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por
Frei Betto
Com certeza você, como eu, está indignado
frente à hipótese – já transformada em denúncia pela autoridade policial
e aceita pelo juiz – de um pai ter assassinado a filha ao permitir que
fosse asfixiada; em seguida, teria jogado-a pela janela, de uma altura
de 18 metros.
Filho não é camisa, é pele. Não sou pai, mas como filho sei quão
visceral é a relação entre um e outro. Por isso, o parricídio se destaca
como um crime monstruoso, assim como a pedofilia entre pai e filha, como
é o caso de Josef Fritzl, o austríaco que, por 24 anos, manteve a filha
em cárcere privado e com ela teve sete filhos.
Diante de casos como esses a nossa condição humana é profundamente
interpelada. De quanta maldade somos capazes? Não foi um homem
transtornado por drogas que atirou a filha pela janela, nem era um
ignorante da periferia do mundo que escravizou e abusou da própria
filha. Um é bacharel em Direito na mais moderna metrópole brasileira;
outro, engenheiro elétrico na Áustria.
As pessoas manifestam incontida indignação diante de casos como esses.
Defronte as residências dos acusados, centenas permanecem em vigília e
cobram vingança. A mídia mantém o noticiário aquecido, pois raras vezes
seus veículos deram tanto ibope. Como um pai é capaz de matar a filha ou
maltratar a ponto de encarcerá-la, torturá-la e estuprá-la?
“Pano”- assinalam os roteiros de teatro para indicar a passagem de um
ato ao outro. Você é cristão? Acredita que Deus Pai, ofendido com os
nossos pecados, assassinou o Filho na cruz? Que diabo de deus é este que
exige como reparação, para aplacar a sua ira, a morte do próprio Filho?
Por que esse deus não é execrado como os pais citados acima? Por que
aceitar que, no Gólgota, ocorreu o mais horrendo de todos os
parricídios? Como conciliar a idéia de Deus Amor com a crença no deus
parricida que nos envia Jesus para que ele seja preso, torturado,
humilhado e cravado numa cruz?
Há, em hermenêutica literária, o que se chama migração de sentido, que
os gregos antigos denominavam dipticon. Exemplo são os vitrais de
igrejas: de um lado, Moisés; de outro, Jesus. Para o observador, o
significado de um se transfere a outro – Jesus é o novo Moisés. Essa
migração de sentido ocorre ao se cotejar Antigo e Novo Testamentos.
O Gênesis (22, 1-18) relata que Javé exigiu de Abraão, como prova de fé,
o sacrifício de seu único filho, Isaac. O patriarca subiu a montanha
disposto a derramar o sangue do menino. Ao ter certeza de que Abraão não
vacilaria no ato parricida, Javé teria se dado por satisfeito;
segurou-lhe a mão e evitou a morte de Isaac.
No calvário, o próprio Deus teria entregue o Filho à morte pela redenção
de nossos pecados. Se Deus pratica o parricídio, por que tanta
indignação quando um de nós o faz? Essa ótica teológica nos incute a
convicção de que somos pecadores. A culpa. Ora, deveríamos experimentar,
sobretudo, a graça de ser filhos de Deus. O amor.
Os autores bíblicos projetaram em seus textos categorias próprias da
cultura que respiravam. Abraão, criado no politeísmo e acostumado a
prestar culto através da oferenda de primícias – das colheitas ao
primogênito – descobre, no alto da montanha que, ao contrário de outros
deuses, Javé não quer a morte, quer a vida. “Multiplicarei a tua
posteridade como as estrelas do céu e os grãos de areia na praia do mar”
(22, 17). Ao descobrir Javé como Deus da Vida, Abraão não sacrifica o
filho.
Do mesmo modo, Jesus não foi morto pela vontade de Deus, e sim pela
maldade dos homens. A cruz não é a culminância de uma tragédia cujo
roteiro saiu da pena – ou da vontade – de um perverso e parricida autor
divino. Jesus morre como prisioneiro político, assassinado por decisão
de dois poderes que dominavam a Palestina do século I. Ousou anunciar,
no reino de César, um outro reino, o de Deus. Atreveu-se a “profanar” o
Templo de Jerusalém, qualificando-o de “covil de ladrões” (Mateus 21,
13), e agrediu cambistas que ali faziam negócios autorizados pelos
responsáveis do culto.
O Deus de Jesus não era um déspota. Era um Pai amoroso a quem o Filho
tratava por “abba” (Marcos 14, 16), palavra aramaica que significa
“querido papai”. Jesus não veio para apontar o dedo e acusar-nos de
incorrigíveis pecadores. Veio para nos revelar que, “como o Pai me amou,
assim também eu vos amei; permanecei no meu amor” (João 15, 9).
Apesar de nossos pecados, há salvação, porque Deus é Pai/Mãe amoroso e
misericordioso. Fomos criados à sua imagem e semelhança e dele
recebemos, em nosso espírito, o seu Espírito. Portanto, devemos amar uns
aos outros, assim como somos por Ele amados.
Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Leonardo Boff, de “Mística
e Espiritualidade” (Garamond), entre outros livros.
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