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por
Frei Betto
Talvez eu,
mineiro de quatro costados, descenda dos Christo, ciganos que
aterrorizaram a região de Ribeirão Preto em tempos antanhos e que, não
duvido, guardam parentesco com o artista plástico de origem búlgara
de mesmo nome, famoso por embrulhar monumentos como o Reichstag, o
parlamento alemão.
Digo-o por ser um
viajor inveterado. Não que me sinta atraído por terras estranhas ou
estrangeiras. Bem observava meu pai ao afirmar que viajo mas não
passeio. Sim, no íntimo acalento o sonho de habitar uma cartuxa,
cultivar em torno da ermida uma horta para consumo próprio e não me
ocupar senão de orar e escrever.
A vida de pregador, a
cuja Ordem religiosa pertenço, leva-me aos quatro cantos do mundo. O
que me intriga, pois não tenho nada especial a dizer. Não detenho títulos
acadêmicos, nem fiz nenhuma descoberta ou teoria que mereça
propaganda. Por que tantos convites, em especial da Europa, onde
sobram mentes muito mais cultas e iluminadas do que a minha? Ninguém
é juiz de si mesmo, ensinam o Evangelho e também Marx que, como bom
judeu, herdou influências bíblicas. Se me é dado direito a uma
opinião, direi que sou convidado, não pelo que teria a dizer, mas
por ser um otimista inveterado.
Eis o que esperam de
mim, com perdão da redundância: esperança. Para a cultura
predominante na Europa ocidental, confortavelmente assentada nos êxitos
econômicos da União Européia, o presente é o futuro. Resta preservá-lo.
De que é feito esse presente? De consumismo. Produtos, objetos dos
sonhos de gerações passadas, encontram-se, agora , ao alcance da
maioria, como carros. Na Espanha há 36,9 milhões de habitantes e 46
milhões de telefones celulares.
Esse bem-estar atrai
imigrantes pobres que a Europa trata de afugentar. Em fevereiro, a Agência
Européia de Controle de Fronteiras (Frontex) passou a policiar oito
aeroportos europeus para vigiar o fluxo de imigrantes
latino-americanos. Estão sob controle os aeroportos de Madri,
Barcelona, Lisboa, Paris, Amsterdã, Milão, Roma e Frankfurt.
Apegado à sua ordem e
progresso - que para nós é apenas um lema na bandeira – o europeu
ocidental se pergunta: para quê? É isto a vida, mera reprodução
biológica em condições excelentes de consumo e bem-estar?
Na falta de sentido,
os europeus investem na satisfação dos sentidos. Ingerem mais comida
e bebida e, também, mais drogas. Alguns poucos, como meus anfitriões,
se indagam: até quando viveremos nesse mundo de opulência (gastam,
por ano, o equivalente a 15 bilhões de reais apenas com sorvete!)
cercados por um mundo de tanta pobreza?
Vou mundo afora
semeando esperança, partilhando minha fé abraâmica no ser humano.
Sim, sou menos crédulo agora que já me foi dado dispor de 2/3 do
tempo médio de vida humana. Não mais espero a coincidência entre o
meu tempo pessoal e o tempo histórico. Já não creio no homem e na
mulher novos, frutos do casamento de Teresa de Ávila com Ernesto Che
Guevara. Todos nós, humanos, temos defeito de fabricação, que a Bíblia
chama de pecado original. Nem por isso deixo de acreditar que, um dia,
haveremos de criar uma sociedade cujas instituições inibam nossas
tendências nefastas e perversas.
Nisto reside a minha
esperança: de que o novo não decorre de um ilusório sentimentalismo
que nos induziria a amar o próximo como a si mesmo. A solidariedade
virá como exigência política; caso contrário estará em risco a
vida na Terra. Não é o asteróide Apofis, que se aproximará da
Terra em 2029, que nos ameaça. É o nosso modelo concentrador de
renda, devastador da natureza e excludente dos direitos humanos. Então
muitos compreenderão que o socialismo é a expressão política do
amor.
Tudo isso me veio à
cabeça ao aguardar o metrô numa estação de Madri, cujo nome me soa
literário: Mar de Cristal. Belo título para um romance. Como não
hei de escrevê-lo, utilizo-o para batizar esta crônica.
Frei Betto é escritor, autor de “Típicos Tipos” (A Girafa),
entre outros livros.
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