Joaquim Maria Machado de Assis faleceu há 100 anos. João Guimarães
Rosa nasceu há 100 anos. Os dois imprimiram dimensão estética ao
enigma do feminino: Capitu, por Joaquim; Diadorim, por João. Os dois
morreram no Rio, os dois em casa, os dois sozinhos. Joaquim no Cosme
Velho, viúvo; João em Copacabana, a 19 de novembro de 1967, quando a
mulher saíra para a missa.
Carioca, autodidata, fundador da Academia Brasileira de Letras,
Joaquim construiu uma obra de inesgotável polissemia. Seu estilo
revela a leveza da pena, graças às suas crônicas para jornais. Seus
textos parecem, à primeira vista, ao alcance de qualquer leitor.
Porém, exigem acuidade para serem captados em sua profusão de
símbolos, subterfúgios, entrelinhas e aparentes tautologias.
Mineiro de Cordisburgo – “cidade do coração” -, poliglota, médico e
diplomata, João reinventou a língua portuguesa, abrasileirou-a,
potencializou-a, implodiu as regras da narrativa convencional, fez do
sertão uma epopéia.
João observa o mundo pela cerca do pasto; Joaquim, pela janela do
sobrado. O primeiro é rural; o segundo, urbano. João se solta nas
águas límpidas dos grandes rios para pescar, nas profundezas, as
metafísicas interrogações do humano. Joaquim é intimista, realista,
encontra nos salões, numa conversa banal, a matéria-prima que lhe
permite desvelar recônditos segredos da alma.
João encara o mundo de baixo para cima, situado no lugar social dos
anônimos; pisa em bosta de vaca para descrever infinitudes. Joaquim é
quase dândi, apresenta-se de luvas e cartola e, aos poucos, rasga-nos
a fantasia, perfura a pele, escancara o coração, expõe as vísceras.
João é teólogo, apocalíptico; Joaquim, filósofo, irreverente. João é
assombro; Joaquim, ironia. Este ergue seu bico de pena e penetra nos
meandros de nossa inelutável insensatez; João, mete a foice e
desbasta, abre veredas em direções inesperadas.
Joaquim é cartesiano, explora a dúvida, o suspense, a ambigüidade, o
contraditório. João é barroco, retorce a gramática, subverte a
sintaxe, arranca o vocabulário de seu perfilar ordenado e o atira no
corpo de baile dos entremeios do espírito.
Joaquim faz de sua literatura uma caprichosa renda; vista à
distância, sua obra parece impecável toalha sobre a mesa, cuja beleza
resulta de seus intrincáveis bordados, só apreciados pelo leitor
arguto.
João prefere juntar os cacos espalhados pelo chão da vida e expor o
vitral de tantas sagas e aventuras. Seu talento é inalcançável, pois
isolou-se num universo vocabular e semântico único, singular; melhor
comparando, apagou o idioma da lousa e nos labirintos da sintaxe
reconstruiu-o letra por letra, palavra por palavra, num tecido
radicalmente local, esplendorosamente universal.
Nos dois, o domínio impecável da língua, o estilo cativante, o ritmo
preciso. Os dois são inimitáveis. Joaquim nos convida a um jogo
repleto de surpresas; João a uma viagem através do misterioso sertão
que cada um de nós traz dentro de si.
Este é um ano de muitas comemorações literárias. Há 400 anos nascia
o Padre Vieira (6/2/1608), que nos ensinou a reverenciar o idioma
português e, há 120 anos, Fernando Pessoa (13/6/1888), para quem “o
poeta é um fingidor/ finge tão completamente / que chega a fingir que
é dor / a dor que deveras sente”. Há 60 anos nos deixava Monteiro
Lobato, que encantou a minha infância e habituou-me aos livros.
Antonio Candido, o maior crítico literário vivo, autor do clássico
Parceiros do Rio Bonito, faz 90 anos. E há 90 anos
transvivenciou Olavo Bilac, que nos convida a ouvir estrelas. E
Manuel Bandeira falecia há 40 anos, ele que nos induz a surfar na
poesia: “A onda anda / aonde anda / a onda? / a onda ainda / ainda
onda / ainda anda / aonde? / aonde? / a onda / a onda”.
Frei Betto é escritor, autor de “Alfabetto – Autobiografia Escolar”
(Ática), entre outros livros.