A Visita


por Paulo de Tarso Ferreira

Chovia e fazia frio quando o Papa Bento XVI desembarcou no Brasil. Um grupo de 150 crianças esperava ao ar livre ansiosamente, sem serem notadas pala maioria das autoridades que estavam em local protegido contra o mau tempo. O Papa não percebeu o público infantil e teve que ser avisado pelo Prefeito para que se aproximasse e as abençoasse. A recepção não poderia ter sido mais apropriada em termos de significados. De um lado, o Prefeito de um partido de direita que alterou a sigla recentemente, criando a marca DEM para não ser confundido com a sigla de homossexual em francês. Do outro, crianças de um país no qual parte da sociedade acha que devem ser tratadas como adultos para fins de legislação penal.

Mas e os católicos, como receberam o Papa que veio para afirmar os valores do Concílio Vaticano II? As pesquisas da Carta Capital e da Data Folha mostram que existe longa distância entre o que a Igreja Católica Apostólica Romana pensa e o que a maior nação católica do mundo pratica.

Segundo a pesquisa feita pelo Instituto de Pesquisas Datafolha 64% dos brasileiros se declaram católicos. Entre eles 94% vão à igreja, cultos e serviços religiosos; 94% são favoráveis ao uso da camisinha, 74% são favoráveis ao divórcio; 56% são favoráveis ao segundo casamento no religioso; 46% são favoráveis à legalização da união entre pessoas do mesmo sexo; 56% são contra a eutanásia; 65% são contra modificações na lei que regulamenta o aborto; 59% são favoráveis à adoção da pena de morte no Brasil.

Mas, se o Papa já devia saber sobre isso tudo, então o que ele veio de fato fazer no Brasil? Mais uma vez tentar reverter o quadro negativo da Igreja no país. O Brasil é o país onde a crise vocacional é a maior do mundo. As escolas religiosas (colégios e universidades) sofrem maior concorrência e, para piorar tudo isso, o Estado é laico e a Constituição afirma isso com todas as letras para que não fique alguma dúvida. Ao contrário de outros países onde a Igreja interfere nas ações do Estado, inclusive recebendo verbas vantajosas que garantem sua existência como no caso da Argentina, da Alemanha, entre outros.

Esse foi o teor principal da conversa dos chefes de Estado do Vaticano e do Brasil. O resultado não poderia ser outro, o Presidente foi categórico ao dizer não. Não ao financiamento do ordenamento de padres, através de incentivos aos seminários. Não ao financiamento de colégios e universidades católicas. Não e não! O Papa esperava outra coisa de um presidente católico, é claro. Mas, o que todo brasileiro espera do seu país é que ele separe interesses de religião dos interesses do estado. E que isso seja um dos tantos deveres constitucionais a ser cumprido à risca.



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