Por
Helder Molina
Uma questão
não resolvida, ou mal resolvida, nos movimentos sociais e
sindicatos, é a questão do poder. Esse tema tem causado
profundos conflitos no debate sindical e popular. Quais devem ser
as relações entre os movimentos sociais populares,
partidos políticos, poder público/Estado, e instâncias
de participação institucional. Participar? Não
participar: Se participar, como? Essas instâncias e espaços
são instrumentos privados ou públicos? Servem para
os interesses privados e capitalistas? Para a cooptação,
acomodação, adaptação, corrupção,
traição? Ou podem ser instrumentos de interesses coletivos,
públicos, portanto, de mudanças? Transformações?
É sobre essa polêmica que este artigo tenta se inserir.
Nos últimos 30 anos, a partir das lutas dos movimentos sociais
organizados, e dos setores democráticas da sociedade brasileira,
superamos a ditadura militar e o Estado autoritário, colocamos
na agenda política e sócio econômica as reivindicações
e concepções dos(as) trabalhadores(as) sobre Estado,
políticas públicas, direitos sociais, participação
e cidadania.
Nos anos 80, no processo de transição da ditadura
para o Estado democrático de direito, os movimentos sociais
e suas organizações retomaram a iniciativa política,
não só de denúncia e resistência, mas
de elaboração e proposição de alternativas.
Os (as) trabalhadores (as) ocuparam a cena política e, como
produto desses protagonismos abriram-se os espaços de participação
institucional e política na esfera pública.
Portanto, a democracia que se institucional no Brasil, mesmo com
todas as dificuldades, lentidão, avanços e recuos,
é uma conquista política da classe trabalhadora e
do povo. Contra a vontade das classes dominantes, principalmente
quanto estas tinham a completa hegemonia (dominância) do aparelho
do Estado (Seja união, estados ou municípios).
No início dos anos 90, e por toda a década, sofremos
um profundo e organizado ataque das políticas neoliberais,
de privatizações das políticas públicas,
desmonte do poder e da política, dos orçamentos e
recursos destinados aos setores mais pobres da sociedade, de Estado
mínimo e mercado máximo, desregulamentação
dos direitos trabalhistas, crescimento das terceirizações
e das precarizações das relações de
trabalho, desemprego, abandono da saúde e educação
públicas, crescimento do espaço privado, individualismo,
da idéia de cada um por sí, da propaganda, da mercadoria,
do consumo, e da agressiva tentativa de esvaziamento dos espaços
de participação pública, dos movimentos sociais,
dos sindicatos.
Os movimentos sociais resistiram, mas a verdade é que aquele
vendaval neoliberal que varreu o Brasil, a America Latina e o mundo,
nos deixou na defensiva, na resistência, e nas respostas fragmentadas
e sem um projeto ou alternativa que desse unidade e força
às diversas lutas dos movimentos sociais.
Nos últimos anos, mesmo ainda sofrendo os estragos provocados
pelas políticas de mercado, de privatização
e de flexibilização das políticas públicas,
dominantes na década de 1990 e inicio dos anos 2000, os movimentos
sociais e suar organizações resistiram e combateram
na busca da participação política na vida social,
de mudanças nas prioridades econômicas, no resgate
do papel do Estado e do poder público, na consolidação
de canais de interlocução e proposição
de projetos e alternativas, na distribuição da renda,
na discussão coletiva dos orçamentos públicos,
enfim, de institucionalização da democracia, visando
melhorar a vida da maioria da população.
Os movimentos sociais sempre tiveram desconfiança do Estado,
e portanto descrentes ou contrários à participação
e suas esferas de formulações e decisões. No
Brasil, desde a colonização, o Estado sempre foi espaço
e instrumento de poder das classes dominantes, das oligarquias,
seja no Império, seja na República. No século
XX o Estado (há não se em pequenos períodos
históricos de participação dos movimentos sociais
nos destinos do Estado, como no início dos anos 1960 - governo
Goulart - 1961-1964).
