Tudo depende de como vemos os fatos

 

 

*Cláudio Damião Santos Pereira

 

Uma bomba que explode no vagão de um trem, como a que explodiu recentemente em São Paulo, ou os ônibus que foram incendiados, supermercados metralhados, caixas eletrônicos incendiados, a depender de como se analise o fato, pode não significar nada, ou pode significar muita coisa.

As rebeliões nas prisões, casas de custódia, penitenciárias, abrigos para menores infratores, pode, dependendo de como se analise o fato, não significar nada, ou pode significar muita coisa. Assim como as mortes em série de agentes penitenciários e policiais militares, a depender de como se olha o fato... e de quem o olha... pode significar quase nada.

Seria hipocrisia afirmar que os problemas que hoje vivemos e que cito acima sejam culpa só dos atuais administradores públicos, uma vez que a degeneração deste tecido social é um tanto mais antiga. Mas não se pode isentá-los de alguma culpa, pois muitos deles pertencem a uma mesma elite egoísta que se recusa a ver o que está à sua volta.

Talvez, por isso, a situação tenha chegado ao auge da ficção, do surreal, quando agentes penitenciários e policiais viraram a caça. Vítimas de um sistema violento e injusto trabalham no fio da navalha.

Se a desumanização do sistema prisional criou “feras” que dificilmente terão alguma chance de ressocializar-se, serão, a continuar deste modo, “feras” para todo o sempre. E, como toda fera enjaulada, se tornarão mais agressivas e violentas.

Falo do estado mais rico da União, que já não conseguia proteger os seus cidadãos, e já não consegue proteger os seus policiais. E a culpa não é só dos bandidos, mas dos que governam. Estes últimos, escondidos atrás de palavras fáceis, encontram soluções no discurso, cuja prática não se evidencia, cujas ações não se cristalizam.

Nem de longe se fala em mudar o sistema. Não se fala em humanizá-lo, mas sim de construir mais prisões, mais Febens, mais casas de custódia, quando o que precisamos é de um projeto de segurança pública e de humanização do sistema. Por outro lado, o Estado, cada vez mais dilapidado por quadrilhas que se apossam do poder em suas diversas esferas, deixa de cumprir o seu papel de mantenedor das garantias sociais. E, cada vez mais privatizado, seguindo a lógica neoliberal do Estado mínimo, vende segurança para quem a pode pagar, quando deve fornecê-la de graça e igualmente para todos. O mesmo se pode dizer da educação e da saúde. (Só a título de curiosidade: o contingente de agentes de segurança privado é maior que o contingente de policiais militares).

O ex-governador Geraldo Alckimin, distante da realidade dura, diz que “os presídios paulistas apresentam números europeus”. Cego aos fatos, esquece-se que amontoar pessoas em prisões não é fazer cumprir a justiça contra os que cometeram crimes, mas é condená-los, em vida, à morte. Sabe-se que a maioria dos encarcerados no Brasil não oferece grandes riscos e estão presos por cometerem pequenos crimes. Portanto, poderiam ser recuperados. Mas se preferiu transformá-los, a todos eles, em irrecuperáveis bandidos, que fazem “escola” nas superlotadas prisões dominadas por facções criminosas, com poderes paralelos entre bandidos e autoridades.

Sem respostas a dar, e longe de encontrar uma solução que iniba os atentados cometidos contra a vida dos agentes penitenciários, o governo paulista encontrou uma solução mágica: distribuir armas, como se estivéssemos em guerra. Bem, talvez estejamos... A depender de quem olha os fatos...


 *Presidente do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo
 E-mail: claudiodamiao@pop.com.br