Por
Denise Motta Dau *
A CUT
não tem medo da liberdade sindical, muito pelo contrário,
por ela luta. Prestes a completar 25 anos de idade, a jovem CUT
continua lutando para ser livre. Foi assim que ela nasceu, formou-se,
criou-se e consolidou-se, defendendo em sua concepção
e prática a liberdade e autonomia sindical. Esta luta nos
tornou, atualmente, a central sindical com maior representatividade
na classe trabalhadora brasileira e da América Latina.
A nossa batalha em defesa da liberdade teve como apoio a luta cotidiana
e estratégica nos locais de trabalho. Sim foi lá,
nas fábricas, escolas, hospitais, bancos e no campo, por
meio dos sindicatos portadores das sementes do chamado novo sindicalismo
que a idéia de uma livre organização sindical
construiu o seu pilar de sustentação.
As ricas ações de organização dos trabalhadores
e trabalhadoras a partir de seus locais de trabalho nasce da mobilização
– e das greves – visando melhorar a realidade local, resistir ao
autoritarismo gerencial, conquistar a negociação de
conflitos relacionados às condições de saúde
e segurança, jornada, ritmo de trabalho e salários,
mas também articuladas à campanha salarial da categoria
como um todo, ou mesmo aos temas de interesse da classe trabalhadora,
como greves gerais contra a inflação e pela democratização
do país.
Sem dúvida, a organização sindical no local
de trabalho cumpre um papel fundamental no enraizamento e acúmulo
de forças do sindicalismo para a disputa entre capital e
trabalho, seja visando simplesmente democratizar as relações
de trabalho onde o poder patronal é exercido mais diretamente,
seja inserida no enfrentamento das questões nacionais.
Segundo Loguércio*, "as comissões de empresa
ou de fábrica, não são uma novidade surgida
nos anos 80, no Brasil. Vários estudos apontam a existência
de formas organizativas, no interior das fábricas, desde
1919. O que se nota é que o surgimento de uma representação,
no interior da empresa, sempre esteve combinado: a) com a ausência,
no plano do Direito Positivo, de uma representação
no local de trabalho; b) com períodos de redemocratização
política no País. No entanto, nenhuma experiência
de comissão de fábrica foi tão rica de significados
para o questionamento da estrutura sindical e para a criação
de um novo sujeito, no campo das relações de trabalho
no Brasil, como as comissões surgidas a partir das greves
de 1978 no ABC paulista."
Além das experiências do setor metalúrgico do
ABC, outras experiências de organização nos
local de trabalho foram se implantando a partir da década
de 80 em diversos setores, tanto no setor público (em especial
na saúde e educação) como no setor privado,
bancários, eletricitários, químicos e rurais.
A denominação é variada: comissão, representante
de base, delegado sindical de base, conselheiro, mas o sentido de
dar cara e livre voz a organização sindical desde
o local de trabalho é a mesma. Essas experiências vieram
para ficar e crescer e são elas que dão expressão
ao sindicalismo cutista, sempre impulsionado por mobilização
e resistência, combinado ao processo de negociação.
É claro que precisamos, e muito, avançar para uma
estrutura sindical com maior liberdade e que regulamente na lei
para além do Artigo 11 da Constituição Federal
e da Ratificação da Convenção 87 da
OIT, questões fundamentais que acumulamos nos debates do
Fórum Nacional do Trabalho, como punição para
práticas anti-sindicais, direito a organização
no local de trabalho com estabilidade de seus representantes, negociação
coletiva permanente e financiamento democrático e autônomo
do sindicalismo. Porém, independentemente da lei, podemos
avançar, pois foi na prática que a CUT consolidou-se
até o recente reconhecimento legal em 2007.
Sabemos que muito ainda deve ser feito para ampliar a implantação
das OLTs. Sem elas, não teremos sindicatos fortes enraizados
desde o local de trabalho até o nível superior como
as federações e confederações, entidades
com real poder de pressão e, portanto, de negociação
diante dos empregadores, pois a força necessária para
a consolidação do sindicato é extraída
não só do seu número de sócios, mas
também de sua representatividade junto aos trabalhadores
na inserção e diálogo local.
Neste sentido, precisamos formar política e ideologicamente
novos quadros, romper com a velha cultura equivocada, de que a OLT
"disputa" com o sindicato. Devemos também priorizar
categorias mais frágeis e com maior rotatividade, implantando
experiências de OLTs, exigir nos acordos coletivos claúsulas
pertinentes ao direito de organização desde o local
de trabalho e criar novas, ou mesmo, atualizar nossas experiências
de OLTs acumuladas ao longo da história do movimento sindical,
adequando-as às mudanças do mundo do trabalho, que
nos desafiam cotidianamente, colocando frente a frente pessoas de
diversas profissões, raças, idades, gêneros,
orientações sexual, muitas vezes, com formas de contratação
precarizadas - tais como a terceirização - gerando
diferenças de direitos e deveres; trabalhadores estes que
mais que nunca precisam de uma organização sindical
unificada pois a CUT além de LIVRE é classista e democrática!
* Loguércio, José Eymard. Pluralidade Sindical:da
legalidade à legitimidade no sistema sindical brasileiro
/ José Eymard Loguércio –São Paulo LTr, 2000.
Denise
Motta Dau é Secretária Nacional de Organização
da CUT