A
rixa entre as famílias Teixeira e Brandão exigiu a presença
de meu avô, oficial da Polícia Militar de Minas, para selar
a paz no município dominado por elas. Ali os anos se sucediam
atracados a uma coleção de cadáveres. As genealogias
derramavam-se em necrofilias.
Na memória local apagara-se a origem do conflito. Uma
questão de terras, diziam uns; segundo outros, a disputa por uma
nascente que brotava do umbigo da Mantiqueira.
Há três gerações, Teixeira e Brandão vingavam
sucessivamente seus respectivos mortos. Se um Brandão era abatido,
a morte de um Teixeira fazia-se questão de tempo. Podia ocorrer na
semana seguinte, quando nem ainda esfriara o defunto adversário;
um ou dois meses depois; ou completado um ano.
Ambas as famílias precaviam-se à iminência de uma
emboscada. Os Teixeira circulavam pela cidade apertados num
cinto de capangas e infiltravam espias nas hostes dos Brandão
para denunciar o menor sinal de retaliação à vista. Os
Brandão guardavam-se ciosos em seus sítios e fazendas, e até
as crianças traziam uma arma sob a roupa.
Uma semana antes de meu avô aquartelar-se no prédio do
antigo grupo escolar, acompanhado de uma dezena de soldados,
um Teixeira havia sido abatido no leito da amante. Para a família
da vítima, a mulher se cumpliciara com os Brandão em troca
de um baú forrado com barras de ouro. Contados cinco meses,
um Brandão teve o ventre trespassado por pontiagudo punhal
enquanto assistia à missa de sétimo dia da sogra. Assim, ano a ano
desfolhavam-se as árvores genealógicas das duas famílias.
Meu avô convocou os chefes dos clãs para uma
entrevista. Ralhou com um, ameaçou outro, e asseverou:
“Deixarei insepultas as próximas vítimas dessa maldita rixa.”
Ao cabo de treze dias, um corpo da família Teixeira tombou
atrás do mercado. Trazia a assinatura dos Brandão: tiro atrás
da orelha direita. O moleque que o descobriu lançou-se aos
gritos em correria desabalada pela rua principal: “Mataram
mais um! Mataram mais um!”
Meu avô e três ordenanças cercaram a vítima com
quatro estacas e uma corda. E afixaram uma placa: “Proibido
tocar.” Um soldado ficou de guarda para evitar que os Teixeira
viessem dar sepultura ao finado.
Mal a rigidez cadavérica emitiu os primeiros eflúvios
de carne apodrecida, um Brandão apareceu morto no galinheiro
do sítio em que morava. A arma branca enfiada pelas costas
dissipava dúvidas: vingança dos Teixeira. Meu avô mandou recolher
as penosas no invernadouro e, na tela que servia de porta,
pregou o aviso: “Proibido entrar.”
A deterioração dos cadáveres atraiu urubus e afastou
viventes. Suspenderam-se as aulas da escola nova, vizinha ao
mercado. Este teve o seu comércio prejudicado devido ao
cheiro pútrido que o infestava. Nas aforas da cidade,
abriu-se desvio na estrada para que as narinas de tropeiros e
viajantes não inalassem o odor nauseabundo do corpo estirado no
galinheiro.
Bastou os vira-latas, dias depois, aparecerem lingüiçando
tripas pelas ruas, para os Teixeira e Brandão baterem à porta do
meu avô. Vinham dispostos a selar a paz e dar sepultura santa
a seus mortos. Precavido, o oficial lavrou um termo de
compromisso e mandou que assinassem. Após mútuos
cumprimentos, os enterros foram autorizados.
Dois anos mais tarde, Analice, sobrinha da vítima do
mercado, subiu enoivada o altar da igreja matriz para prometer
amor eterno a Laurindo, filho do defunto do galinheiro.
Brandão e Teixeira não chegaram a um acordo quanto ao
local da recepção. Uns e outros insistiam promovê-la em suas
respectivas fazendas. Frente ao impasse, meu avô cedeu o pátio
do improvisado quartel para a festa de casamento.
Frei
Betto é escritor, autor de “Treze contos diabólicos e
um angélico” (Planeta), entre outros livros.