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por
Frei Betto
Conheci Fidel em 19 de julho de 1980,
em Manágua, por ocasião das comemorações do primeiro aniversário da
Revolução Sandinista, ao qual compareci em companhia de Lula. Frente à
oportunidade de conversar com o líder cubano, dei ouvidos ao meu anjo
da guarda: "Esta é provavelmente a única vez que você será ouvido por
ele. Fale da Igreja".
Descrevi as Comunidades Eclesiais de Base e salientei como a
gente sofrida da América Latina encontra na fé cristã a energia
necessária à busca de uma vida melhor. Muitos partidos comunistas
falharam por professarem um ateísmo apologético que os afastou dos
pobres imbuídos de religiosidade.
Fidel traçou um longo histórico da Igreja em Cuba, acentuou o
caráter franquista do clero anterior à Revolução e os conflitos
ocorridos à raiz da vitória dos guerrilheiros de Sierra Maestra, em
1959.
— Comandante, qual é a atitude do governo cubano frente à
Igreja? – perguntei-lhe. E acrescentei: — A meu ver, há três
possibilidades: a primeira, tentar acabar com a Igreja e a religião. A
história demonstra ser impossível, e tal postura ajudaria a reforçar a
campanha dos que insistem numa ontológica incompatibilidade entre
cristianismo e socialismo. A segunda, manter Igreja e cristãos
marginalizados. Isso favoreceria a política de denúncia do que ocorre
nos países socialistas, como o desrespeito à liberdade religiosa. A
terceira, abertura aos cristãos interessados em participar da
construção do socialismo. Qual das três o governo cubano assume?
— Nunca havia encarado a questão nesses termos – admitiu Fidel
-, mas a terceira me parece mais sábia. Você tem razão, devemos buscar
melhor entendimento com os cristãos, superando qualquer forma de
discriminação.
Indaguei-lhe ainda por que o Estado e o PC cubanos eram
confessionais. Ele estranhou: “Como confessionais?” Expliquei que
afirmar ou negar a existência de Deus é ignorar uma das conquistas da
modernidade: o caráter laico do Estado e dos partidos. Pouco depois,
Estado e PC cubanos deixaram de ser oficialmente ateus e passaram a
laicos.
O líder cubano me propôs ajudar o Estado a se reaproximar da
Igreja Católica. Há anos não se encontrava com nenhum bispo católico,
malgrado suas boas relações com a embaixada do Vaticano em Havana e as
Igrejas protestantes. No ano seguinte, o episcopado de Cuba aceitou-me
como intermediário na reaproximação Igreja-Estado, tarefa que
desempenhei durante dez anos e teve seu ápice com o lançamento, em
1985, do livro “Fidel e a Religião”, no qual o entrevistado confirmou
o direito de liberdade religiosa na Ilha.
Ao visitar Havana em fevereiro de 1985, fui convidado a jantar
em casa de Marina Majoli e Chomy Myiar; ele, secretário particular de
Fidel. Em torno da mesa, Armando Hart, ministro da Cultura; Manuel
Piñeiro, chefe do Departamento de América; e sua mulher, Marta Harnecker,
intelectual chilena.
Chomy preparou a comida: arroz, feijão preto, carne de porco
assada, mandioca cozida e banana frita. Típico cardápio cubano - e,
por coincidência, típico cardápio mineiro, o que só os africanos
vindos como escravos para a América explicam.
Chomy comentou que Fidel também gostava de pilotar um fogão. Ao
café, cerca de meia-noite, o Comandante entrou. Tomou assento entre
livros e discos, aceitou uma única dose cowboy de uísque e
bebericou lentamente.
— Descobri uma área na qual somos concorrentes - disse a ele.
— Qual?
— Cozinha. Sou filho de uma especialista. Minha mãe é autora de
um clássico, Fogão de Lenha, 300 anos de cozinha mineira.
— Como ela fez a pesquisa? - indagou.
— Percorreu o interior de Minas, recolheu velhos cadernos de
receitas, coletou textos sobre culinária em romances e ensaios.
— Comer é bom mas engorda - observou Piñeiro.
— Depende, quem mastiga muito engorda pouco - retruquei.
— Minha especialidade são os camarões – gabou-se Fidel.
— Mas garanto que nunca provou um bobó de camarão - arrisquei.
Pediu-me para descrever a receita devagar, de modo a
memorizá-la. Esta uma característica do líder cubano: a memória
privilegiada.
— Cozinhe os camarões com casca até a primeira fervura da água -
expliquei. — Retire-os e, ao esfriarem, descasque-os. Tempere com sal
e limão. À parte, cozinhe a mandioca, corte em pedaços e bata no
liquidificador com a água de cozimento dos camarões. Coloque água
suficiente para obter uma pasta de mandioca relativamente espessa,
nunca mole como mingau. Misture a pasta com os camarões. Na
frigideira, prepare os temperos: azeite-de-dendê bem quente, cebola e
alho picados, sal, pimenta a gosto, tomates descascados e espremidos
ou molho de tomate espesso. Deixe curtir bem e misture na pasta de
mandioca com os camarões. Tire do fogo e acrescente leite de coco. O
segredo da receita é bater a mandioca na mesma água em que se cozinham
os camarões.
— Posso fazê-lo - garantiu Fidel - desde que você me envie o
azeite-de-dendê, que não temos aqui. De onde vem este prato?
— Creio que dos escravos. Eles tinham na mandioca a base de sua
alimentação, como ainda hoje os nossos índios. Feita a pasta,
misturavam os restos da casa-grande. Pode-se fazer também bobó de
galinha ou mesmo com pequenos pedaços de peixe assado, sem espinhas.
Dias depois, Cuba importou do Brasil uma grande quantidade de
azeite-de-dendê.
Frei Betto é escritor, autor de “Comer como um frade – divinas
receitas para quem sabe por que temos um céu na boca”
(José Olympio), entre outros livros.
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