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por
Frei Betto
Sei o que experimentou Jacó ao duelar com o anjo. Enfrentei-o quando aos
meus pés faltou chão e, no horizonte, o sol se apagou aos meus olhos. A
escuridão invadiu-me: primeiro engoliu as pernas; em seguida, os braços;
depois, todo o meu ser. Por fim, dragão insaciável, tragou-me a
identidade.
Mergulhado na noite, partido, perdido, exilei-me em dúvidas. No início,
senti-me sugado pelo abismo. Tudo em volta se me evaporou. Fiquei às
tontas, em queda livre num poço sem fundo. Todas as minhas certezas se
volatilizaram, meu mapa converteu a geografia num hermético labirinto,
minhas crenças professaram a negação de toda fé. Cego, viajei numa
espiral alucinada, acorrentado à desrazão da insensatez. Sufocava-me o
afluxo da vida em despropósito. Náufrago num oceano vazio de águas e
limites, ocupei o lugar de Jonas no ventre da baleia.
Não há sofrimento maior do que perder-se de si torturado pelo esplendor
da lucidez. Quem me dera, naquela noite escura, fosse eu tomado pela
sadia loucura dos atropelos irreversíveis da mente. Quisera, qual
demente, estar fora de mim sem a consciência do banimento ontológico. E
apoiar-me em qualquer uma das referências que, até então, haviam servido
de marco em minha estrada de vida: um sonho, um encantamento, uma idéia
compulsiva, um desejo irrefreável, uma crença em forma de sacrário. Ao
menos um ruído, como o apito do trem que cortava a minha cidade e,
agora, ainda atravessa-me a nostalgia do coração. Ou o cheiro morno do
pão de queijo trazido do forno à mesa, a suave elasticidade do polvilho,
o aroma adocicado e quente do café.
Nada disso me consolava. Havia apenas o vazio, o vazio, o vazio. O caos
primordial, antes que Javé despertasse de seu sono eterno e, distraído,
tropeçasse na idéia de criar o mundo.
Deu-se então o início do meu aprendizado. Primeiro, a consciência de que
era preciso fazer a travessia. Às cegas. Jogar-me no rio sem a menor
noção de quão distante se encontrava a margem oposta. Caminhar rumo ao
plexo solar. Desatar os nós. Mergulhar naquele abismo infindável,
atirar-me do trapézio com os olhos vendados, empreender a ousada viagem
no rumo da morte, apoiado apenas por um fio de esperança: do lado de lá
me aguardava, não a morte, e sim a plenitude da vida.
Caminhei na senda escura entre escorpiões e escaravelhos, aranhas e
lagartos, a mente assaltada por fantasmas que, nela, suscitavam desde as
mais pavorosas fantasias ao hedonismo desenfreado. Desprendida da alma,
a imaginação se ensoberbece e cavalga, alada, o carrossel da luxúria. A
razão desalinha, as idéias esvoaçam, os propósitos atolam-se na lassidão
do espírito fenecido.
É preciso pôr-se de joelhos e, reverente, escutar o silêncio. Como
Elias, não aguardar o trovão, o rugir dos ventos, a voracidade
flamejante do fogo. Apenas a brisa suave, assim como o navegador, finda
a borrasca, recebe contente a chegada da calmaria. Mas isso custa. Isso
é inesperado, indescritível, mistérios dos mistérios. Para chegar lá,
urge amansar leões, enfrentar dragões, conviver, destemido, no ninho das
serpentes. E saber perder. Vão-se as ilusões, as máscaras; vai-se aquele
outro que insiste em se disfarçar de eu. No fogo tímido da lenha úmida,
todas as falsas verdades são lentamente queimadas. Então, instaura-se a
nudez. É a hora da vertigem.
No duelo com o anjo, apenas na hora da vertigem me dei conta de que não
brotava de minhas forças o ímpeto que me fazia atingir a terceira margem
do rio. Alguém soprava o vento que inflava as velas de meu barco. Alguém
movia as águas. Essa consciência de que uma estranha energia me impelia
sem que eu pudesse identificá-la, tornou-se progressivamente aguda. Sim,
minha vontade havia dado o primeiro passo; minha razão denunciara,
insistente, a insensatez da travessia; meus atavismos resistiram a
abandonar a margem de origem.
Havia, porém, um outro fator que só percebi ao perder de vista a margem
que deixara sem, no entanto, vislumbrar a oposta. A queda transmutou-se
em ascensão; o abismo, em montanha; a vertigem, em enstase. (Atenção
editor: o termo, teológico, é este mesmo, enstase, e não êxtase)
O anjo depôs armas, afastou-se da porta do Éden e deixou que Ele se me
apossasse. Fiquei visceralmente apaixonado. Tudo em mim e à minha volta
transluzia amor. E nada me atraía mais fortemente do que perder tempo na
alcova. Outra coisa eu não pensava nem queria ou desejava do que
sentir-me abrasado de amor. As entranhas queimavam; o peito ardia em
febre; a mente, calada, observava a razão tragada pela inteligência. Eu
me encontrava em alguém fora de mim que, no entanto, se escondia no
recanto mais íntimo do meu ser e, de lá, projetava a sua luz sem se
deixar ver ou tocar.
Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Leonardo Boff, de “Mística
e Espiritualidade” (Garamond), entre outros livros.
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