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por
Frei Betto
Orar
é entrar em sintonia com Deus. Há muitas maneiras de fazê-lo, e não se
pode dizer que esta é melhor que aquela. Há orações individuais ou
coletivas, baseadas em fórmulas ou espontâneas, cantadas ou recitadas.
Os salmos, por exemplo, são orações poéticas, das quais cerca de cem
expressam lamentação e/ou denúncia, e cinqüenta, louvor.
Nós, ocidentais, temos dificuldade de orar, devido ao nosso
racionalismo. Em geral, ficamos na soleira da porta, entregues à oração
que se apóia nos sentidos (música, dança, mirar vitrais ou paisagens
etc) ou na razão (fórmulas, leituras, reflexões etc).
Orar é entrar em relação de amor. Como ocorre entre um casal, há
níveis de aprofundamento entre o fiel e Deus. Uns oram como o namorado
que fala demais no ouvido da namorada. Como se Deus fosse surdo e
burro. Parecem aquela tia que liga e fala tanto, tanto, que minha mãe
deixa o fone, mexe a comida nas panelas, e retorna, sem que sua
ausência seja percebida.
Jesus sugeriu não multiplicar as palavras. Deus conhece os nossos
anseios e necessidades. O próprio Jesus, narra o evangelho, gostava
de retirar-se para lugares ermos para entrar em oração. "Jesus foi para
a montanha a fim de rezar. E passou toda a noite em oração a Deus" (Lucas
6, 12).
Na oração, é preciso entregar-se a Deus. Deixar que ele ore em nós.
Se temos resistência à oração é porque, muitas vezes, tememos a
exigência de conversão que ela encerra. Parar diante de Deus é parar
diante de si mesmo. Como num espelho, ao orar vemos o nosso verdadeiro
perfil - dobras do egoísmo realçadas, mágoas acumuladas, inveja
entranhada, apegos enrijecidos. Daí a tendência a não orar ou fazer
orações que não revirem ao avesso a nossa subjetividade.
Os místicos, mestres da oração, sugerem aprendermos a meditar.
Esvaziar a mente de todas as fantasias e idéias, e deixar fluir o sopro
do Espírito no silêncio do coração. É um exercício cujo método a
literatura mística ensina. Mas é preciso, como Jesus, reservar tempo
para isso. Assim como a relação de um casal arrefece se não há momentos
de intimidade, do mesmo modo a fé se debilita se não nos recolhemos em
oração.
Oramos para aprender a amar como Jesus amava. Só a força do Espírito
dilata o coração. Portanto, uma vida de oração se avalia, não pelos
momentos entregues a ela, e sim pelos frutos na vida cotidiana: os
valores elencados como bem-aventuranças no Sermão da Montanha (Mateus
5, 1-12). Ou seja, pureza de coração, desprendimento, fome de justiça,
compaixão, destemor nas perseguições etc.
Orar é deixar-se amar por Deus. É deixar o silêncio de Deus ressoar
em nosso espírito. É permitir que ele faça morada em nós. Sem cair no
farisaísmo de achar que a minha oração é melhor do que a sua, como
aquele fariseu frente ao publicano (Lucas 18,9-14). Quem ora
procura agir como Jesus agiria. Sem temer os conflitos decorrentes de
atitudes que contradizem os antivalores da sociedade consumista e
individualista em que vivemos.
Orar é subverter-se a si próprio. Centrado em Deus, o orante
descentra-se nos outros, e imprime à sua vida a felicidade de amar
porque se sabe amado. Parafraseando Jó, antes de orar se conhece a Deus
"por ouvir falar". Depois, por experimentar. O que levou Jung a
exclamar: "Eu não creio. Eu sei".
Frei Betto é escritor, autor de “Entre todos os homens”,
biografia romanceada de Jesus (Editora Ática).
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