A PRAÇA DOS SUSPIROS


 

 

*Cláudio Damião Santos Pereira

 

      

Leio sempre, com muita atenção, os textos do Sr. Raphael Jaccoud, no jornal a Voz da Serra. Ele narra histórias de nossa cidade com a paixão de quem a quer preservada e de quem sofre com a degradação de sua memória, de seus monumentos históricos, de sua identidade.

Leio-o  com a atenção de quem, como ele, também se preocupa com estes temas. Embora pouco possa fazer, além de lançar a minha voz e fazer coro com outros que assim pensam. E penso como ele, que recentemente se expressou no texto, “A capelinha da Praça dos Suspiros”, que a Praça do Suspiro, como tal, acabou.

Trago ainda na memória, e não é por saudosismo, mas pela beleza que havia, uma outra Praça: com lago, plantas e flores. Quando saía do Colégio Modelo, onde estudava, passava pela bela Praça, hoje cimento duro, quase sem vida. A Fonte do Suspiro: “Amor, Ciúme e Saudade”, ficou, infelizmente, na saudade dos que a lembram de outros tempos: bonita, com água. Uma fonte de fato. Hoje um exemplo de descaso e abandono.

Claro que não é o único caso de abandono de nosso patrimônio histórico. E já que estou falando de Praça, a nossa Praça Getúlio Vargas é outro exemplo de abandono: fria, sem flor, sem vida. Jardins repisados, esperando por uma nova licitação, que contrate uma empresa para ajardiná-la, até que fique feia de novo, num processo cíclico entre fazer e deixar que tudo se desfaça com o passar do tempo.

Reforço a sugestão que já fiz em outro momento ao Poder Público, mesmo sabendo que não há interesse nela: por que não se coloca jardineiros para tratarem da nossa Praça? Jardim precisa de mão humana, de afofar a terra, adubar, molhar, podar... Não essa coisa mecânica de licitação para uma empresa que fará a colocação de plantas. E nada mais. Fica bonito por uns dias... depois volta ao abandono. Portanto, até por uma questão de custo, coloquem três ou quatro pessoas, jardineiros da prefeitura, para cuidarem da nossa feia e abandonada Praça Getúlio Vargas. Estou certo que ficará muito mais barato e a Praça voltara a ter viço. Em edital publicado recentemente, o município divulgou que gastará R$368 mil para reurbanizar a Praça do Paissandu, que também sofre com o abandono.

Mas, voltando a Praça do Suspiro, a prefeitura abriu licitação no valor de R$1,7 milhões para a continuação da obra do Teatro e do estacionamento na referida Praça. Não sei dizer ao certo, mas suponho que já se tenha gastado verdadeiras fortunas neste projeto, desde o malfadado governo passado, até hoje. No entanto, não se fala em centavos sequer para a recuperação da nossa histórica Fonte do Suspiro. Nem sei se este projeto seria prioritário, quando estima-se que mais de 500 famílias que foram atingidas pelas chuvas do início do ano - e muitas perderam suas casas - estejam ainda em situação de abandono, voltando para as áreas de risco, por total falta de opção.

Estamos nos aproximando das comemorações dos duzentos anos de nossa cidade, com autoridades  mais ocupadas em garantir o emprego de familiares nos espaços públicos: legislativo e executivo; com vereadores que não mudam suas práticas de indicação política para cargos nos diversos espaços públicos e sem um olhar para a cidade. Patinamos entre um passado que não se conhece ou não interessa preservar e um futuro que não se projeta. Tristemente o improviso e o imediatismo, para não falar da falta de espírito público de uma boa parcela dos nossos “próceres”, tomou conta de tudo.

 

*Presidente do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo

E-mail: claudiodamiao@pop.com.br

Publicado no jornal A voz da Serra 05/07/07