A cobertura jornalística e seus limites


 

 

*Cláudio Damião Santos Pereira

 

      

 




A cobertura jornalística feita pelos grandes veículos de comunicação sobre a morte da menina Isabella Nardoni, atirada pela janela de um prédio, mais do que esclarecer os fatos, transformou-se numa guerra pela audiência entre os telejornais.
Não há quem não se comova com o fato de uma criança ser brutalmente assassinada. Ainda mais quando as suspeitas recaem sobre os pais. Mas é preciso cuidado com o tratamento que se dá aos fatos; há limites que precisam ser respeitados. Não se deveria fazer de uma tragédia como esta uma mini novela, com capítulos diários. Sangra-se o fato até não poder mais, como se espremessem uma laranja para fazer suco, deixando apenas o bagaço, numa confusa relação entre informação, sensacionalismo e comércio jornalístico, ainda que disfarçado sob uma capa de contida tristeza.
Na década de 90, foi sintomático o caso da Escola Base em São Paulo, onde, por excessiva e descuidada cobertura da grande mídia, os proprietários daquela escola foram, de certa forma, massacrados pelo pré-julgamento midiatico e, ao final, eram inocentes daquilo que lhes fora imputado, ou seja, a acusação de serem molestadores de crianças. No entanto, suas vidas foram destruídas, com prejuízos irreparáveis.
Por isso, o interesse excessivo da mídia na cobertura de casos como estes trás o risco de se imputar culpa a quem não a tem.
Afinal, ainda que se chegue à conclusão de que o pai da menina e sua madrasta foram os responsáveis pelo crime, a criminalização é tarefa da polícia; a da imprensa, informar.
Nós, telespectadores, no entanto, não podemos nos deixar levar pelas histerias coletivas, ou pela disputa de audiência dos telejornais, que são empresas que visam ao lucro.
Que o crime foi bárbaro, não se discute. Assim como não se discute que os seus autores devam ser exemplarmente punidos. Mas, outras tantas Isabellas são mortas todos os dias, de forma tão ou mais violenta que neste caso, pinçado pela grande imprensa nacional.
Com a exposição constante, com requinte de detalhes, a comoção é geral. Viramos todos, mesmo sem perceber, parte do júri que avalia o caso.
Várias manifestações de agressão aos familiares dos envolvidos já começam a ocorrer. Talvez, resultado do efeito manada, provocado pela enxurrada de repetidas notícias sobre o caso.
Aí mora um certo perigo e cabe a pergunta: será que vale tudo pela manutenção dos índices de audiência das emissoras?

*Presidente do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo
E-mail: claudiodamiao@pop.com.br



Publicado no jornal Alternativa