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O ESTUDANTE DE 1907 EM 2007 |
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A crise da modernidade afeta suas principais instituições, sobretudo a escola. Se um estudante falecido em 1907 ressuscitasse hoje, ficaria perplexo frente a tamanhos avanços e inovações. Mas com certeza não estranharia a escola, uma relíquia dos tempos de antanho. Para que serve a educação escolar? Para muitos estudantes, é o túnel pelo qual se tem acesso ao mercado de trabalho. A luz no fim do túnel é a capacitação profissional, um bom salário, uma identidade social, graças a conhecimentos e habilidades adquiridos nos bancos escolares. Seria a escola mera estufa de adestramento para o mercado de trabalho? Como me disse um adolescente de 16 anos, “na academia eu malho o corpo; na escola, o cérebro”. De fato, essa “malhação” cerebral tem seus efeitos positivos. As diferenças de salários são menores em sociedades que apresentam melhor resultado educativo. Porém,
o ressuscitado em 2007 notaria na escola uma diferença marcante
em relação ao seu tempo: o caráter mercantilista
fez a qualidade do ensino transferir-se da escola pública para
a particular. A progressiva demissão do Estado frente a seus
deveres sociais – e direitos da cidadania, como educação
e saúde -, fruto amargo do neoliberalismo que, Educar
deveria ser muito mais que propiciar ao educando conhecimentos e habilidades
para que venha a obter melhores salários que seus pais e avós.
Mais importante do que formar um profissional, é formar uma
pessoa capaz de atuar como cidadã; inserir-se sem preconceitos
nessa realidade multicultural; associar significados e construir sínteses
cognitivas; superar a mera percepção da vida como fenômeno
biológico para encará-la O educando de 1907 estava confinado numa pedagogia que não diferia muito do regime dos quartéis, e onde o aprendizado dependia do esforço memorial. Tratava-se de assimilar conhecimentos. Hoje, o aprendizado é um processo interativo e criativo. E o conhecimento é determinante no novo paradigma produtivo. Não basta assimilar informações. É preciso saber selecioná-las, relacioná-las e fazê-las convergir para processos criativos. Deve a escola dotar o educando de capacidade para enfrentar os novos desafios, lidar com as múltiplas racionalidades vigentes, aprofundar seu espírito crítico. Enfim, saber converter informação em cultura e cultura em sentido de vida. Se
quisesse reciclar-se, o nosso ressuscitado se veria impelido a evoluir
da memorização à compreensão, da assimilação
de informações à seleção crítica,
do mero aprendizado à criatividade. Uma boa pedagogia o instigaria
a analisar criticamente a realidade; conviver dialogicamente nesse
mundo de pluralidade cultural; transformar idéias e sonhos
em O estudante de 1907 ficaria atordoado com as novas tecnologias de comunicação. Veria, espantado, o quanto o mundo encolheu. Vivemos agora na aldeia global. Em tempo real, o que ocorre do outro lado do planeta entra em sua casa através da janela eletrônica. Ele se sentiria muito ameaçado se não soubesse como relacionar conteúdos globais e realidades locais. Sua identidade cultural estaria abalada frente ao rolo compressor da hegemonização televisiva da cultura de entretenimento como isca hipnótica de atração ao consumismo. Educar é saber lidar com a diferença e o diferente. O educando que não se sente nem se sabe diferente corre o risco de ceder à massificação midiática. Buscará na imagem desse espelho retorcido uma face que não é a sua e, no entanto, o fascina pela ilusão de que, ao negar as suas raízes, haverá de alcançar aquele outro ser que só existe em sua fantasia. Um
dos grandes desafios da educação é como incutir
vivências comunitárias como expressão de singularidades,
jamais de despersonalização. Esse situar-se no lugar
do outro, procurar ver o mundo com olhos do outro, é o que
provoca mudanças de lugares social e epistêmico, e funda
as condições de convivência democrática.
Em suma, Frei
Betto é escritor,
"Em
cumprimento da Lei de Direitos Autorais |