OS 40 ANOS DE “SGT. PEPPER´S LONELY HEARTS CLUB BAND’

 por Sérgio Farias

Uma singela homenagem

 

  Muitos críticos não hesitam em afirmar que, além dos Beatles terem levado o rock´n´roll ao patamar de obra de arte, eles também tiveram o mérito de valorizar o álbum e não o single como era de costume antes deles na música pop. O que os críticos se dividem é em afirmar que esta mudança aconteceu a partir do álbum “Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band”, lançado há quarenta anos. Outros especialistas acreditam que, desde o primeiro álbum deles “Please Please Me”, de 1963, a concepção artístca do rock´n´roll mudou. Divergências a parte, o álbum “Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band” é quase uma unanimidade entre as mais respeitadas listas, que o colocam em primeiro ligar como o disco mais influente de todos os tempos.

 

O primeiro disco a vender um milhão de cópias foi o avulso de 78 r.p.m. “On With The Motley On Angel”, do tenor italiano Enrico Caruso, lançado nos Estados Unidos, em 1903. Provavelmente, a partir daí, a indústria de entretenimento, percebeu que os discos seriam um grande negócio. Cinqüenta anos depois, quando o rock´n´roll, começou a despontar nas paradas de sucesso, artistas como Bill Haley and The Comets, Elvis Presley e Little Richard colocaram vários singles nas paradas de sucesso, ofuscando astros da música romântica como Perry Como, Frank Sinatra, Bing Crosby e Patti Page, que também brilharam com seus singles, uma década antes.

No início dos anos 60, o cenário da música pop estava dominado tanto pela volta da música  romântica, tendo como seu maior ídolo o cantor Frankie Avalon, tanto pelo dançante twist cujo  reinado pertencia a Chubby Checker. Todos ficaram imortalizados por compactos de sucesso como “Venus” e “Let´s Twist Again”, respectivamente.

No outro lado do Atlântico, quatro jovens em Liverpool, se inspiraram nos roqueiros americanos para formarem uma banda. John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, em outubro de 1962, já eram os Beatles e lançavam na Inglaterra,  seu primeiro single “Love Me Do”, que ao passar dos anos foi cultuado como o primeiro disco da banda que se tornou a maior de todos os tempos. Mas ninguém, até hoje, se esqueceu do primeiro álbum do grupo “Please Please Me”, ou de outros que se seguiram como “A Hard Day´s Night”(1964) e “Help!”(1965). Entretanto os singles dos Beatles continuaram a ser notáveis desde o estrondoso sucesso de “I Want To Hold Your Hand”, em 1963 com seus sete milhões de cópias vendidas até “Yesterday”  lançado em 1965, pode ter sido o prelúdio de uma grande mudança. Na época talvez fosse impensável um grupo de rock´n´roll fazer muito sucesso com um balada acompanhada por quarteto de violinos. 

Em dezembro de 1965, os Beatles lançaram seu sexto álbum “Rubber Soul”, que pela primeira vez, foi meticulosamente elaborado pelo próprio grupo e não apenas pelo produtor George Martin. Além da concepção musical, os Beatles interferiram até na arte da capa do disco. No ano seguinte, eles foram mais ousados na produção do álbum “Revolver”. O álbum foi mais fundo no experimentalismo sonoro e as letras das músicas  iam desde a crítica social, passando pela alusão as drogas e aos questionamentos filosóficos. Naquele período durante  uma turnê mundial, os Beatles tiveram que conviver, mais uma vez, com a histeria enlouquecedora dos fãs e com as controvérsias criadas pelas declarações de John Lennon sobre religião e a Guerra do Vietnan. O grupo estava mudando e apesar das ofertas milionárias para outras apresentações ao vivo, eles no auge do sucesso, em agosto de 1966, fizeram seu último concerto no Candlestick Park, em San Francisco, nos Estados Unidos.

         De volta a Londres, no final de 1966, os Beatles decidiram se dedicar exclusivamente as gravações, e passaram do dia vinte e oito de novembro de 1966 até vinte de abril de 1967, gravando seu próximo álbum. Levando-se em consideração que eles gravaram o primeiro álbum, em 1963, em apenas treze horas, ao custo de quatrocentas libras, e que mesmo na época, ninguém ficava mais do que poucas semanas gravando um disco, os cinco meses em que os Beatles ficaram no estúdio em uma produção que consumiu cinqüenta mil libras (uma pequena fortuna para a época), gerou muita expectativa na indústria fonográfica, além dos boatos de que o grupo tinha se acabado.

