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por
Frei Betto
Pelas
manchetes da mídia, a visita de Bento XVI ao Brasil resultou em
condenações ao aborto, divórcio, fim do celibato sacerdotal, e à
Teologia da Libertação, atuação da Igreja na política e nos
movimentos sociais. De fato, a presença do pontífice entre nós
mobilizou multidões e o fez experimentar a calorosa acolhida do povo
brasileiro.
Porém, muitos não foram às ruas por serem católicos, e sim
por estarem diante de uma celebridade alvo de toda a mídia e imantada
pela aura divina. Basta conferir a missa de domingo em Aparecida, na
qual eram esperados, no mínimo, 500 mil fiéis. Compareceram no máximo
150 mil.
Bento XVI se considera um cruzado investido da missão de salvar
a Igreja diante desse mundo “secularista, hedonista, relativista”,
termos repetitivos em seus pronunciamentos. Sua ótica do mundo atual
é pessimista, ao contrário do apóstolo Paulo, que via a graça
divina se sobrepor ao pecado (Romanos 5,20).
Sua visão de Igreja é pré-conciliar, centrada na prática
individual das virtudes, refém de um moralismo capaz de condenar o
sexo antes do casamento
e, contudo, manter-se quase indiferente ao que os bispos do
Continente, reunidos em Medellín (1968), qualificaram de “pecados
estruturais”, como a exploração econômica, o latifúndio, o
desemprego e o neocolonialismo.
O papa decepcionou aqueles que esperavam dele uma condenação
explícita da Teologia da Libertação. Se o fizesse, estaria
contradizendo João Paulo II, que em carta dirigida aos bispos
brasileiros, a 9 de abril de 1986, declarou: “Estamos convencidos, nós
e os senhores, de que a Teologia da Libertação é não só oportuna,
mas útil e necessária. Ela deve constituir uma nova etapa – em
estreita conexão com as anteriores – daquela reflexão teológica
iniciada com a tradição apostólica e continuada com os grandes
padres e doutores, com o magistério ordinário e extraordinário e,
na época mais recente, com o rico patrimônio da doutrina social da
Igreja expressa em documentos que vão da Rerum Novarum a Laborens
Exercens.”
Ao falar aos 170 bispos latino-americanos e caribenhos, na
abertura do encontro que os reúne em Aparecida até o próximo dia
31, Bento XVI alertou que “cresce a distância entre pobres e
ricos” e reafirmou que “a opção pelos pobres está implícita na
fé cristológica”, ou seja, não se pode considerar cristão quem não
se pauta por priorizar a defesa dos direitos dos oprimidos e excluídos,
com os quais Jesus se identificou (Mateus 25, 31-44). Frisou que a
Igreja é “advogada da Justiça e dos pobres”.
O caráter laico da sociedade moderna incomoda ao papa. Ele
gostaria que as escolas públicas do Brasil ensinassem catolicismo.
Felizmente o presidente Lula rejeitou a proposta e reafirmou a
laicidade do Estado brasileiro. Porém, não deveria o papa se
perguntar como as escolas católicas formam na fé os seus alunos? Por
que tantos políticos corruptos e criminosos de colarinho branco são
ex-alunos de colégios católicos?
Ao mencionar a esfera política, o papa mostrou-se confinado à
teologia liberal européia, em especial à alemã. É preciso
esclarecer que, no país
natal de Ratzinger, todos os pastores, católicos e protestantes, são
funcionários do Estado, ou seja, remunerados com dinheiro público.
Daí o silêncio das Igrejas frente às mazelas do governo alemão.
Como pretender que a Igreja seja apolítica? Se silencia,
aprova, legitima o poder vigente, como foram os casos dos bispos na
Espanha sob a ditadura de Franco e no Chile sob a de Pinochet. E ao
denunciar, estaria fugindo de sua missão? Ora, clamar contra as
injustiças, como faz no Brasil a CNBB, é exigência profética da fé
cristã. Convém não esquecer que todos nós, cristãos, somos discípulos
de um prisioneiro político. Jesus não morreu enfermo na cama, mas
preso, torturado e condenado à pena capital por dois poderes políticos!
Diante das injustiças, se a Igreja se calar, disse Jesus, “as
pedras gritarão” (Lucas 19,40). Não se trata de a Igreja assumir
este ou aquele partido, incensar ou excomungar o capitalismo ou
o socialismo. O papel da Igreja é estar a serviço e em comunhão com
o povo, sobretudo os mais pobres. Se o sistema e o governo estiverem
também próximos ao povo, haverão de manter boas relações com a
Igreja. Mas se forem contra os interesses populares, terão de encarar
a Igreja como uma pedra no sapato.
É sintomático que, no dia seguinte à despedida do papa, o
fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, um dos mandantes do
assassinato da irmã Dorothy Stang, tenha sido levado a julgamento em
Belém (PA). A religiosa, que dedicou sua vida aos sem-terra, foi
morta com seis tiros, em Anapu (PA), a 12 de fevereiro de 2005.
Tivesse ousadia profética, Bento XVI teria unido a santidade de frei
Galvão, primeiro brasileiro canonizado, semana passada, ao martírio
de irmã Dorothy. E não duvido que os fazendeiros do consórcio
latifundiário que mandou matá-la se consideram todos católicos...Bida
foi condenado a 30 anos de prisão no dia 15 de maio.
Frei
Betto é escritor, autor da biografia de Jesus “Entre todos os
homens”
(Ática), entre outros livros.
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