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NA TERRA DE GARCÍA LORCA |
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Retornei, no Carnaval, à Universidade de Granada, onde estive em novembro de 2006. Fundada há 500 anos, hoje ela abriga 60 mil estudantes. “Ética e sociedade civil” foi o tema do novo seminário. Entre os conferencistas destacam-se Boaventura de Sousa Santos, Marciano Vidal e Juan José Tamayo. Visitei a casa de Federico García Lorca. Formado em Direito por aquela universidade, amigo de Buñuel e Dali, em 1929 ele visita os EUA, Cuba e Argentina. Ao retornar a seu país, funda um grupo de teatro e não esconde seu homossexualismo e suas idéias socialistas. Em agosto de 1936, com o início da Guerra Civil que levaria à ditadura do general Franco, apoiada pela Igreja Católica, Lorca refugia-se em Andaluzia, sua terra. Um deputado franquista ordena a prisão do jovem poeta sob o argumento de que “ele seria mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver.” Assassinado com um tiro na nuca, o corpo é jogado em algum ponto da Serra Nevada, próxima a Granada. Lorca deixou-nos, aos 38 anos, uma obra de altíssima qualidade em poesia, prosa e teatro.
Último baluarte da ocupação moura da Espanha,
Granada reintegrou-se à cristandade no mesmo ano em que Colombo chegou à América.
Evitou-se, durante uma década, a repressão aos vencidos, e o Palácio
de Alhambra, preciosidade arquitetônica habitada pelos reis muçulmanos,
foi poupado, embora as mesquitas edificadas sobre antigos templos católicos
tenham servido de alicerce à construção de novas igrejas,
cujos campanários substituíram os minaretes... Granada, eternizada pela bela
canção de Agustín Lara, é o nome espanhol de romã – que
simboliza a cidade. O nome do explosivo deriva desta fruta repleta de sementes.
As relações entre o governo e a hierarquia católica
estão a ponto de ebulição. Temas como casamento de homossexuais (aprovado
em plebiscito) e células-tronco causam tanta irritação aos bispos
quanto a introdução, no currículo escolar, da disciplina Educação
Cidadã, opção aos alunos que se recusam a assistir às aulas de religião.
Zapatero teme que seu futuro próximo seja o presente de Prodi, primeiro-ministro da Itália, derrubado por pressão conjunta
do Vaticano e de Washington. Os EUA querem ampliar suas bases militares em Coube-me, no seminário de Granada, o tema da ética e poder. Voltei às teses expostas em meu mais recente livro, “A mosca azul” (Rocco), frisando que a primavera democrática que desponta hoje na América Latina, após décadas de ditaduras militares, comprova que o povo se cansou das velhas oligarquias políticas e, agora, vota naqueles que lhe são à imagem e semelhança. Vota na esperança de que haja mudanças em nossa estrutura social pela via democrática e pacífica. Caso os novos governos decepcionem a expectativa popular, só Deus sabe o futuro que nos aguarda.Frisei que não basta exigir ética dos políticos. É preciso criar instituições políticas e jurídicas capazes de inibir e coibir os corruptos. Portanto, qualquer debate sobre ética na política que ignore a urgência de uma reforma que imprima ética à política é chover no molhado. No andar de cima, o Brasil precisa de reforma política; no de baixo, da reforma agrária. Fora disso, o resto é palavrório eleitoreiro, pura engabelação para iludir os incautos. Frei
Betto é escritor, autor de “Gosto de Uva” (Garamond), "Em
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