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O Aquiles da Sustentabilidade |
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Os efeitos das
mudanças climáticas já frequentam a nossa realidade e a procura
por atendimento médico será irremediavelmente maior. Novas enfermidades
surgem com o elevado grau de poluição atmosférica e gases do efeito
estufa. Há um quadro que poderá piorar com a ocorrência de doenças
coletivas como a dengue, a gripe suína, a tuberculose e a hanseníase. E
nós, pacientes, médicos, enfermeiros, políticos e administradores não
estamos percebendo. Tudo isso sem contar com outros incontáveis doentes
precisando de tratamentos mais sofisticados como hemodiálise e cirurgia
cardíaca.
Para atender à nova realidade do quadro de saúde na Região Metropolitana do Estado do Rio de Janeiro, é necessário um planejamento urgente e comprometido com as urgências globais e demandas regionais. Questões estratégicas não podem ser abordadas com base em paradigmas ultrapassados. Os próximos anos reservam a essas milhões de pessoas, doenças em quantidade e com “aprimoramentos” evolutivos ainda não estudados. Não estamos preparados para tragédias coletivas anunciadas e por isso, pesquisas e atitudes precisam se antecipar aos sérios problemas que despontam para que não sejam irreparáveis. O colapso na saúde pública é evidente e será potencializado se não houver planejamento e investimento sério a partir de agora. Fui submetido a uma cirurgia de religamento do tendão de Aquiles num hospital público de São Gonçalo, tendo a sorte de vivenciar o seu funcionamento. Poderia pensar que sendo um hospital público, há falta de recursos, equipamentos e bons profissionais, certo? Errado. A sua infra-estrutura não perde para nenhuma clínica particular. Ao contrário, oferece laboratórios, centro de imagens com tomografia computadorizada e a maior e melhor central de UTI de todo o estado. Além disso, higiene e alimentação com supreendente qualidade. O que chama a atenção são fatores aparentemente simples, mas que fazem muita diferença e confirmam o conceito que a população construiu acerca de uma instituição pública. É inadmissível, por exemplo, um paciente sadio aguardar 12 dias para uma cirurgia de 1 hora num hospital que tem os seus leitos superconcorridos. A demanda de trabalho é realmente alarmante. Somente no dia que frequentei a triagem havia mais seis pacientes aguardando cirurgia ortopédica. Sem contar aqueles já internados por vários dias agendados na perene lista do centro cirúrgico. É tanta gente doente que parece um cenário de guerra. Situação dramática para quem necessita de atendimento médico apesar daquela instituição oferecer recursos tecnológicos e equipamentos modernos. Portanto, não será a tecnologia capaz de solucionar questões de adaptação e organicidade histórica. Essas questões merecem atenção especial por estarem associadas a valores e padrões ainda não concebidos, exatamente como as mudanças no clima e seus efeitos a serem experimentados pelas sociedades. O tendão de Aquiles da saúde coletiva é um dos pontos fracos da sustentabilidade. Nesse quadro, são desfavoráveis as expectativas de garantirmos qualidade de vida para a nossa população e assegurar um modelo saudável e sustentável para as próximas gerações.
* Ricardo Harduim é biólogo e
presidente da OSCIP Prima - Mata Atlântica e Sustentabilidade
(www.prima.org.br) |