Imagem arranhada

 

*Cláudio Damião Santos Pereira

 

       

Sem querer generalizar, diria que a imagem do Congresso Nacional está maculada, e não é de hoje. Palco de episódios dos mais sinistros ao longo de muitos anos, o Congresso Nacional perdeu o respeito e a credibilidade diante da opinião pública.  Alguns o comparam a uma casa de tolerância. Recebeu uma “homenagem” do Paralamas do Sucesso, na voz do Herbert Vianna, com uma música que falava dos 300 picaretas com anel de doutor. A música, de certa forma, vingava a nossa vontade de dizer coisas até piores.

Sem esbarrar no julgamento fácil, é claro que nem todos os parlamentares fazem parte dos conluios e da rapinagem do dinheiro público que permeia, em muitos casos, a ação de vários parlamentares. Há os que não comungam com as práticas reprováveis e condenáveis de parcela dos seus integrantes, mas que, ao final, lamentavelmente, também sofrem com o desgaste que acaba respingando para todos.  Há no Congresso Nacional até um “baixo clero” para justificar a falta de qualidade dos nossos representantes e das coisas obscuras que estes defendem. Na divisão de culpas, uma parcela cabe ao eleitor que escolhe de forma pouco criteriosa os seus representantes.

Ao tocar neste assunto, acabo por lembrar (confesso que preferia já o ter esquecido), do Severino Cavalcanti, ex-presidente do Congresso Nacional e representante do atraso, para dizer o mínimo, defendendo o emprego de parentes (dos seus parentes em primeiro lugar e, por tabela, dos seus aliados), representando, pela primeira vez na história da República, o chamado “baixo clero” e seus interesses por verbas, cargos, nomeações, mordomias... Foram com tanta sede ao pote que o pote quebrou, mas antes de quebrar aprovaram um substancial aumento nas verbas de representação. Valor nada desprezível.

O mais recente desgaste foi por conta da convocação extraordinária, ao custo de cerca de R$100 milhões, e que se mostrou um fiasco, pois muitos parlamentares sequer deram o ar da graça em Brasília. Neste período, os parlamentares aprovaram apenas 30 dos 96 itens propostos pelo presidente da Câmara, Aldo Rebelo. Com a opinião pública de olho, se viram obrigados (quem sabe por conta das eleições que estão próximas?) a aprovar algumas medidas para resgatar a sua imagem: o fim da remuneração extra pela convocação extraordinária e a redução (tímida, na minha avaliação) do recesso parlamentar de 90 para 55 dias. Estas propostas já deveriam ter sido aprovadas há muito tempo. Mas, antes tarde do que nunca.

Quando o Congresso Nacional, tão desgastado, toma uma iniciativa como esta, espera-se que ela seja adotada por outros Poderes. Espera-se, por exemplo, que a medida seja imediatamente copiada pelas Câmaras Municipais de todo o país, (mais de 5.500) onde, na maioria delas, as sessões extras rendem jetons e cujo período de férias dos seus ocupantes, trabalhador nenhum no mundo consegue igualar: 90 dias por ano, e com salários nada desprezíveis.

Que uma onda de moralidade invada todos os poderes. “Podres poderes”, diria Caetano Veloso.

Avante, opinião pública! Também somos os responsáveis pelas mudanças.

 

 

*Presidente do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo

E-mail: claudiodamiao@pop.com.br

 

 

Publicado no jornal A Voz da Serra dias 22/03/2006