O voto como arma

 

*Cláudio Damião Santos Pereira

 

De vez em quando sou surpreendido por e-mails que trazem, além dos malditos vírus, mensagens estranhas e absurdas: propostas de correntes para melhorar a vida, avisos de que meu nome irá para o Serasa, cobranças de contas de telefone etc... Nem me dou ao trabalho de lê-las, remeto-as para a lixeira. Outras, aguçado pela curiosidade, acabo por abri-las.
Entre as que abri recentemente, havia uma, cujo autor, revoltado com a corrupção de boa parte dos nossos políticos, propunha a seguinte iniciativa: não votar em ninguém que atualmente tenha mandato.
Pode parecer aos desavisados que esta proposta é nova. Não é! Já circulou em outros momentos eleitorais. Por outro lado, ela é reflexo da indignação, da revolta e da descrença de parte da população com os agentes políticos. Isso é até compreensível e aceitável. O problema, ao meu ver, é a sua duvidosa eficácia. O caminho para se chegar a uma melhor representação política não passa, como sugere o internauta, por uma solução isolada e que se manifesta apenas no voto. É
como se fôssemos esperar por quatro anos para dar o troco a todos os deputados federais, por exemplo, como se todos eles tivessem o mesmo comportamento. Uma decisão como essa, além de utópica, pressupõe que todos os que lá estão são corruptos, inaptos e traidores. A proposta soa como uma execução sumária, despolitizada e absurda.
É certo que a representação política está desmoralizada, e nos dão repulsa os escândalos que se
repetem na arte da rapinagem do dinheiro público. Mas devemos pensar: como podem deputados com passado nebuloso, com histórico de corrupção, ser reeleitos?
Como pode um deputado estadual envolvido em escândalos de corrupção etc... ser promovido a deputado federal com o voto popular? Como pode um vereador, exemplo mais próximo do nosso cotidiano, com os mesmos vícios de mau-caratismo, corrupto, desonesto ou inapto para o
cargo, chegar a deputado estadual ou federal? A resposta é simples, claro: com o nosso voto. Um
paradoxo, não?! Mas, por outro lado, a proposta de não votar em ninguém que já tem mandato pode ser um tiro no pé. Não traz a garantia de que todos os novos eleitos serão corretos nas suas condutas, e mais, tira do cenário político aqueles que possuem uma conduta ética e honesta, ainda que a sensação do eleitor seja a de que este tipo de político não exista. Mas existe, não podemos generalizar, por mais desiludidos que estejamos com a classe política. A alternativa talvez
fosse buscar uma maior qualidade no uso do voto. Uma conscientização dos que trocam o voto por favores e até por dinheiro. E mais que tudo, uma pressão da  opinião pública sobre a justiça para que a punição aos corruptos seja mais severa.
A sensação de impunidade é um dos elementos que levam o cidadão a não acreditar em mais nada. Mas um outro fator que dá enorme vantagem aos corruptos, além da lentidão da justiça e da omissão de autoridades, é a nossa própria omissão enquanto cidadãos. É o nosso silêncio e distanciamento da política. Politizar o debate e buscar a participação da sociedade me parece
o caminho mais adequado para melhorarmos a qualidade da representação política em todos os níveis.
Dizem por aí que a renovação da Câmara dos Deputados deste ano poderá se aproximar da de 1990, que foi de 62%. O desafio não pode ser apenas trocar seis por meia dúzia, mas botar para fora todos que estiveram envolvidos em algum tipo de escândalo. Assim, a qualidade da representação poderá melhorar.
Tenho como certo que só com investimentos em educação, distribuição de renda e a diminuição das desigualdades sociais se poderá chegar a uma melhor capacidade de escolha na hora de usar o voto. A simples revolta individual ou propostas que não sejam factíveis não  ajudam na construção de ações políticas adequadas. Servem, quando muito, para descarregar a nossa revolta.



*O autor é presidente do Sindicato dos Bancários de
Nova Friburgo / E-mail: claudiodamiao@pop.com.br