Os estragos da chuva em Nova Friburgo


 

 

*Cláudio Damião Santos Pereira

 

      

Não fosse a manifestação das vítimas das chuvas, pessoas oriundas dos diversos bairros da cidade, que se reuniram em praça pública e caminharam em protesto até a prefeitura, poderia parecer aos mais desatentos que está tudo bem; que após as chuvas que atingiram a cidade no início do ano, já passados três meses, os problemas, no que tange aos desabrigados, foram resolvidos de forma eficiente pela prefeitura. Não foram!
A manifestação ocorrida serviu exatamente para mostrar que isso não aconteceu. Serviu também para mostrar, entre outras coisas, que não há, em Nova Friburgo, um projeto público de construção de habitações populares, cuja ausência contribui para a construção desordenada e em áreas de risco. Também ficou claro que os R$ 4,5 milhões, anunciados pela prefeitura para a construção de algumas casas, são recursos oriundos do governo federal, o município não investiu nada.
Até hoje, em vários bairros, por falta de ação da prefeitura, há barreiras que sequer foram removidas das calçadas, dando um ar de total abandono. Houve bairro em que os moradores tiveram que se cotizar para limpar as ruas.
A impressão que se tem é que bateu uma leseira, uma canseira danada, nos nossos agentes públicos. A cidade está em ritmo de espera: “espera que eu vou resolver”; “espera que eu vou à Brasília pedir dinheiro”; “espera que um dia tudo se resolve...” Depois, querem falar em turismo. Não sei como! Se esquecem, os nossos administradores, que turistas querem visitar cidades cujas ruas e calçadas não estejam esburacadas, cujas praças estejam bem cuidadas, etc... Em Nova Friburgo os buracos se multiplicam, não só nas ruas do Centro da cidade, como também em diversos bairros. A nossa Praça Getúlio Vargas está esquecida, não é de hoje. Bastaria colocar um grupo de jardineiros cuidando dos canteiros e a Praça ganharia viço. Não seriam necessários muitos gastos contratando empresas de jardinagem. Quanto aos buracos, bastaria cobrí-los e consertá-los. Nada complicado demais.
Se questões administrativas de simples solução não são tratadas, como cuidar do problema que mais aflige aqueles que perderam suas casas? Ou dos que não possuem casas? Ou dos que moram em locais cuja ação da chuva será apenas uma questão de tempo? Solução há. E os recursos estão aí, sobrando. É verdade, estão sobrando! Só que destinados ao local errado: para a nossa Câmara Municipal. Eu explico: uma resolução do TSE determinou que houvesse uma redução do número de vereadores já a partir da legislatura de 2005. O povo, conseqüentemente, esperava que houvesse, na mesma proporção, uma redução do repasse de verbas para a Câmara, pois, segundo o que se pretendia, não era reduzir a representação política, mas possíveis excessos. Sendo assim, basta fazer as constas: em 2004, o orçamento da Câmara Municipal, com 19 vereadores, era de R$ 4,8 milhões. Hoje, com 12 vereadores, ou seja, 7 vereadores a menos, o orçamento é de R$ 7 milhões. Portanto, R$ 2,2 milhões a mais. Sendo assim, estão aí os recursos para a construção de mais umas 150 casas populares.
Claro que isso não acontecerá, pois falta “coragem” - mas caberia uma outra palavra - aos nossos legisladores para tomarem uma decisão desta envergadura. Preferem manter, sem contestar, a política da farsa e dos discursos capengas de que estão pagando dívidas, fazendo reformas, economizando, renovando frotas, administrando... Pura lenga, lenga.
Não há como esperar ações de tamanha magnitude dos nossos vereadores, quando a maioria deles está preocupada em empregar parentes nos gabinetes ou em cargos na prefeitura, ajudando a ampliar a renda familiar. Alguns podem até apoiar o “Movimento Moradia e Participação”, mas não farão gestos maiores, como o de apresentar um projeto que determine a redução do repasse de verbas para a Câmara na proporção da redução do número de vereadores, direcionado os recursos economizados para a construção de casas populares.
Bom, a questão está colocada. Como haverá eleição no ano que vem... Quem sabe, se algum vereador, pressionado, toma a iniciativa de fazer uma proposta?!...


*Presidente do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo
E-mail: claudiodamiao@pop.com.br

Texto publicado no jornal Alternativa – Abril de 2007