
Frei Betto
Nessa
cultura machista que nos assola, quase não se destacam as figuras
heróicas de mulheres envolvidas com a Conjuração
Mineira liderada por Tiradentes. Mulheres que assumiram a coragem
de apoiar os homens que amavam, comprometidos com a principal conspiração
de nossa história: a que pretendeu libertar o Brasil do domínio
português.
Mulheres que padeceram a dor de ver seus companheiros presos, torturados,
degredados, os bens sequestrados, a infâmia proclamada sobre
sucessivas gerações, sem a esperança de, no futuro,
voltar a abraçá-los. Só uma delas o conseguiu.
Tomás Antônio Gonzaga, quarentão, apaixonou-se
por Maria Doroteia Joaquina de Seixas, 23 anos mais nova do que ele.
Eternizada sob o pseudônimo poético de “Marília
de Dirceu”, os poemas apaixonados teriam sido escritos antes de o
autor enamorar-se dela. Segundo Tarquínio J. B. de Oliveira,
a verdadeira “Marília” é Maria Joaquina Anselma de Figueiredo,
viúva enricada, amante de Luís da Cunha Menezes.
Os atritos de alcova entre o governador e o ex-ouvidor de Vila Rica
teriam dado ensejo a que este redigisse, sob autoria anônima,
as “Cartas Chilenas”, nas quais desprestigia Menezes, tratado pela
alcunha de “Fanfarrão Minésio”.
Gonzaga, promovido para a Bahia, valeu-se do noivado com Maria Doroteia
para prolongar sua permanência em Vila Rica e, assim, encobrir
sua militância na conjuração. A delação
de Silvério dos Reis os impediu de casar. O poeta, degredado
para Moçambique, ali constituiu família. Maria Dorotéia
faleceu em Minas aos 85 anos.
Bárbara Heliodora, mulher de Alvarenga Peixoto, teria evitado
que o marido, uma vez preso, passasse de conspirador a delator. Ao
ser decretado o sequestro de todos os bens dos conjurados, ela conseguiu
provar ser casada em separação de bens e, assim, manter
a posse do que lhe pertencia.
Nos meus tempos de grupo escolar, os alunos recitavam emocionados
o poema que Peixoto, encarcerado no Rio, lhe dedicara: “Bárbara
bela / Do Norte estrela / Que o meu destino / Sabes guiar, / De ti
ausente / Triste somente / As horas passo / A suspirar. / Por entre
as penhas / De incultas brenhas / Cansa-me a vista / De te buscar.
(...)”
O romantismo criou o mito de que Bárbara Heliodora teria enlouquecido
ao ver o marido condenado ao degredo na África. As fontes históricas
atestam que soube gerir o seu patrimônio e educar os filhos
José, João e Tristão, internados no colégio
de Itaverava.
Outra mulher que merece destaque é Inácia Gertrudes,
a quem Tiradentes recorreu, no Rio, à notícia de que
o vice-rei o perseguia. Viúva de Francisco da Silva Braga,
porteiro da Casa da Moeda, vivia com sua filha única, de 29
anos, a quem Tiradentes curara de uma chaga cancerosa.
Para evitar maledicências por abrigar o líder conjurado
em casa de uma viúva e uma moça solteira, convocou seu
sobrinho, padre Inácio Nogueira de Lima, e encarregou-o de
procurar seu compadre, o ourives Domingos Fernandes da Cruz, que homiziou
Tiradentes. Ali o prenderam.
Quitéria Rita era filha de Chica da Silva com o contratador
de diamantes João Fernandes de Oliveira. Chica havia nascido
escrava na fazenda do pai de padre Rolim; era, portanto, sua irmã
de criação. O padre e Quitéria amasiaram-se,
embora não vivessem sob o mesmo teto. Antes de ser preso, Rolim
cuidou de internar Quitéria e as filhas no Recolhimento de
Macaúbas (ativo até hoje).
Rolim passou 13 anos encarcerado em Portugal. Em 1805, aos 58 anos,
retornou ao Brasil e bateu à porta do Recolhimento, onde resgatou
Quitéria e os filhos, instalando-se em Diamantina. Como fiel
Penélope, ela jamais perdeu a esperança de rever o amado.
Hipólita Teixeira, rica e culta, casou-se com o coronel Francisco
Antonio de Oliveira Lopes. Preso o marido, e degredado para a África,
teve ela todos os bens sequestrados. Foi ela quem contra-atacou, em
carta ao Visconde Barbacena, governador de Minas, a delação
de Joaquim Silvério dos Reis. E também redigiu e espalhou
os avisos sigilosos dando notícias aos conjurados de que Tiradentes
havia sido preso no Rio, a 10 de maio de 1789.
História é substantivo feminino. Contudo, nela as mulheres
costumam figurar como mera adjetivação de heróis
masculinos. É hora de voltarmos aos tempos em que os hebreus
ressaltavam a atuação destemida de mulheres, a ponto
de a Bíblia incluir três livros com seus nomes: Rute,
Judite e Ester. Sem contar a erótica do “Cântico dos
Cânticos” e a gloriosa mãe dos sete irmãos mártires
descrita no Segundo Livro dos Macabeus.
Qualquer pessoa minimamente catequizada talvez saiba citar os nomes
dos 12 apóstolos de Jesus. Mas quem se lembra de que, de seu
grupo de discípulos, participavam também mulheres cujos
nomes estão registrados no evangelho de Lucas (8, 1): Maria
Madalena, Joana, Susana “e várias outras”?
Frei Betto é escritor, autor do romance
“Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros. http://www.freibetto.org