A
cobertura jornalística feita pelos grandes veículos
de comunicação sobre a morte da menina Isabella
Nardoni, atirada pela janela de um prédio, mais do que
esclarecer os fatos, transformou-se numa guerra pela audiência
entre os telejornais.
Não há quem não se comova com o fato de uma
criança ser brutalmente assassinada. Ainda mais quando
as suspeitas recaem sobre os pais. Mas é preciso cuidado
com o tratamento que se dá aos fatos; há limites
que precisam ser respeitados. Não se deveria fazer de uma
tragédia como esta uma mini novela, com capítulos
diários. Sangra-se o fato até não poder mais,
como se espremessem uma laranja para fazer suco, deixando apenas
o bagaço, numa confusa relação entre informação,
sensacionalismo e comércio jornalístico, ainda que
disfarçado sob uma capa de contida tristeza.
Na década de 90, foi sintomático o caso da Escola
Base em São Paulo, onde, por excessiva e descuidada cobertura
da grande mídia, os proprietários daquela escola
foram, de certa forma, massacrados pelo pré-julgamento
midiatico e, ao final, eram inocentes daquilo que lhes fora imputado,
ou seja, a acusação de serem molestadores de crianças.
No entanto, suas vidas foram destruídas, com prejuízos
irreparáveis.
Por isso, o interesse excessivo da mídia na cobertura de
casos como estes trás o risco de se imputar culpa a quem
não a tem.
Afinal, ainda que se chegue à conclusão de que o
pai da menina e sua madrasta foram os responsáveis pelo
crime, a criminalização é tarefa da polícia;
a da imprensa, informar.
Nós, telespectadores, no entanto, não podemos nos
deixar levar pelas histerias coletivas, ou pela disputa de audiência
dos telejornais, que são empresas que visam ao lucro.
Que o crime foi bárbaro, não se discute. Assim como
não se discute que os seus autores devam ser exemplarmente
punidos. Mas, outras tantas Isabellas são mortas todos
os dias, de forma tão ou mais violenta que neste caso,
pinçado pela grande imprensa nacional.
Com a exposição constante, com requinte de detalhes,
a comoção é geral. Viramos todos, mesmo sem
perceber, parte do júri que avalia o caso.
Várias manifestações de agressão aos
familiares dos envolvidos já começam a ocorrer.
Talvez, resultado do efeito manada, provocado pela enxurrada de
repetidas notícias sobre o caso.
Aí mora um certo perigo e cabe a pergunta: será
que vale tudo pela manutenção dos índices
de audiência das emissoras?
*Presidente do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo
E-mail: claudiodamiao@pop.com.br
Publicado no jornal Alternativa