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SEM-TETO
BRIGAM NA JUSTIÇA POR IMÓVEL |
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por
Marcelo Salles
Vinte famílias correm o risco de serem despejadas no bairro do Cosme Velho após uma ação de reintegração de posse movida por Sybil Bittencourt, uma das herdeiras do grupo que publicava o jornal Correio da Manhã. Em defesa dos moradores, a Frente Internacionalista dos Sem-Teto (Fist), que representa nove ocupações no Rio, entrou com uma ação de manutenção de posse, além de um interdito proibitório. O mérito das ações ainda não foi apreciado. A
disputa gira em torno de duas casas que estavam vazias
e foram ocupadas há oito meses, na região conhecida como Largo do Boticário. Na ocasião, dezenove famílias
se uniram aos moradores que lá chegaram
dois anos antes e, juntos, criaram a Ocupação Confederação dos Tamoios, cujo nome homenageia os índios
dessa tribo que se banhavam no Rio Carioca. De
acordo com André de Paula, advogado da Fist, a Prefeitura
do Rio também se posicionou a favor do despejo contra os moradores. "A Secretaria Municipal de
Cultura pretende construir ali um grande complexo turístico",
afirmou. André disse ainda que a proprietária
está interditada judicialmente pelos filhos, o que torna nula sua ação de reintegração de posse.
O
governo estadual parece estar dividido. O Instituto de
Terras e Cartografia emitiu um laudo favorável aos moradores, levando em consideração que eles não estão em
área de risco e que, além disso, passaram a preservar
os imóveis ocupados. Por outro lado, o Instituto
Estadual do Patrimônio Cultural condenou a ocupação
alegando dano ao patrimônio cultural. Uma
das casas, conhecida como Casarão do Largo do Boticário,
tem dez quartos, cozinha, sala, banheiros e até uma capela. A outra tem oito cômodos. Além de abandonadas,
as duas construções estavam em condições precárias
quando foram ocupadas. Antônio Louro, engenheiro
ligado à Fist, afirma que o pano de fundo é a especulação imobiliária. "Trata-se de uma intervenção
das grandes imobiliárias no sentido de ocupar
o espaço para vendê-lo, enquanto os trabalhadores
são expulsos sem ter para onde ir", diz. A
grande maioria dos moradores da Ocupação Confederação
dos Tamoios trabalha como vendedor ambulante no Largo do Machado e adjacências. Caso De
acordo com a Constituição Federal de 1988 e com o Novo
Código Civil Brasileiro, de 2002, a propriedade não
é mais um direito absoluto e passa a ter uma função social que a submete ao interesse público. Isto quer
dizer que enquanto o proprietário ou possuidor da riqueza
preservar seu imóvel ou garantir a produtividade
de sua terra, ele deverá ter seus direitos
protegidos. Por outro lado, o poder público deve interferir caso esse proprietário não preserve o seu
imóvel ou não garanta a produtividade de sua terra.
No caso do Casarão do Largo do Boticário, o advogado da Fist André de Paula garante que o imóvel estava abandonado e que, inclusive, havia se transformado em depósito de lixo a céu aberto. Embora não estivesse cumprindo sua função social, o poder público não interferiu. Preferiu agir depois que vinte famílias ocuparam o espaço e o fizeram produtivo. |