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por
Frei Betto
Na
América Latina, a universalização do ensino fundamental tem sido
proporcional à elitização do ensino superior nos últimos anos.
Isso aprofunda a desigualdade social, atrofia a capacidade de exercício
da cidadania, inibe o diálogo social. Quanto mais baixo o nível de
escolaridade da população, menor a sua renda. O país perdura como
um vasto quintal propício à exploração de seus recursos
humanos e naturais por parte do capital transnacional.
Dados revelam que quanto maior a presença do Estado, melhor a
educação. No Brasil, o investimento público em educação é
insignificante. De 1995 a 2005 ficou em torno de R$ 20 bilhões/ano.
Naquela década, a arrecadação da União cresceu
proporcionalmente ao PIB; subiu de 16,8% para 22,8%. Nem por isso se
alterou o investimento em educação. O superávit primário e o
ajuste fiscal falaram mais alto.
O ano de maior recurso foi 2002, com dotação de R$ 22,1 bilhões.
No governo Lula, investiram-se R$ 21 bilhões em 2003; R$ 20 bilhões
em 2004; e R$ 20,4 bilhões em 2005. O Brasil investe 4,3% do PIB em
educação, quando teria que dobrar. Os países asiáticos, destroçados
pelas guerras das décadas de 1940/50, tornaram a educação alavanca
de desenvolvimento graças à injeção de recursos, que variavam de 8
a 12% do PIB.
O Plano Nacional de Educação, aprovado pelo Congresso em 2001,
fixava em 7% do PIB os gastos em ensino. Infelizmente o
professor-presidente FHC vetou. E Lula ainda não derrubou essa
“herança maldita”. O ministro Fernando Haddad (queira Deus que o
presidente Lula o conserve à frente do MEC) defende a
elevação para 6% do PIB, seguindo recomendação da Unesco. Sem
choque de investimento em educação, cobrado pelo Ipea, a prioridade
do presidente Lula neste segundo mandato - melhorar a educação –
terá igual destino da reforma agrária “priorizada” ao início do
primeiro mandato...
O Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação
Básica e Valorização dos profissionais da Educação) promete
transferir, neste ano, R$ 2 bilhões de recursos federais a estados e
municípios. Em termos de PIB equivale a um pífio acréscimo de
apenas 0,1% em educação. Em 2010, quando o Fundeb estiver a pleno
vapor, recebendo mais de R$ 5 bilhões, ainda assim a contribuição
federal ficará em 0,3% do PIB.
Mais de 90% dos recursos do Fundeb são arrecadados por governos
estaduais e prefeituras. O governo federal canta loas com voz alheia.
O Ipea recomenda que a verba do governo federal seja adicional, e não
mero remanejamento dos recursos do MEC. Dos R$ 2 bilhões deste ano,
por exemplo, R$ 800 milhões já seriam repassados normalmente a
estados e municípios. Portanto, não se trata de recursos extras.
Quando a multidão de crianças e jovens brasileiros terão mais
importância que os credores da dívida pública?
A violência urbana, outra prioridade do segundo mandato de
Lula, resulta também do baixo nível de escolaridade de nossa população.
Sem estudos não se consegue emprego. Sem emprego, não há renda. Sem
renda... só restam a mendicância ou o crime. A média de
escolaridade no Brasil cresce muito lentamente: 5,5 anos em 1995, e 7
anos em 2005. Nem sequer atingimos o nível de escolaridade obrigatória
no país, que é de 8 anos.
No sistema ibero-americano, países como Espanha, Portugal e
Cuba aumentaram de modo significativo, nos últimos 30 anos, a
qualidade dos ensinos médio e superior, graças ao investimento público.
Portanto, cautela frente à euforia privatizadora! Esta, além de
fazer da educação uma mercadoria, anulando sua natureza de direito
social, segrega todos aqueles que não dispõem de recursos
suficientes para pagar uma boa escola.
As lacunas na educação aprofundam o fosso entre nações
industrializadas e emergentes. Enquanto nas primeiras 85% dos jovens
completam o ensino médio, na América Latina o índice é de apenas
35%. Na década de 1990, os países industrializados investiram na
educação, em média, 6% do PIB; na América Latina não ultrapassou
4,1%.
Não se pode falar em educação de qualidade sem tempo integral
na escola para alunos da pré-escola ao ensino médio. Quatro horas diárias
de período escolar é muito pouco, sobretudo considerando que, fora
da escola, muitos ficam absorvidos pelo entretenimento deseducativo da
TV.
O Brasil precisar eliminar também o analfabetismo digital e
introduzir na escola tecnologias de informação e comunicação, que
facilitam o acesso de alunos e professores à informação atualizada,
favorecem a educação à distância, tornam mais participativos os
processos de aprendizado.
O analfabetismo cibernético gera menor produtividade e renda
profissional; menos opções de mobilidade social; exclui do acesso à
informação e a mercados; prejudica o uso eficiente do tempo; inibe a
participação política, o poder de gestão, o intercâmbio
comunicacional e cultural.
“Estou conectado, logo existo”, diria hoje Descartes. No
Brasil, o ProInfo (Programa Nacional de Informática em Educação),
do MEC, precisa ser incrementado e, sobretudo, dotado de maiores
recursos. No Chile, a Rede Enlances possibilita que hajam terminais
interconectados em todo o sistema escolar. Na Costa Rica, o Programa
de Informática Educativa permite, desde 1988, que todos os alunos do
ensino fundamental e médio acessem a Web.
Na Argentina, o Programa Educ.ar funciona como portal de conteúdos
educativos, ferramenta de capacitação de docentes e plano de conexões.
Nos EUA, de 1994 a 2000 passou-se de 14% de escolas conectadas e 3% de
classes a quase 2/3 de classes e 100% das escolas, incluídas as mais
pobres.
Com menos de 8% do PIB em educação o governo pode até obter
índices idênticos de crescimento do PIB, mas não aprimorará o Índice
de Desenvolvimento Humano e nem tornará o Brasil uma nação menos
desigual e mais justa.
Frei
Betto é escritor, autor de “Batismo de Sangue” (Rocco), entre
outros livros.
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