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Brasil, definitivamente, é um país sui generis. Igual
não há! Quando se trata de questões políticas,
então, nem se fala. Por exemplo: muitos parlamentares, tanto
estaduais quanto federais (imagine nas esferas municipais), respondem
ou são acusados em processos por improbidade administrativa,
abuso de poder econômico, formação de quadrilha,
lavagem de dinheiro, evasão de divisas, enriquecimento ilícito,
crime contra a natureza e uma infinidade de outros delitos. Mas
nunca são condenados. Se forem condenados, arrumam um jeito
de não cumprir a pena. Estão acima do bem e do mal.
Usufruem de imunidade parlamentar e gozam do chamado foro privilegiado.
De fato, extremamente privilegiado, o que faz de um “criminoso”
um “homem acima de qualquer suspeita”, com direito a mordomias e
com a possibilidade de decidir ou influenciar em questões
que podem afetar a vida da população de todo o país,
de um estado ou município.
Duvido muito que em outro país do mundo, com um histórico
democrático semelhante ao nosso, haja tanta promiscuidade
e ao mesmo tempo tanta benevolência e impunidade para com
figuras que mais parecem chefes de quadrilha. No Congresso Nacional,
Paulo Maluf talvez seja a expressão máxima da impunidade.
Isso tudo, claro, com o apoio do eleitorado que o colocou lá,
assim como outros tantos. Cito o Maluf como poderia citar outros
nomes, mas ele é o mais emblemático, por conseguir
driblar a justiça e ficar impune por tantos e tantos anos
e se eleger e reeleger indefinidamente.
No Rio de Janeiro, uma das figuras que espelha a impunidade é
o presidente da ALERJ, Jorge Picciani. Investigado pelo Ministério
Público por crimes contra o ordem financeira e lavagem de
dinheiro, Picciani conseguiu uma decisão no STJ que determina
a interrupção de uma investigação sobre
ele na Polícia Federal. Ele foi multado em R$ 1,5 milhão
pela Receita Federal por irregularidade na sua declaração
de imposto de renda. Em dez anos, o seu patrimônio aumentou
o equivalente a 1.065%. O valor declarado pulou de R$ 533,8 mil
em 1996 para R$ 7,7 milhões em 2006. Um empreendedorismo
difícil de explicar. Com tanta competência em “fazer
dinheiro”, deveria ser içado ao cargo de Ministro da Fazenda.
Por fim, não poderia deixar de citar as declarações
do ex-presidente e menino propaganda, Collor de Mello, no Senado.
Recém eleito (o nosso eleitorado também não
se emenda), tomou a tribuna na condição de vítima
para falar do seu impeachment: “uma litania de abusos e preconceitos,
uma sucessão de ultrajes e um acúmulo de violações
das mais comezinhas normas legais” disse ele. (O Congresso Nacional,
à época, então sob pressão, para não
deixar a lama chegar a outros nichos de poder, fez o que lhe cabia:
afastou Collor da presidência).
Mas, pior que ouvir as besteiras do Collor, foi ouvir as falas dos
senadores que o seguiram: Arthur Virgílio, Tasso Jereissati,
Renan Calheiros e Mercadante, que, benevolentes, deixaram no ar
a impressão de que Collor foi, de fato, vítima, quando,
na verdade, um intrincado jogo de bastidores tentou abafar o caso,
revelado pelo próprio irmão do ex-presidente, Pedro
Collor. Não foi à toa que PC Farias, tesoureiro de
Collor, morreu de forma suspeita e até hoje não esclarecida,
o que nos dá a clara sensação de que foi queima
de arquivo.
Parcela do nosso eleitorado precisa ser mais exigente na escolha
dos seus representantes, pois com uma justiça tão
benevolente em conceder liminares e habeas corpus aos políticos
envolvidos em crimes e delitos dos mais variados, não será
mais necessário a defesa de valores éticos por parte
daqueles que postulam cargos públicos; não se fará
necessário apresentar curriculum ou credenciais de conduta
ilibada para a disputa de cargos eletivos. A ficha corrida poderá
ser mais útil e com mais valor.
*Presidente do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo
E-mail: claudiodamiao@pop.com.br
Publicado no jornal A Voz da Serra do dia 07 a 09/04/07