Spreads bancários e as finanças pessoais


 por Eduardo Bassin*

 

      

Detentor de taxas de juros ainda muito elevadas, o Brasil parece não analisar o coeficiente de perda, ou o que deixa de ganhar devido à resistência do setor financeiro em repassar a queda da Selic, que é o referencial para concessão de empréstimos às pessoas físicas e pequenas empresas. As grandes empresas lançam mão ou de abertura de capital ou de financiamento via BNDES, que pratica TJLP, de 6,5%.

Embora em ritmo lento, o governo faz a sua parte, via Banco Central. Prova disso é a curva descendente em que se encontra a taxa de juros básica da economia. É preciso deixar claro que corremos o risco de criarmos um processo inflacionário, com origem na demanda. A produção da economia não está no limite, pelo contrário, há capacidade instalada ociosa. É claro que 25 pontos-base de redução (0,25pp), à cada reunião do Copom, mostra um perfil conservador, mas este não é o foco do presente trabalho.

Para os que necessitam de crédito, o sistema impõe um elevado sacrifício. Tanto os investimentos produtivos, quanto o consumo das famílias ficam comprometidos. A considerar o quadro atual, percebemos um empobrecimento das famílias, com grande transferência de renda para os donos do capital financeiro.

A função consumo keynesiana mostra que a renda é a principal determinante do consumo agregado, isto é, quanto maior a renda, maiores tendem a ser os gastos das famílias. A relação entre consumo e renda é dada pela Propensão Marginal a Consumir. Esta função é representada como segue:

c = cO +cY

onde:

C = Consumo agregado

Y = Renda

Co = Consumo autônomo ou independente de Y

c = Propensão marginal a consumir


Ruidosas transferências

O que ocorre no Brasil é que as camadas mais baixas da população consomem bens de consumo não-duráveis (celulares, DVDs, roupas), a taxas elevadíssimas. Com taxas de financiamento menos onerosas, as citadas camadas da população poderiam
migrar ou mesclar sua cesta de consumo para outros tipos de bens, o que geraria maior segurança, via aumento de bem-estar. E atenuaria a ruidosa transferência de renda para os setores mais abastados da economia.

O que a experiência mostra é que os núcleos familiares com renda inferior a R$ 1.900,00, não conseguem sair do círculo vicioso em que se encontram. Seu consumo autônomo é comprometido devido às necessidades básicas e às taxas de financiamento para estas necessidades (muitas famílias precisam parcelar compras de gêneros alimentícios), o que diminui a Propensão Marginal a Consumir porque "Co" e "cY" são inversamente proporcionais. Assim, verifica-se a transferência de renda.

Desta forma não há condições de consumir nem bens duráveis, nem bens de valor agregado emocional maior. Entenda-se como bem de valor agregado emocional maior, bens da linha branca, moradia pronta, lotes de terra para posterior construção de primeira moradia, permitindo que a família deixe de pagar aluguel, pequenas viagens e outras modalidades não supérfluas, incluído aqui uma educação de melhor qualidade, permitindo que, em tese, seus filhos consigam sair do círculo vicioso.

Uma família que consegue adquirir estes itens sente maior segurança, levando a sensíveis ganhos de produtividade. Com uma taxa mais baixa, a cesta de consumo apresentaria uma alteração sensível. A Propensão Marginal a Consumir aumentaria, via diminuição de pagamento do serviço da dívida pessoal. As famílias com o perfil
citado apresentam demanda em potencial para os bens duráveis e de valor emocional agregado, mas não os consomem, optando involuntariamente por bens não duráveis. Elas estão ávidas por consumir celulares e outros eletrônicos devido a dois fatores, a saber:


a) O histórico de instabilidade econômica ainda está arraigado nas expectativas de boa parte da sociedade brasileira. Antes do advento do Plano Real, em 1994, estas famílias não tinham acesso a produtos eletrônicos. Há um consumo reprimido que está sendo realizado, mas que tende a se estabilizar no médio prazo, mesmo que "c" se mantenha achatado.

b) Estas famílias percebem que não conseguirão consumir bens de valores mais elevados, desta forma os recursos são canalizados para os bens de menor valor. Para muitas pessoas, o seu telefone celular é visto como patrimônio. Esta
é uma triste realidade, constatada em muitas famílias.

Não há razões técnicas plausíveis para a prática de taxas tão elevadas. O sistema bancário conta com volume crescente de recursos, há muita liquidez e a tão alardeada inadimplência (que é perfeitamente administrável) faz parte do risco do negócio, e como tal deve ser tratada. Segunda a Serasa, a inadimplência subiu 1,2% no primeiro trimestre de 2007, ao passo que o crédito teve expansão de 3,7%, apenas no primeiro bimestre.


* Eduardo Bassin é economista
www.bassin.com.br


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