Para o produtor George Martin, o prelúdio do álbum “Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band” foi o lançamento do single “Strawberry Fields Forever”/”Penny Lane”, em fevereiro de 1967. Eram canções que os remetiam ao passado  em Liverpool e eram diferentes de tudo que eles vinham fazendo, desde as letras como “Living is easy with eyes closed” (“Viver é fácil com os olhos fechados”), em Strawbery Fields Forever, que era uma leitura psicodélica da infância de John Lennon, ao contraste do realismo de “Penny Lane”, que descrevia a Liverpool da infância de Paul McCartney. Os instrumentos usados pelos Beatles, já desde o álbum “Rubber Soul”, vinham se ampliando da clássica formação de duas guitarras, baixo e bateria.Naquele momento o experimentalismo musical do grupo entrava em sua fase áurea. Para aquelas sessões de gravação John Lennon trouxe um mellotron, Ringo Starr passou a usar a percussão, George Harrison adicionou instrumentos indianos, Paul McCartney se diversificou entre o bongo, tímpano, flauta e piano. George Martin sugeriu a inclusão de trompetes, clarinetas e violoncelos. O próximo álbum, que ali estava nascendo, prometia mudanças ainda mais radicais.

O compacto obteve grande sucesso, como tudo que eles faziam, mas causou estranhamento entre alguns fãs, tanto pelo som e letra das músicas quanto pelo “novo look da banda” Para promover o disco, os Beatles gravaram um vídeo-clipe, onde eles haviam abolidos os ternos e passaram a trajar roupas coloridas, óculos não convencionais, longas costeletas, cabelos mais longos e bigodes.

Enquanto isso, eles seguiram gravando o novo álbum, cuja idéia principal foi de Paul McCartney, onde pela primeira vez na música pop, todas suas músicas pareciam interligadas em um único tema. Foi o primeiro disco conceitual como uma história com princípio meio e fim. Sendo um fenômeno global sem precedentes, os Beatles podiam fazer tudo que quisessem, e o produtor George Martin os conduziu a um novo território musical.

Na faixa de abertura, que da título ao álbum, um vigoroso arranjo de rock´n´roll junto a uma orquestra de metais, serve de base para Paul McCartney apresentar a  Banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta, mixado com o som de uma grande platéia. A faixa seguinte  segue sem pausa, para desembocar em “With A Little Help From My Friends”, uma balada muito bem cantada por Ringo Starr.  John Lennon  levou “Lucy In The Sky With Diamonds”, com uma letra repleta de sugestões psicodélicas. Segundo, John Lennon, ele se inspirou em um desenho de seu filho Julian, para compor a música, porém como suas iniciais formavam LSD, quando o disco saiu, a imprensa passou a associar a música ao ácido lisérgico.

         O álbum continua  com a otimista “Getting Better” e “Fixing A Hole”, outra canção psicodélica, também atribuída as drogas. Paul McCartney e John Lennon, acompanhados por uma orquestra de cordas, dividiram os vocais em “She´s Leaving Home”, uma singela balada sobre uma jovem que abandona o lar. Em “Being For The Benefit Of Mr. Kite”, John Lennon faz vários experimentalismos sonoros em uma música de atmosfera circense e cheia de personagens. George Harrison que vinha  se interessando pela música indiana e também pela meditação transcendental, compôs “Within You, Without You”, que teve a participação de vários músicos indianos e um arranjo puramente oriental. Paul McCarteney colocou seu grande senso melódico nas próximas três canções: “When I´m Sixty-Four”, que mostrava uma outra fase dos Beatles, não psicodélica, e sim uma sátira carinhosa sobre a velhice, com um arranjo inspirado nos anos 20. Em “Lovely Rita”, o tema é uma paquera, com Paul McCartney tocando um piano em estilo jazzistico em combinação com uma base de rock psicodélico. Logo que a canção anterior termina, um galo canta e começa “Good Morning Good Morning”, onde mais uma vez John Lennon inovou em busca de novos arranjos. Quase como uma vinheta, com pouco mais de um minuto, John Lennon, Paul McCartney e George Harrison dividem os vocais em “Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band (reprise)”, com um andamento mais acelerado que na abertura, onde a banda se despede. O que parece ser o fim do disco, após o último acorde de um solo de guitarra, entra um violão seguido de uma grande orquestra, de 41 componentes, e uma interpretação delicada de John Lennon para  “A Day In The Life”, uma majestosa balada psicodélica, que sintetizou o que foi a concepção do disco, pois ela continha um arranjo ousado e uma letra que despertou polêmicas. A música possui um “grand finale” com um acorde produzido por três pianos que dura 45 segundos.

Mas ainda não era o final. “The 20,000 HZ Tone”, um tom de vinte mil Hertz, em oito segundos,  audível apenas por cães, foi uma homenagem aos cachorros ingleses. E ainda  “The Inner Groove”, que traz ruídos irreconhecíveis, em dois segundos, que já tiveram várias interpretações, mas que na verdade foram tirados da festa que aconteceu após o fim das gravações do álbum.

