O lucro é imoral


 

 

*Cláudio Damião Santos Pereira

 

      

O sistema financeiro nacional, com crise ou sem crise, alarga as suas margens de lucro de forma inimaginável para qualquer país do mundo e, na mesma proporção, estabelece metas absurdas de venda de produtos para os funcionários, com jornadas estressantes, além, em alguns casos, de fazer uso irregular de estagiários que, sob esta fachada, acabam exercendo funções que não se adequam ao dito estágio, como é o caso do Banco Real.

Em recente entrevista, disponível na página da Federação dos Bancários RJ/ES, o banqueiro Fábio Barbosa, do Real, fala de sua idéia de só ofertar linhas de crédito em condições especiais “para clientes com boas políticas ambientais e recusar empréstimos a empresas que embora tivessem capacidade de pagamento, desrespeitassem o meio ambiente ou fossem tolerantes com práticas trabalhistas inaceitáveis”.

“A decisão, que se mostrou acertada, transformou Barbosa, que acaba de ser empossado na presidência da Febraban, em uma das maiores referências em sustentabilidade no mundo dos negócios. Não apenas pelos critérios éticos de sua orientação, mas por conciliá-los com perfeição na busca por lucros”.

Fábio, em sua entrevista, diz (e é louvável que o diga) que as empresas que não respeitam as leias ambientais estão sujeitas a multas milionárias. Mas, por outro lado, quando o assunto é informalidade e o não pagamento de impostos, ele saiu pela tangente com uma solução que remete ao reconhecimento do crime, ou seja, que aquele que não paga os direitos trabalhistas o faz porque... “pessoas estão sendo levadas à contravenção por um sistema tributário e trabalhista que se prova quase indutor de comportamentos. Não podemos condenar todos os que estão nesse caminho. Precisamos atacar as causas que estão levando empresas e pessoas a trabalhar nesse ambiente de contravenção. Essas pessoas não são, em sua maioria, contraventores por natureza.”.

Ora, se não podemos condená-los, devemos então parabenizá-los, suponho? Fábio Barbosa concordaria com o fato de que se os trabalhadores adoecem é porque são levados ao máximo de sua capacidade de trabalho para enriquecer seus patrões, sob pena de perderem o emprego ou serem substituídos se não atingirem suas metas, como é o caso do sistema financeiro nacional? Seria isso a propalada responsabilidade social dos bancos?

Devemos pedir multas milionárias para os que degradam a natureza, sim, mas devemos também exigir a humanização das relações de trabalho, com a manutenção dos direitos e o que há de proteção aos trabalhadores, e não o que se pretende com a tão falada reformada trabalhista, que busca deixar os trabalhadores mais e mais desprotegidos. Basta ver a euforia do setor empresarial em aprovar a emenda 3. Seriam estes os critérios éticos de que fala o banqueiro em sua entrevista?

Presidente do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo

----------------------------------------------------------------------------

O lucro é verde

Há oito anos, o banqueiro Fábio Barbosa tomou uma decisão aparentemente contrária aos interesses dos acionistas do Banco Real, instituição que preside.
Barbosa decidiu criar linhas de crédito em condições especiais para clientes com boas políticas ambientais e recusar empréstimos a empresas que embora tivessem capacidade de pagamento, desrespeitassem o meio ambiente ou fossem tolerantes com práticas trabalhistas inaceitáveis.
A decisão, que se mostrou acertada, transformou Barbosa, que acaba de ser empossado na presidência da Febraban, em uma das maiores referências em sustentabilidade no mundo dos negócios . Não apenas pelos critérios éticos de sua orientação, mas por conciliá-los com perfeição na busca por lucros. Formado em administração pela FGV, casado e com três filhos, Barbosa , 52 anos, diz que uma de suas prioridades na Febraban será desfazer a má imagem – segundo ele injusta – que os brasileiros têm dos bancos.

V – Um país como o Brasil pode crescer sem afetar negativamente o meio-ambiente?
FB – Esse é um falso dilema. É possível respeitar o meio ambiente e ser lucrativo , crescer e ser ambiental e socialmente responsável...

