36 anos depois, uma página por virar


por Felipe Santa Cruz *

Há trinta e seis anos e dois meses meu pai, Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira, desapareceu juntamente com seu companheiro de lutas, Eduardo Collier Filho. Nunca foi negado ou desconhecido que o seu desaparecimento ocorreu na esteira da “operação” que, na virada dos anos 73/74, dizimou o comando da Ação Popular – AP, grupo de origem católica que resistia à ditadura militar instaurada desde 1964.

Meu pai, estudante de direito, casado e pai de uma pequena criança de dois anos de idade, nunca havia militado na luta armada ou mesmo estado na dita clandestinidade. Pelo contrário. À época do seu desaparecimento, era servidor público do Estado de São Paulo, com endereço obviamente conhecido das autoridades públicas.

Filho de uma família com tradicional histórico político e jurídico em Pernambuco, irmão de perseguidos e exilados, meu pai era apenas um jovem apaixonado pelo seu país e pela liberdade. Na solidariedade aos companheiros clandestinos, lutava, à sua maneira e como tantos outros, contra o monstro do arbítrio que calava seu país e sua geração.

Após seu desaparecimento, muitas foram as informações e medidas tomadas por nossa família, em especial por minha avó Elzita Santa Cruz. A solidariedade se deu na luta de nomes que preenchem minha memória de admiração e gratidão como Marcos Freire, Fernando Lira, Chico Pinto, Cristina Tavares e até militares insuspeitos de “subversão” como o Marechal Juarez Távora e o Comandante Ernani do Amaral Peixoto. Todos cobraram das autoridades a devolução de meu pai com vida ou mesmo o destino de seu corpo. Não se acovardaram. A OAB e grandes colegas, em especial nosso eterno Modesto da Silveira, cerraram fileiras nesse movimento que teve como fruto mais dramático uma triste reunião em que o então todo poderoso general Golbery do Couto e Silva afirmou à minha mãe que fosse para casa aguardar o retorno do marido. Até hoje a promessa não foi cumprida.

Como filho, poderia falar da clara chaga que é a perda de um pai antes mesmo de poder realmente conhecê-lo. As frustrações e os temores de uma infância de perseguições, escondido em inúmeras cidades sob precárias condições financeiras, as condições dos perseguidos. Poderia ainda falar da vitória dos que lutaram pela queda dos tiranos, falar que na alvorada dos anos 80 o céu se abriu neste país e orgulhoso, já adolescente, vi os companheiros de meu pai participarem da grande construção da nossa democracia, enquanto seus algozes se escondiam derrotados e humilhados. Tudo isso é sabido e seria desnecessário reafirmar.

Então, o que falta? Não vencemos, mesmo que com o custo de vidas? Qual a razão de insistirmos no tema?

Simples. Preciso saber o destino dado aos restos mortais de meu pai e de tantos outros que tombaram na militância contra os golpistas. Nas cidades, nas fábricas, nas favelas, no Araguaia. Vidas em aberto que aguardam o esclarecimento do momento crucial na existência dos homens, o fechamento do ciclo da vida.

O Brasil optou por um modelo esdrúxulo de “página virada”, que nada mais é que a defesa da amnésia. Não devemos confundir a busca da verdade com rancor. Ou mesmo com a punição dos culpados, ainda que tardia. Rancor e punição podem desafiar o debate, mas não se pode admitir qualquer debate sobre o direito dos familiares ao esclarecimento das condições de morte e prisão destes homens e mulheres e, principalmente, do destino de seus corpos.

Eu mesmo me pego por vezes cansado deste tema. Eu mesmo me pergunto se não é hora de virar a página. Não são cinco dias. São trinta e seis anos. Não sou homem de rancor. Sempre aprendi que o melhor da vida está por vir, que o homem deve buscar sempre olhar para frente. Sei que é polêmico, mas não defendo nem mesmo a prisão dos assassinos do meu pai, pois ver um velho torturador preso em nada pacificaria meu coração, não mudaria o que aconteceu. Eles, se vivos, devem conviver diariamente com as próprias consciências. Não há pena maior.

Agora, como não contar o fim desta história aos meus quatro filhos, netos de Fernando Santa Cruz? Como “virar a página” se ela não foi inteiramente escrita? Quero poder contar às minhas crianças:

- Seu avô era um estudante de vinte e seis anos, jovem barbudo e apaixonado, homem de grande coragem. Foi preso, torturado e morreu lutando pela democracia, como muitos antes dele e espero que mais ninguém no futuro. Hoje vamos visitar seu túmulo.

Simples, humano e, até agora, negado...

* Felipe Santa Cruz é presidente da Caarj, a Caixa de Assistência dos Advogados da OAB-RJ e advogado de sindicatos filiados à Federação. Em 2005, candidatou-se a vereador pelo PT.