Valorizar os funcionários é valorizar a Caixa


Por Luiz Ricardo Maggi *

 

 

 

 

 

Pelo terceiro ano consecutivo a greve dos funcionários da Caixa se estende além da greve dos demais bancários. A intransigência da direção da empresa e a insensibilidade às questões específicas dos empregados tem resultado em negociações difíceis, que evoluem lentamente, aumentando a insatisfação do funcionalismo e levando ao prolongamento das paralisações. Esta situação é negativa para todos: os bancários, que vivem a incerteza e o desgaste da paralisação; as entidades sindicais, que vivem a tensão política e as despesas do movimento prolongado; a própria Caixa, que tem suas atividades prejudicadas; a população, principalmente a parcela menos favorecida, que enfrenta dificuldades para o atendimento de suas necessidades; e o governo federal, que tem sua imagem arranhada perante a opinião pública. Ninguém ganha, todos perdem. Então, por que insistir num modelo de negociação que já se mostrou equivocado e prejudicial?

A situação é provocada pela inabilidade da comissão de negociadores da Caixa, ligada à equipe de Gestão de Pessoas. Em 2008 a empresa chegou ao cúmulo de contrariar a Convenção Coletiva assinada com a Fenaban e impor ao funcionalismo a compensação até mesmo nos fins de semana e períodos noturnos e o desconto dos dias não compensados dentro do prazo acordado. Isso provocou uma chuva de ações judiciais contra a Caixa em todo o país e o desgaste de todas as partes. Este ano, pela primeira vez, a Caixa enfrentou a paralisação de 50 dias dos empregados da carreira profissional, provocando um impasse que quase levou ao julgamento do dissídio. Na ocasião, o próprio ministro do TST responsável pela conciliação apresentou uma proposta que foi aceita pelos funcionários, mas rejeitada pela empresa. Isso demonstra claramente a intransigência e o equivoco no encaminhamento das questões trabalhistas.

Esta inabilidade também é observada nas negociações permanentes, com a dificuldade de se avançar nas questões discutidas ao longo do ano, fora da campanha salarial. Falta também transparência na divulgação das informações, que leva à desconfiança dos trabalhadores e do movimento sindical. Esta postura, comum na era FHC, não faz mais sentido num governo democrático e popular. O Presidente Lula tem destacado a importância da Caixa para o desenvolvimento do país e vem apostando na empresa e na competência dos seus funcionários para implementar e operacionalizar seus programas sociais, que vêm contribuindo decisivamente para o desenvolvimento do país, a erradicação da pobreza e da fome e a melhoria geral das condições de vida do povo brasileiro.

Diante do sucesso deste empenho da Caixa e, principalmente, do seu corpo funcional, nos programas sociais do governo, é preciso que se crie uma forma de mensurar este desempenho para que os empregados sejam recompensados por seu trabalho. A PLR e o reajuste são condicionados aos resultados financeiros, realizados pela parte comercial da Caixa, que se assemelha a qualquer outro banco. Mas a Caixa não é uma instituição financeira como as outras e a área voltada para o mercado responde por uma parcela pequena de todo o trabalho realizado dentro da empresa. Sendo assim, a recompensa oferecida aos funcionários não tem sido nem justa, nem compatível com o trabalho realizado.

A postura da Caixa nas negociações contrasta com a do BB, que demonstra mais habilidade e respeito pelos empregados. Ao contrário, a Caixa tem procurado intimidar o movimento sindical, ameaçando ajuizar dissídio no TST, o que se concretizou este ano, com pedido de liminar de abusividade da greve e imposição do fim do movimento. Mas é preciso ressaltar que, em muitos assuntos, a Caixa está muito à frente do outro banco público federal. É o caso do PCS, que já foi conquistado há dois anos, fruto de uma intensa luta dos funcionários e do movimento sindical. Quanto à isonomia entre os antigos e novos concursados, já obtivemos avanços importantes, embora ainda haja muito a avançar. O próprio aumento do piso, conquistado este ano pelos empregados do BB, é uma tentativa de equiparar o salário do quadro funcional do banco ao da Caixa, que é superior ao definido na mesa da Fenaban.

Apesar da proposta da Caixa estar longe do ideal, com o fim da greve o movimento sindical e a Comissão de Empresa vão concentrar seus esforços nas negociações permanentes. O primeiro desafio é arrancar da Caixa a implementação do PCC já em dezembro deste ano, conforme promessa da direção da empresa colocada na mesa de negociação. A expectativa é que o modelo apresentado contemple os funcionários comissionados, ofereça uma perspectiva de carreira clara e consistente e permita a extinção gradativa do CTVA, reivindicação antiga do movimento sindical. O próximo passo é reabrir a discussão da promoção por merecimento para corrigir distorções e ampliar o número de empregados elegíveis. A aplicação do delta valoriza o salário-base do funcionário e o torna menos dependente da função de confiança.

Quando uma campanha salarial termina, imediatamente começamos outra. Para 2010, vamos insistir numa PLR que inclua a mensuração dos resultados sociais, na isonomia em questões como a concessão de licença-prêmio a todos os concursados e na melhoria das condições de trabalho. Para conquistar tudo isso, é preciso que, cada vez mais, todos os empregados, independente de seus cargos, estejam mobilizados, participando das assembleias e construindo a greve no dia a dia dos piquetes. Só assim, a Caixa entenderá que valorizar os funcionários é valorizar a própria empresa.

* Luiz Ricardo Maggi é representante da Feeb RJ/ES na Comissão de Empresa da Caixa