V – O senhor não teme que a sustentabilidade se transforme num modismo vazio ao qual empresas aderem mais por conveniência do que por convicções?
FB – Por convicção ou por conveniência, o fato é que as melhores empresas e alguns países estão repensando sua maneira de fazer negócios. Por crença ou por pressão da sociedade, não importa. O assunto sustentabilidade está na pauta de todos os executivos. Sem falar que as empresas que não respeitam as leis ambientais estão sujeitas a multas milionárias, o que compromete a própria existência delas...

V – Mas qual é o significado exato de sustentabilidade ou de responsabilidade social? Pode-se considerar socialmente responsável uma empresa que mantêm ações sociais e ambientais corretas, mas que não paga impostos e vive na informalidade?
FB – Ainda há muito a ser feito, no campo da responsabilidade social mas não seria construtivo invalidar o esforço feito na direção correta só porque o movimento não está completo. É preciso reconhecer que pessoas estão sendo levadas à contravenção por um sistema tributário e trabalhista que se prova quase indutor de comportamentos. Não podemos condenar todos os que estão nesse caminho. Precisamos atacar as causas que estão levando empresas e pessoas a trabalhar nesse ambiente de contravenção. Essas pessoas não são, em sua maioria, contraventores por natureza. Para contornar isso, precisamos não apenas de reformas como a tributária e a trabalhista, mas também de uma reforma de valores. É preciso reconhecer que existe uma certa leniência ao chamar de informalidade o que, na verdade, é ilegalidade, e como tal precisa ser tratada.

V – Não faz parte da responsabilidade social dos bancos informar seus clientes sobre os riscos do endividamento exagerado?
FB – O endividamento, no Brasil, é algo relativamente novo. Precisamos nos adaptar. Mas já são várias as iniciativas dos bancos nesse sentido. Alguns produziram cartilhas nas quais explicam quais as formas mais baratas de financiamento diante da necessidade de cada pessoa. Gerentes também têm sido treinados para prestar esse tipo de orientação.
A Febraban tem uma cartilha que orienta os consumidores a respeito dos riscos do endividamento. Como presidente da Febraban, pretende intensificar a transparência dos bancos para com seus clientes.

V -  Por que os bancos, de forma geral, não têm avaliação muito positiva da população?
FB – Essa imagem negativa nos preocupa muito, mas ela não é exclusiva dos bancos brasileiros. Não podemos nos esquecer de que as instituições financeiras estão na posição ingrata de cobrar empréstimos em qualquer lugar do mundo. Mas há um aspecto histórico brasileiro. No passado, a inflação prejudicou demais a transparência do relacionamento do cliente com a instituição financeira. Os prazos de empréstimos eram curtíssimos, não havia confiança na moeda. Não existiam tarifas, porque os bancos ganhavam com o dinheiro parado nas contas. Isso mudou completamente. Além do mais, acho que a expectativa sobre os serviços que devem ser prestados pelos bancos precisa ser mais bem compreendida.

V – Os lucros dos bancos parecem exagerados, se comparados ao desempenho do resto da economia...
FB – Não são apenas os bancos que vivem um momento especial, mas todo o país... No setor de crédito, precisamos discutir , por exemplo , a carga de impostos sobre os empréstimos.

V – O s juros bancários cobrados no Brasil caíram, mas ainda estão entre os maiores do mundo. Por quê?
FB – Os juros cobrados pelos bancos têm caído, mas há mais pessoas tomando dinheiro emprestado. A base de credores cresceu e estamos trabalhando com uma clientela nova. Não conhecemos o histórico bancário desses novos clientes, que , por esse motivo, tendem a pagar taxas mais elevadas...

V – Que papel deve exercer o sistema bancário em uma economia como a brasileira?
FB – Os bancos, quando executam bem o seu papel, aprimoram a alocação de recursos e impulsionam a economia. É importante que o sistema financeiro esteja azeitado para cumprir bem as tarefas que lhe cabem. São três essas tarefas: rentabilizar a poupança que lhe foi confiada; financiar o consumo e o investimento; e efetuar pagamentos...

V – O que o senhor espera do segundo mandato do governo Lula?
FB - ... Diante da falta de recursos públicos, o país deveria aproveitar o bom momento para fazer reformas e acelerar o crescimento. Para isso seria fundamental atrair investimentos do setor privado.