Portanto têm razões históricas essa desconfiança
e mesmo rejeição ao Estado e suas instâncias.
Muitos estudiosos e pensadores, como Marx, afirmam, com certa razão,
que o Estado é um aparelho de reprodução da
ideologia e dos interesses econômicos e políticos das
classes dominantes. O que seria necessária uma ruptura estrutural
(desmontando este e construindo outro), isto é, derrubar,
por abaixo este Estado capitalista, para que ele viesse a atender
aos interesses da maioria do povo, que são os (as) trabalhadores
(as). Outros, como Althusser, confessam sua completa descrença
na transformação do Estado e das ideologias capitalistas
que não fosse pela via da ruptura revolucionária..
Com certeza, o Estado que interessa aos trabalhadores só
vai surgir se desmontarmos, botarmos abaixo este Estado patrimonialista,
privatizado pelas oligarquias econômicas e políticas,
um verdadeiro comitê dos negócios dos empresários
e suar organizações. O problema é a forma,
o processo, o como fazer. Para isso temos que analisar a correlação
de forças, a nossa capacitação organizativa
e política de enfrentarmos essas tarefas de mudança
social e econômica do Estado e da sociedade.
Ao nosso ver, essas rupturas e mudanças econômicas,
sociais e políticas não se darão num só
golpe, num ataque único e definitivo, como em certos processos
revolucionários ao longo da história. Entendemos que
a mudança se dará num longo processo de acúmulo
de forças e de espaços conquistados, de disputas contra
a hegemonia dos empresários, latifundiários e banqueiros,
e seus interesses, no Estado e na sociedade. Portanto, tem que ser
produto de um processo combinado de lutas, mobilizações
e pressões sociais coletivas, dos trabalhadores e suas organizações
políticas, dos movimentos sociais diversificados, e de avanços
e conquistas dos espaços institucionais, seja parlamentos,
prefeituras, governos estaduais e federal.
A mudança têm que combinar a luta social, luta direta,
nas ruas, passeatas, mobilizações, greves, marchas
e pressões contra os patrões e o Estado, com a luta
institucional, na participação eleitoral, com candidatos
e programas que defendem os direitos e reivindicações
dos (as) trabalhadores (as), seja para as câmaras municipais
de vereadores, assembléias legislativa, câmara e senado
federal, seja para as prefeituras, governos estaduais e federal,
e com a participação ativa nos conselhos de políticas
públicas, nos fóruns de discussão do orçamento
e das prioridades políticas de aplicação dos
recursos públicos, nas instâncias de proposição
e gestão pública.
O Estado (aqui entendido como esfera governamental, portanto), aqui
incluídas as prefeituras, e suas políticas devem ser
públicas, para responder aos interesses públicos.
Desprivatizar o poder, empoderar os movimentos sociais, construir
os espaços públicos estatais de participação,
eis uma das tarefas dos sindicatos, dos movimentos sociais.
Num país complexo como o nosso, com profundas heranças
escravistas, de exclusão dos pobres, marginalização
e criminalização dos movimentos sociais, de violência
institucional, de silenciamento, esmagamento e agressão aos
direitos das mulheres, dos negros e negras, dos índios, dos
homossexuais, enfim, marcado pelas injustiças sociais na
distribuição da renda e da decisão política,
mais do que nunca temos que tomar o Estado e torná-lo realmente
poder público, para democratizar a economia, a política
e a sociedade.
Tomar o Estado significa retirar das mãos dos interesses
privados, patrimonialistas, nepotistas, e trazê-lo para as
mãos dos (as), trabalhadores(as), das crianças, dos
jovens, dos adultos, enfim, da sociedade que trabalha e produz a
riqueza da nação. Não é possível
mudar o mundo sem mudar o poder.
Defender a autonomia dos movimentos sociais significa dotá-los
de capacidade política (empoderar) para disputar os espaços
da luta social direta, combinada com as lutas institucionais. Ambas
são lutas políticas. Portanto, os trabalhadores e
as trabalhadores devem participar ativamente da política,
pois a política que interessa à classe trabalhadora
só poderá ser desenvolvida e conquistada pelas organizações
(aqui incluídos os partidos políticos) que estão
vinculados aos interesses e lutas concretas da classe.
