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A
corrupção e o crime organizado |
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*Cláudio Damião Santos Pereira
“Terror”,
“crime organizado”, “PCC”, “facção criminosa”, são
palavras que invadiram os noticiários e, ao que tudo indica,
permanecerão por bastante tempo ecoando em nossas cabeças. Ora indo,
ora vindo, em ciclos de mortes, novas rebeliões, ataques surpresas a
ônibus etc... Estamos longe e ao mesmo tempo perto do epicentro da
crise. São Paulo virou notícia, não só no Brasil, mas no mundo
inteiro, e as imagens nos chegam como ondas. Vem e vão em períodos
de tempo que são decididos pelos chefes do “crime organizado”, de
dentro das prisões. Ordens são repassadas aos “soldados” através
de celulares ou rádio transmissores. E estes as cumprem, sem
discutir. Se
os telefones celulares são ferramentas de trabalho dos chefes do
crime, não podemos esquecer que há uma importante ajuda de alguns
agentes penitenciários corruptos, policiais corruptos, advogados
corruptos, políticos corruptos. Bem, vou parar por aqui, a lista deve
ser grande. Pois, não fossem eles, não haveria celulares dentro das
celas. Menos ainda armas, drogas e sabe-se lá o que mais. E o cruel
é saber que estes profissionais corruptos são mais criminosos que os
criminosos, pois são pagos para estar do lado certo da lei. Para
cuidar de mantê-la. Mas acabam, ao transgredí-la, por colocarem em
risco, expostos à morte, os policiais que não se corrompem, além de
mancharem o nome da Corporação, para dizer o mínimo. Os advogados
que se associam aos bandidos, estes deviam ser trancafiados e as
chaves atiradas ao mar. Arrisco
afirmar que não há um projeto de segurança pública em São Paulo,
talvez em nenhum estado do país. E as atitudes das autoridades são
reativas. Reagem aos ataques, quando deveriam prevení-los. Reagem às
matérias jornalísticas que os retratam, quando deveriam atacar o
crime. Perderam o controle, se é que algum dia o tiveram. Dizem
sofrer com o que está ocorrendo - talvez menos por uma missão pública,
um dever de ofício -, e sim porque os ataques estão maculando uma
falsa condição de paz, de controle, de atendimento do estado aos
desassistidos, aos esquecidos nas podres prisões. Não se cumpre hoje
no Brasil, e se bobear nunca se cumpriu em tempo algum, a Lei de Execuções
Penais. Resolveram que a solução seria construir prisões, muitas
prisões. Superlotá-las e deixar que o tempo desse conta de apodrecer
os que lá habitam. Na sua maioria, pobres e negros. Boa parcela presa
por pequenos crimes, mas que fazem escola e voltam em ciclos viciosos.
O grande monstro engendrado nos intestinos de uma Nação desigual
vem, agora, cobrar o seu tributo: a nossa paz. Não
faltam aqueles que encontram soluções mágicas e explicações que
mais agridem do que explicam. Melhor que ficassem calados, como é o
caso do secretário de Segurança Pública de São Paulo, Saulo de
Castro Abreu Filho, ao dizer que é importante que os presos usem os
telefones móveis para que o serviço de inteligência possa descobrir
seus planos. (Tal sandice já foi dita também por um ex-governador do
estado do Rio). Fico pensado: se monitorando, como afirmou o secretário,
ocorreram em um só dia 71 ataques em São Paulo, imagine se não
monitorassem?! Com tanta “competência”, deveriam avançar um
passo mais e oferecer aos bandidos acesso à Internet dentro dos presídios.
Tal medida, seguindo a lógica do secretário, poderia facilitar na
identificação de criminosos e seus vínculos nacionais e
internacionais, como a entrada de armas e drogas pelas nossas
fronteiras. Bastaria “monitorá-los”. Com
tanta besteira dita por ai, tanta incompetência e tamanha corrupção,
a população, já meio descrente, se fixa nas novelas da TV e
surpreendem até a Bia Falcão, ou melhor, a atriz Fernanda
Montenegro, que a interpretou e que se disse desapontada com a tolerância
dos telespectadores com a canalhice e o mau-caratismo do seu
personagem. Seria uma flexibilização, palavra tão em voga na era do
pensamento neoliberal, dos valores morais? Uma pá de cal a sepultar
nossas esperanças? Meu Deus, tomara que não!
*Presidente
do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo E-mail: claudiodamiao@pop.com.br Publicado
no jornal A Voz da Serra do dia 26.07.06 |