Após as comemorações do fim das gravações, realizadas no Estúdio Um da EMI, em Abbey Road, Londres, onde compareceram os Rolling Stones Micky Jagger e Keith Richards, o guitarrísta dos Monkees Michael Nesmith e celebridades do pop inglês como Donovan e Mariane Faithful, os Beatles partiram para concepção da capa do disco.

Para isso contrataram o artísita plástico Peter Blake, que organizou a idéia dos Beatles em fazer uma colagem de fotos de 62 pessoas que eles admiravam ou se referenciavam como Carl Jung, Sri Paramahansa Yogananda, Fred Astaire, Bob Dylan, Marlon Brando, Karl Marx, Albert Einstein, Shirley Temple entre outros. A colagem de fotos serviu de fundo para que os Beatles aparececem em uniformes vitorianos coloridos, além de figuras de cera, emprestadas do Museu de Madame Tussaud, estatuetas orientais, arranjos de flores e pés de maconha. A capa do disco foi dupla, apesar de ser um disco simples, com uma grande foto dos Beatles no seu interior, e na contra-capa, pela primeira vez na história, continham as letras das músicas do álbum. O disco ainda trouxe um encarte com figuras para recortar.

Lançado em primeiro de junho de 1967, “Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band”, foi uma revolução dentro de uma revolução. Artístas de todo o mundo passaram a reverenciar a obra. Os mais respeitados críticos de musica como o inglês Kenneth Tynan que  exaltou o álbum como “Um momento decisivo da civilização ocidental”. Os Beatles foram capa da revista  americana “Time”. Houve também reações adversas como a ultra cristã e direitista John Birch Society que denunciou que o álbum demonstrava “uma compreensão dos princípios da lavagem cerebral”

Se os Beatles já haviam, desde 1964, modificado a industria do disco, com vendas astronômicas, tendo já chegado aquela altura com cerca de 200 milhões de discos vendidos, com “Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band”, o patamar de vendas de um álbum chegou a incrível marca de 15 milhões de discos vendidos! Como os Beatles consideravam o álbum uma obra conceitual, eles não cederam as pressões da gravadora EMI, e não permitiram que nenhum single fosse extraído do disco. “Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band” ficou vinte e sete semanas em primeiro lugar na Inglaterra e quinze semanas no topo das paradas de sucesso nos Estados Unidos.

“Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band” também ganhou os prêmios mais importantes da musica pop. Na Inglaterra o disco recebeu o prestigiado Ivor Novello na categoria “Melhor Canção Britânica” para “She´s Leaving Home” e a revista Melody Maker o premiou como “Melhor Álbum de 1967” . Nos Estados Unidos, pela primeira vez um grupo de rock´n´roll recebeu o Grammy (considerado o “Oscar” do disco) com a premiação máxima de “Álbum do Ano”. O antológico álbum dos Beatles também recebeu o Grammy por “Melhor Álbum Contemporâneo”, “Melhor Capa” e ‘Melhor Engenharia de Som”, além das indicações para “Melhor Arranjo Acompanhando um Vocalista”, “Melhor Performance Contemporânea para Grupo” e “Melhor Performance para Grupo Vocal”.

         Depois de “Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band” as atitudes, o desenho de capa dos discos, a moda, a linguagem e as próprias gravadoras mudaram radicalmente. O disco forneceu os ingredientes para uma nova era com estílo e percepções próprias. Com o passar dos anos, vários artístas fizeram interpretações memoráveis de músicas como “With A Little Help From My Friends” com Joe Cocker (1968) e Wet Wet Wet (1988), “Lucy In The Sky With Diamonds” com Elton John (1974) e “She´s Leaving Home” com Billy Bragg (1988).  O álbum sempre se manteve em evidência nos últimos quarenta anos. No início dos anos 70, o famoso álbum dos Beatles, foi transformado em um musical na Broadway e  no ano em que completou dez anos de lançado, foi feita uma adaptação para o cinema em uma super-produção com os Bee Gees e Peter Frampton. Em 1987, coincidindo com os 20 anos de seu lançamento, “Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band” teve sua primeira edição em CD, em uma luxuosa caixa. O lançamento do álbum no novo formato chegou rapidamente aos dez mais vendidos na Inglaterra.

         Para celebrar os quarenta anos do lançamento de “Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band”, vários artistas como o U2, Oasis, The Killers e Travis, gravarão uma versão do álbum. As sessões serão acompanhadas pela BBC e terá como engenheiro de som Geoff Emerick, o mesmo da época dos Beatles.

 

”Eu acho que “Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band” foi o acontecimento mais importante dentro da breve história da música pop” – Wilfred Meulers

 

Sergio Farias

sergioricardofarias@yahoo.com.br