A PRIVATIZAÇÃO DO SETOR ELÉTRICO 
ESTÁ (sorrateiramente) DE VOLTA?


 por Frei Betto



Não  há  dúvida de que, no governo Lula, a malha de transmissão de energia elétrica cresceu muito mais do que em qualquer outro. “Nunca na história deste pais” se investiu tanto no setor. Isso é positivo e garante o fornecimento de energia elétrica às diversas  regiões  do país. O consumidor, hoje, ganha. Ganhará sempre?

O governo federal promove, via ANEEL, leilões para expandir o sistema de transmissão elétrica do país. Nos cinco leilões entre 2000 e 2002 (era FHC), o deságio baixíssimo assegurou altos rendimentos às empresas privadas. Em média, lucravam 20% sobre o valor do investimento. E não se permitia que empresas estatais, como Furnas, participassem dos leilões. O governo impediu Furnas de participar dos leilões das linhas de transmissão Ouro Preto-Vitória, Norte-Sul2, Itumbiara-Marimbondo etc.. Quando Furnas obteve permissão de participar foi porque não houve interesse do capital privado. E a estatal saiu no lucro.

Agora, no governo Lula, os ágios dos seis leilões subiram de 30 a 50%, esfriando a farra dos elevados ganhos do setor privado. As empresas arremataram linhas a serem construídas por preços bem menores do que se fazia no passado, e muito abaixo do preço de referência da ANEEL.

Bom para o consumidor brasileiro que, todo mês, paga na conta os custos de geração, transmissão e distribuição de energia, e mais os impostos embutidos. O que também favorece a competição entre as empresas do setor. Entretanto, o filé mignon fica com as grandes empresas espanholas (Abengoa, Isolux, Elecnor, Cobra e Cymi), e a colombiana Isa.

No setor de transmissão os  riscos do investidor são pequenos. Em média, as grandes linhas de transmissão leiloadas são construídas em cerca de 20  meses. É rápido o retorno do capital investido. Já as hidrelétricas exigem  anos  de  estudos, questões complexas de compensação  ambiental,  e tempo  de  construção  de  3 anos, para as pequenas, e 5 para as médias; ou mais, para as gigantes, como a do Rio Madeira.

Este retorno financeiro, calculado, está embutido no lance do leilão. O ganhador, a curtíssimo prazo, já começa a receber seu capital  de  volta,  em prestações mensais garantidas por 30 anos (antes corrigidas pelo IGPM e, agora, pelo IPCA). Daí  a entrada maciça de empresas estrangeiras.

Essas  empresas podem ser financiadas diretamente pelo BNDES (desde 2003 já captaram cerca de R$ 5,5 bilhões); contratar a si mesmas na execução das obras e negociar preços; refinanciar o capital próprio (equity) investido  no  empreendimento  (o BNDES financia cerca de 70%; a empresa  entra com 30% - podendo obter financiamento fora do Brasil); atuar em bloco (quem vai controlá-las?) e, se desejarem, não operar as linhas ganhas, negociando-as.

Já  as  empresas do  setor  elétrico estatal não têm liberdade  para  negociar com  seus  fornecedores  de serviços e equipamentos,  pois se regem pela lei de licitações, a Lei 8666. Tudo que fazem deve ser público e transparente. E Furnas,  Eletronorte, Eletrosul e Chesf estão proibidas, pelo governo, de serem financiadas diretamente pelo BNDES. Se quiserem obter financiamento do BNDES, devem se associar a empresas privadas na proporção de 49% para as estatais e 51% para as privadas!

É   a   desestatização anunciada,  a  prazo,  mas  certa,  do  setor  de transmissão, a espinha dorsal do setor elétrico brasileiro. As linhas ficarão em mãos de empresas privadas ou mistas (sob controle do capital privado).

Já as  pequenas  linhas estão ao alcance das  estatais, que podem adquiri-las com capital próprio. Um fenômeno curioso: uma estatal federal pode se associar a uma estatal estadual -  desde  que  esta  detenha  51%. A Cemig, majoritária, e Furnas, minoritária, ganharam juntas a pequena linha de transmissão (75 km) entre a usina de Furnas e a cidade de Pimenta (MG). É o que resta às estatais. Com capital próprio, Furnas controla apenas linhas de transmissão pequenas, como a de Campos-Macaé (92 km) e a Tijuco Preto-Itapeti-Nordeste (50 km).

 

A privatização soma-se à desnacionalização

 O que o consumidor gostaria de entender é por que as estatais federais são minoritárias nas grandes linhas? A resposta, simples, é de fazer corar quem esperava do PT um governo minimamente nacionalista: não se permite que sejam financiadas pelo BNDES. E não podem captar dinheiro fora do país, como fazem as transnacionais. Assim, sobra às empresas federais apenas a possibilidade de, nos leilões, fazerem lances, com capital próprio, em linhas pequenas.

Entre   2000   e  2002,  foram  realizados investimentos no setor de transmissão da ordem de R$ 3,8 bilhões, com  deságios mínimos. À época, empresas  estrangeiras  obtiveram 49% das linhas leiloadas; as empresas privadas brasileiras,  36%; as parcerias estatais/privadas, 15%.  As  estatais,  sozinhas, abocanharam apenas  13,5%  dos  trechos leiloados.

Já entre 2003 e 2006, quando os investimentos totalizaram cerca de R$ 9,5 bilhões, as empresas estrangeiras  avançaram para  65%  dos trechos leiloados.   As associações de empresas estatais e privadas (estas sempre majoritárias)  alcançaram 25% das linhas. As estatais recuaram e as empresas nacionais não agüentaram a concorrência.

Uma análise dos leilões de 2006, onde os investimentos foram de R$ 1,8 bilhão,  mostra que as empresas estrangeiras conseguiram vencer em 84% dos trechos de linhas de transmissão leiloados.

Ora, graças às estatais, o Brasil construiu, com absoluto sucesso, um  dos  maiores sistemas  de  produção,  transmissão e distribuição de energia  elétrica  do  mundo.  A concorrência, como está agora, é desigual. As estatais concorrem com as empresas privadas sem igualdade de condições. Estão perdendo terreno. Tudo indica que, a prazo, as estrangeiras dominarão o setor. O reflexo disso aparecerá no bolso do consumidor e na soberania do país: energia mais cara, e mais riqueza produzida aqui levada para o exterior pelas transnacionais.

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), 
entre outros livros.


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