Mais do que nunca devemos participar da política, a luta
sindical tem profundos limites, pois está presa às
reivindicações corporativas, econômico-salariais.
Na disputa política mais geral, pelos direitos dos (as) trabalhadores
(as) são necessárias, fundamentais e não podem
ser abandonadas. Mas devem combinar com outras lutas e reivindicações,
que são obrigações do Estado (poder público).
Os (as) trabalhadores(as) devem ter seus representantes nos parlamentos
e nas prefeituras e governos,. Mais que aliados, são seus
representantes. Porta vozes de suas bandeiras, reivindicações,
projetos e alternativas. Numa democracia representativa, que tem
hegemonia das classes dominantes, mais do que nunca devemos ampliar
as esfera da participação, da cidadania e da democracia
popular. Sim, devemos lutar para construir uma democracia popular,
um projeto das maiorias, dos setores populares.
Esses espaços de participação também
são espaços de formação política,
de desenvolvimento de uma cidadania ativa, consciente, concreta,
vinculada aos interesses de classe. Os sindicatos negligenciam os
fóruns e conselhos de participação, ainda desconfiados
sobre sua eficácia e capacidade de resolver problemas concretos
da população. È a desconfiança de que
falamos anteriormente.
Centenas de conselhos, espaços, fóruns e instâncias
institucionais, políticas, governamentais, que discutem o
orçamento público, que definem onde aplicar os recursos
advindos dos impostos cobrados, em sua maioria, dos (as) trabalhadores
(as), estão ocupados apenas pelos empresários e pelos
burocratas estatais. Estes, com certeza, discutem e aprovam nesses
espaços os seus interesses particulares, as suas prioridades,
silenciando a voz dos mais pobres, calando as reivindicações
dos movimentos sociais.
Pela ausência dos movimentos sociais (aqui incluindo os sindicatos),
acontecem os desvios de verbas públicas, a corrupção,
o roubo desenfreada da riqueza produzida pelo trabalho dos (as)
trabalhadores (as). Quando os (as) trabalhadores (as) ficam de costas,
às escondidas se praticam o nepotismo, o empreguismo, o leilão
do dinheiro público, a privatização, a corrupção,
enfim. Pense nisso.
Pense e se mexa. Cidadania ativa, discussão do interesse
da cidade, governar os desejos coletivos, eis uma das tarefas fundamentais
colocadas aos sindicatos, além do salário e do emprego.
Que acha disso?
Isso sim significa República, "res" (coisa) pública,
consciência política, agir coletivamente, responder
à importância e a centralidade de participação
das bases, construir o poder popular de baixo para cima, romper
com as velhas estruturas aborrecidas do Estado, do poder público,
da política e da economia. Enfim, no concreto significa erguer
novas estruturas sociais, consolidando a distribuição
da renda, da participação, da democracia.
Os sindicatos, os movimentos sociais, os (as) militantes, atividades,
dirigentes, devem pensar nestas questões, mesmo que discordando,
mas debatendo, formulando alternativas. Um pé no movimento
concreto e nas lutas da classe, outro pé na disputa pelo
Estado.
Sem perder a autonomia em relação aos partidos políticos,
aos patrões e ao Estado (seja prefeito, governador ou presidente
da República). Governos, partidos políticos e movimentos
sociais. Cada um destes têm seus papéis diferenciados,
Importante não misturar os papéis, pois isto gera,
entre outras coisas, crise de identidade, confusão, adaptação,
coptação, burocratização, enfraquecimento,corrupção,
enfim sem perder a independência de classe, instrumento fundamental
para construção de nossa identidade, nossas lutas
e nossas vitórias. Quando Marx diz que emancipação
dos (as) trabalhadores (as) será obra dos próprios
trabalhadores, cabe perguntar? Como?
Helder Molina
Rio de Janeiro, Março de 2011