A segurança pública está ferida de morte


 

 

*Cláudio Damião Santos Pereira

 

      

A morte brutal do menino João Hélio gerou um clima de comoção geral. E não poderia ser diferente. Mesmo que a sociedade já esteja meio anestesiada com a violência cotidiana, casos como estes não passam sem deixar um rastro de profunda revolta. Ecoa por todos os cantos um grito surdo de aflição denunciando que chegamos ao limite do suportável.
Mas quero lembrar que este mesmo clima já foi gerado em outras ocasiões. Quem não se lembra do assassinato do jornalista Tim Lopes, um caso rumoroso, explorado com um certo sensacionalismo pela mídia? E a morte da professora no ônibus da linha 174? Não faz muito tempo, várias pessoas foram queimadas vivas dentro de um ônibus, entre tantos outros casos.

Nestas ocasiões, aproveitando o clima de comoção e o clamor da sociedade, aparecem soluções messiânicas. Propostas como a pena de morte e a redução da maioridade penal são as mais citadas. Corre-se o risco, mais uma vez, de se atacar o efeito sem cuidar da causa.

O fato que não se discute, entra governo sai governo, é que a estrutura, o aparato de segurança do estado, está caindo de podre, seja pela falta de aparelhamento das delegacias e batalhões de polícia, seja pela falta de material humano, seja pela falta de valorização do material humano, seja pela promiscuidade da relação bandido-polícia, em todos os escalões.

A corrupção dentro da estrutura de segurança é tanta que até o ex-chefe de Polícia Civil do Rio, agora deputado estadual eleito, Álvaro Lins, é suspeito de envolvimento com a máfia de caça-níqueis. Um estranho silêncio entre o ex-secretário de Segurança, Marcelo Itagiba, e a ex-governadora, Rosinha Garotinho, que sabiam das suspeitas contra Álvaro Lins e ainda assim nada fizeram, encobre o caso. E ele, agora protegido por uma discutível imunidade parlamentar, se cala.

Álvaro Lins não é um caso isolado. Investigações da Polícia Federal mostram que componentes da "banda podre" da polícia fornecem armas e munições às quadrilhas de traficantes do Rio. Há, segundo investigações, "acertos" com bicheiros, traficantes e a máfia de caça-níqueis, etc...

Por fim, temos visto a ação das milícias nos morros do Rio de Janeiro (depois ainda dizem que não estamos em guerra), disputando poder e autoridade com os bandidos, cobrando para dar "proteção" aos moradores, entre outras coisas.
Num quadro conturbado como o que vivemos, e que se agrava a cada ano, não podemos esperar por soluções que não envolvam um total comprometimento dos representantes públicos na tarefa árdua de banir o banditismo de dentro das instituições. Este, talvez, devesse ser o primeiro passo a ser dado: uma reestruturação de todo o aparelho público de segurança.

Não haverá meios de conter a violência se não houver investimentos em inteligência e aprimoramento humano dos agentes da lei. Os policiais honestos precisam ser valorizados para que não tenham que recorrer à dupla jornada de trabalho, fazendo os chamados "bicos", prestando serviços de segurança em supermercados, condomínios, etc..., para complementar sua renda. São estes homens que, cansados, irão para as ruas cuidar da segurança da população. Não tenho dúvida de que a polícia é composta por uma maioria de homens e mulheres de bem e que sofrem com esta imagem deformada que a instituição adquiriu ao longo do tempo.

Não pode haver tolerância com o banditismo, menos ainda com o banditismo institucional, que porta uma insígnia ou usa farda. Ele faz com que fiquemos ainda mais desesperançados. É preciso ainda que o Estado ataque os problemas sociais que originam a violência, que aprofunde os investimentos em educação, geração de emprego e ação social.

Nos oito anos de governo dos Garotinhos, vivemos o agravamento da violência. Esperamos que algo seja feito neste novo governo. Caminhadas e manifestações pela paz realizadas pela sociedade são legítimas. Acenam como um pedido de socorro da população. Mas, isoladas, em si nada resolvem se não houver uma forte ação política. Na minha opinião, é por aí que devemos caminhar. Cobrar ações políticas concretas. Ações racionais e práticas, que não estejam vinculadas à comoção como a causada pela morte do menino João Hélio.

*Presidente do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo
E-mail: claudiodamiao@pop.com.br
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Publicado no jornal Serrano On-line em 09.03.07