
Ali aprendi a ler e escrever a partir da cartilha “Lalau, Lili e o
Lobo”, de Rafael Grisi, adotada pela professora Derci Passos, minha
heroína de toda a vida, por sua dedicação e competência. Foi a
primeira pessoa a valorizar minha vocação literária ao elogiar minhas
composições, advertindo aos colegas que não deveriam recorrer aos
pais, mas eles mesmos redigirem seus textos, “como faz o Carlos
Alberto”.
A única diferença social entre os alunos consistia na cantina que, à
hora do recreio, oferecia merenda aos mais pobres, quase sempre um
mingau açucarado servido em prato de sopa. Os demais, como eu, levava o
lanche de casa.
Embora laicos e públicos, os grupos escolares tinham por obrigação
comparecer à missa pascal na Igreja da Boa Viagem. Ano a ano o conflito
se repetia: alunos do Barão do Rio Branco e do Afonso Pena se atracavam
nos jardins da igreja, sem outro motivo senão comprovar a superioridade
do braço… Retórnavamos à casa exibindo hematomas, o uniforme sujo e
rasgado, às vezes descalços, carregando o único pé que sobrara do
par de sapatos. Anjos pascais convertidos em diabinhos travessos…
Havia tamanha qualidade no Barão e, em geral, em todas as escolas públicas,
que as famílias de Belo Horizonte disputavam ardorosamente o privilégio
de ali matricularem seus filhos. Dói no peito saber que, hoje, o ensino
público encontra-se sucateado e os professores mal pagos. Não vejo
futuro para o Brasil – onde 65% dos jovens entre 14 e 24 anos não
trabalham nem estudam – sem melhoria da educação, incluída a permanência
das crianças 8 horas na escola.
Frei Betto é escritor, autor de “Alfabetto –
autobiografia escolar” (Ática), entre outros livros.
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