Não
fosse a manifestação das vítimas das chuvas,
pessoas oriundas dos diversos bairros da cidade, que se reuniram
em praça pública e caminharam em protesto até
a prefeitura, poderia parecer aos mais desatentos que está
tudo bem; que após as chuvas que atingiram a cidade no início
do ano, já passados três meses, os problemas, no que
tange aos desabrigados, foram resolvidos de forma eficiente pela
prefeitura. Não foram!
A manifestação ocorrida serviu exatamente para mostrar
que isso não aconteceu. Serviu também para mostrar,
entre outras coisas, que não há, em Nova Friburgo,
um projeto público de construção de habitações
populares, cuja ausência contribui para a construção
desordenada e em áreas de risco. Também ficou claro
que os R$ 4,5 milhões, anunciados pela prefeitura para a
construção de algumas casas, são recursos oriundos
do governo federal, o município não investiu nada.
Até hoje, em vários bairros, por falta de ação
da prefeitura, há barreiras que sequer foram removidas das
calçadas, dando um ar de total abandono. Houve bairro em
que os moradores tiveram que se cotizar para limpar as ruas.
A impressão que se tem é que bateu uma leseira, uma
canseira danada, nos nossos agentes públicos. A cidade está
em ritmo de espera: “espera que eu vou resolver”; “espera que eu
vou à Brasília pedir dinheiro”; “espera que um dia
tudo se resolve...” Depois, querem falar em turismo. Não
sei como! Se esquecem, os nossos administradores, que turistas querem
visitar cidades cujas ruas e calçadas não estejam
esburacadas, cujas praças estejam bem cuidadas, etc... Em
Nova Friburgo os buracos se multiplicam, não só nas
ruas do Centro da cidade, como também em diversos bairros.
A nossa Praça Getúlio Vargas está esquecida,
não é de hoje. Bastaria colocar um grupo de jardineiros
cuidando dos canteiros e a Praça ganharia viço. Não
seriam necessários muitos gastos contratando empresas de
jardinagem. Quanto aos buracos, bastaria cobrí-los e consertá-los.
Nada complicado demais.
Se questões administrativas de simples solução
não são tratadas, como cuidar do problema que mais
aflige aqueles que perderam suas casas? Ou dos que não possuem
casas? Ou dos que moram em locais cuja ação da chuva
será apenas uma questão de tempo? Solução
há. E os recursos estão aí, sobrando. É
verdade, estão sobrando! Só que destinados ao local
errado: para a nossa Câmara Municipal. Eu explico: uma resolução
do TSE determinou que houvesse uma redução do número
de vereadores já a partir da legislatura de 2005. O povo,
conseqüentemente, esperava que houvesse, na mesma proporção,
uma redução do repasse de verbas para a Câmara,
pois, segundo o que se pretendia, não era reduzir a representação
política, mas possíveis excessos. Sendo assim, basta
fazer as constas: em 2004, o orçamento da Câmara Municipal,
com 19 vereadores, era de R$ 4,8 milhões. Hoje, com 12 vereadores,
ou seja, 7 vereadores a menos, o orçamento é de R$
7 milhões. Portanto, R$ 2,2 milhões a mais. Sendo
assim, estão aí os recursos para a construção
de mais umas 150 casas populares.
Claro que isso não acontecerá, pois falta “coragem”
- mas caberia uma outra palavra - aos nossos legisladores para tomarem
uma decisão desta envergadura. Preferem manter, sem contestar,
a política da farsa e dos discursos capengas de que estão
pagando dívidas, fazendo reformas, economizando, renovando
frotas, administrando... Pura lenga, lenga.
Não há como esperar ações de tamanha
magnitude dos nossos vereadores, quando a maioria deles está
preocupada em empregar parentes nos gabinetes ou em cargos na prefeitura,
ajudando a ampliar a renda familiar. Alguns podem até apoiar
o “Movimento Moradia e Participação”, mas não
farão gestos maiores, como o de apresentar um projeto que
determine a redução do repasse de verbas para a Câmara
na proporção da redução do número
de vereadores, direcionado os recursos economizados para a construção
de casas populares.
Bom, a questão está colocada. Como haverá eleição
no ano que vem... Quem sabe, se algum vereador, pressionado, toma
a iniciativa de fazer uma proposta?!...
*Presidente do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo
E-mail: claudiodamiao@pop.com.br
Texto publicado no jornal Alternativa – Abril de
2007