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por
Frei Betto
Viajeiro inveterado,
sempre a trabalho, tenho penado em aeroportos e aeronaves.
Salva-me a paciência, o hábito de ler e escrever. Aliás, não
sou dado a impaciências. Indignação, sim. Prezo meu
estado de espírito e as despachantes ou agentes de terra
injustamente culpadas pelo caos aéreo.
De nada adianta descontar no elo mais frágil. A culpa não
é das empresas voadoras, embora tenham a obrigação de assegurar
o bom atendimento a seus clientes, incluídas alimentação de
qualidade e hotelaria em caso de atrasos demorados.
De quem é a culpa? Segundo vozes ministeriais, de nossa incapacidade
de tornar erótico o que é neurótico ou de identificar no afluxo
de passageiros a prova cabal da prosperidade do país...
Inventou-se agora novo índice de crescimento econômico: o Ica
– Índice de Caos Aéreo. Talvez em homenagem a Ícaro.
Na busca de culpados – e agradecendo aos anjos dos céus
do Brasil não ter ocorrido novos acidentes – o lado mais frágil são
os controladores de vôo. Isso lembra a anedota do larápio
pulando o muro com o porco no ombro. Surpreendido, pôs a culpa no
porco que se atrevia a agarrar-lhe os costados...
E quem controla os controladores? Como exigir que sejam
eficientes se carecem de suficiente qualificação, dominam mal o
inglês e o soldo é irrisório? Punem-se os controladores sem que
se apontem os verdadeiros responsáveis. De pouco vale o
comandante da Aeronáutica dar explicação. A nação espera solução.
Agora os controladores estão sendo substituídos pelo
pessoal da Defesa Aérea. Segundo Sérgio Mota, presidente da
Associação dos Controladores de Vôo, os militares da Defesa Aérea
entendem de proteção de nossas fronteiras aeronáuticas, mas não
de tráfego de aviões de passageiros. E se houve melhora no caos na última
semana se deve à redução do espaçamento entre as aeronaves que
cortam os nossos céus. Ou seja, aumentou-se o risco de acidentes.
Se o caos fosse sinal de prosperidade, o aeroporto de
Frankfurt seria o inferno. O que falta ao Brasil é planejamento
estratégico. Também o transporte urbano anda estrangulado nas
grandes cidades. Nossos metrôs são raros, caros e ampliam-se a
passo de tartaruga. O número de ônibus clandestinos e de vans de
origem suspeita demonstra o quanto a situação é preocupante.
Quem dera o ministro dos Transportes fosse obrigado a ficar
uma vez por mês no ponto de ônibus de uma capital na hora do
pique. A cabeça pensa onde os pés pisam...
E a nossa malha ferroviária? O gato made in USA comeu.
Obrigam-nos a consumir petróleo, seja para abastecer veículos automotores,
seja na fabricação de asfalto, precário, que reveste nossas esburacadas
rodovias, encarecendo o preço das mercadorias. Agora surge a proposta
mirabolante de se construir um trem-bala entre Rio e São Paulo. Há
demanda para tal novidade? Por que o Vera Cruz, tão confortável,
faliu? E qual será o custo do quilômetro construído? Há que
compará-lo ao custo similar em países desenvolvidos. Pelo guloso
ralo de empreiteiras, muitos recursos públicos têm sido
gautamamente tragados.
Por que nossas rodovias são mal recapeadas? Por que, à
primeira chuva, retalham-se em crateras? As licitações exigem e
fiscalizam prazos de validade, ou não passam de fajutos acordos
entre corruptos, pondo em risco a vida de usuários e prejudicando a
economia nacional? São perguntas que não querem calar.
E os idosos, como têm sido tratados pela empresas
interestaduais de ônibus, obrigadas por lei a lhes facultar
assentos?
Um país como o Brasil, que se ufana de estocar mais de US$
100 bilhões, não tem o direito de oferecer à sua população
– e aos turistas que atrai – transportes insuficientes,
ineficientes, caóticos e falhos quanto à sua infra-estrutura. A culpa
é sim do governo. Falta é os cidadãos se mobilizarem e pressionarem,
sem o que jamais serão transportados a um futuro melhor, no qual
o passageiro – de ônibus ou avião – seja considerado o que há
de mais importante e cujos direitos sejam petreamente respeitados.
A sensação que dá, a nós, viajeiros compulsivos, é que
trafegamos há meses num intrincado labirinto. Haverá saída?
Quem é capaz de abri-la?
Frei Betto é
escritor, autor de
“Treze contos diabólicos e um angélico” (Planeta), entre
outros livros.
"Em
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