|
por
Frei Betto
Levei dez anos para escrever “Batismo de Sangue” (editora Rocco),
de 1973, ao sair de quatro anos de prisão, a 1983. Reviver toda a
saga de um grupo de frades dominicanos na luta contra a ditadura
militar fez-me sofrer. Revirei a memória, fiz entrevistas e
pesquisas, revisitei os locais dos acontecimentos, consultei
arquivos. Sim, arquivos. O governo federal, comandado por dois
ex-presos políticos (Lula na Presidência e Dilma Rousseff na
Casa Civil), desconsidera a memória nacional ao não abrir os
arquivos das Forças Armadas. Felizmente existem arquivos fora
do controle militar. Sobretudo arquivos vivos, sobreviventes da
grande tribulação.
Deu-me trabalho levantar os últimos momentos do líder revolucionário
Carlos Marighella e o intrincado cipoal em torno de seu assassinato
pela repressão, em 4 de novembro de 1969. E doeu-me descrever em
detalhes a paixão e morte de frei Tito de Alencar Lima, levado
ao suicídio em 1974, aos 28 anos, em decorrência das torturas
sofridas nas dependências do II Exército, em São Paulo.
Queriam forçá-lo a assinar confissões falsas e delatar pessoas.
Não escutaram senão o silêncio daquele religioso que sabia ser
“preferível morrer do que perder a vida”, como escreveu em
sua Bíblia.
Um dia dei o livro a Helvécio Ratton, que também militou
na resistência à ditadura e esteve exilado. Escrevi na dedicatória:
“Helvécio, a vida supera a ficção”. Diretor de cinema,
ele tomou a si o desafio e levou às telas “Batismo de
Sangue”, que estréia a 20 de abril. As cenas - ambientação
precisa dos anos 60 - foram rodadas no Brasil e na França. Integram
o elenco Caio Blat (no papel de Frei Tito), Ângelo Antônio (frei
Oswaldo), Léo Quintão (frei Fernando), Odilon Esteves (frei
Ivo), Daniel de Oliveira (que me interpreta), Marku Ribas
(Carlos Marighella), Marcélia Cartaxo (Nildes), Cássio Gabus
Mendes (delegado Fleury) e outros.
Filmes nem sempre retratam adequadamente os livros nos quais se
inspiram. Em geral, a literatura ganha em profundidade da arte
cinematográfica, obrigada a condensar-se num par de horas. O
livro, traduzido para o francês e o italiano (e, em breve, para
o espanhol), merecedor do mais conceituado prêmio literário do
Brasil, o Jabuti, atrai o interesse dos leitores desde sua
publicação há 24 anos. Falei ao Helvécio: “Livro é livro,
filme é filme; não quero interferir.” O máximo que
solicitou, a mim e aos frades Fernando de Brito, Oswaldo Rezende
e o ex-dominicano Ivo Lesbaupin, foi conversar com os atores
sobre a nossa experiência na guerrilha urbana e na prisão. Li
o roteiro de Dani Patarra, considerei-o excelente, mas preferi não
opinar.
Em março, no Festival de Brasília, vi o filme pela primeira
vez. Fiquei transtornado: arrancou-me lágrimas, reavivou-me a indignação
contra o arbítrio, ativou-me as teias da emoção, enlevou-me pela
trilha sonora, fez-me agradecer a Deus pertencer a uma geração
que, aos 20 anos, injetava utopia nas veias. Fiquei embevecido
frente à força estética das imagens produzidas pelo talento
de Helvécio Ratton. O Festival de Brasília concedeu-lhe os prêmios
de Melhor Direção e Melhor Fotografia (Lauro
Escorel). No Festival de Tiradentes, a platéia de mais mil pessoas, a
maioria jovens, expressou a emoção em prolongadas palmas.
A arte brasileira adianta-se ao governo e escancara os
bastidores da ditadura. Este é um filme a ser visto
especialmente por quem não viveu os anos de chumbo. Ali está o
estupro da mãe gentil, gigante entorpecido, o Brasil sem margens
plácidas, arrancado do berço esplêndido, resgatado à
democracia pelos filhos que, por amor e esperança, e sem temer
a própria morte, não fugiram à luta.
“Batismo de Sangue” é um hino à liberdade. Nele se revela
a história recente de uma nação e a fé libertária de um
grupo de cristãos. Emerge, contundente, a subjetividade dos
protagonistas, como frei Tito, em quem se transubstanciou a dor
em amor, o sofrimento em oblação, as algemas em matéria-prima
desta invencível esperança de construirmos um mundo em que a paz
seja filha da justiça, e a felicidade, sinônimo de condição
humana.
Frei Betto é escritor.
"Em
cumprimento da Lei de Direitos Autorais
é proibida a reprodução deste artigo sem autorização escrita do autor".
|