Em
tempos pré-natalinos, em que autores plagiam Voltaire e
apregoam que Deus não passa de um delírio de nossas mentes,
vale recordar o que disse Dostoiévski no século XIX: “Ainda que
me provassem que Jesus não estava com a verdade, eu ficaria com
Jesus”.
Jesus teve muito pouca importância para a sua época, exceto
para o pequeno grupo de seus discípulos. Era um homem destituído
de valor agregado. Agrega-se valor a uma pessoa a função que
ela ocupa (vide os políticos), os bens que ela porta (vide os
ricos), os títulos que ela ostenta (vide os nobres e os acadêmicos),
o lugar de origem (nascer em Paris ou Nova York soa melhor a certos
ouvidos do que nascer em Santana do Capim Seco).
Em tempos de outrora, o lugar de origem fazia às vezes de
sobrenome. Os evangelhos referem-se a Jesus de Nazaré. Que
valor tinha Nazaré, cidade ao sul da Galiléia? Era uma pequena
aldeia camponesa com população em torno de 200 a 400
habitantes. Ali se cultivavam oliveiras, vinhas e grãos, como trigo e
cevada. Suas casas eram de pedras brutas empilhadas umas nas
outras, revestidas de argila ou lama, e até mesmo esterco
misturado com palha para favorecer o isolamento térmico.
A existência de Nazaré jamais foi mencionada pelos
rabinos judaicos na Mixná ou no Talmude, embora eles listem 63
outras cidades da Galiléia. O historiador judeu Flávio Josefo,
do século I, cita 45 localidades da Galiléia, e Nazaré não
aparece. Assim como não figura em todo o Antigo Testamento. O
catálogo bíblico das tribos de Zebulon enumera 15 localidades
da Baixa Galiléia, próxima a Nazaré, mas esta não é citada
(Josué 19,10-15).
Nazaré era um lugar tão insignificante que Natanael,
convidado a se tornar discípulo “daquele sobre quem
escreveram Moisés, na Lei, e os profetas: Jesus, o filho de José, de
Nazaré”, indaga com ironia: “De Nazaré pode sair algo de
bom?” (João 1, 45-46).
Nazaré dista pouco menos de 7 km de Séforis, que foi capital
da Galiléia antes de Herodes Antipas construir sua Brasília da época
em homenagem ao imperador Tibério César: Tiberíades, à
margem do lago da Galiléia. É provável que José e seu filho
Jesus tenham trabalhado nas edificações de Séforis e Tiberíades.
É curioso constatar que Jesus jamais pisou nesta última
cidade, embora fosse visto com freqüência em outras localidades
à beira do lago, como Cafarnaum. Talvez a ostentação da capital da
Galiléia lhe causasse repulsa.
A própria família de Jesus não o via com bons olhos,
como acontece em relação aos filhos que fogem às previsões paternas.
Segundo Marcos (3, 19-21), quando Jesus voltou para casa, “a multidão
se apinhou, a ponto de não poderem se alimentar. E quando os seus
tomaram conhecimento disso, saíram para detê-lo, porque diziam
“enloqueceu!” Na cultura da época, insanidade e possessão
do demônio eram quase sinônimos.
Marcos, o primeiro evangelista, prossegue: “Chegaram então a
mãe e seus irmãos e, ficando do lado de fora, mandaram chamá-lo.
Havia uma multidão sentada em torno dele. Disseram-lhe: ‘A
tua mãe, os teus irmãos e tuas irmãs estão lá fora e te
procuram’. Ele perguntou: ‘Quem são minha mãe e meus irmãos?’.
E percorrendo com o olhar os que estavam sentados a seu redor, disse:
‘Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe”.
(3, 31-35)
A tentativa de difamar Jesus é perene. Em fins do século
II, Celso, filósofo grego, escreveu contra o cristianismo em
defesa do paganismo: “Imaginemos o que algum judeu –
principalmente se filósofo – poderia perguntar a Jesus: “Não
é verdade, meu bom senhor, que você inventou a história de
seu nascimento de uma virgem para abafar os rumores acerca das verdadeiras
e desagradáveis circunstâncias de sua origem? Não é fato que,
longe de ter nascido em Belém, cidade real de Davi, você
nasceu num lugarejo pobre de uma mulher que ganhava a vida num
tear? Não é verdade que quando sua mentira foi descoberta,
sabendo-se que fora engravidada por um soldado romano chamado
Panthera, seu marido, um carpinteiro, a abandonou sob acusação de
adultério? Não é verdade que, por causa disso, em sua desgraça
perambulou para longe de seu lar e deu à luz um menino em silêncio
e humilhação? Que mais? Não é também verdade que você se
empregou no Egito, aprendeu feitiçaria e se tornou conhecido a
ponta de agora se exibir entre os seus conterrâneos?”
Estamos a entrar no Advento. Quem esperamos? Um jovem
“maluco” oriundo de uma localidade insignificante ou o Deus
Salvador? A resposta é simples: basta olhar em volta e
indagar-nos que importância damos aos atuais “nazarenos”:
sem-terra e sem-teto, oprimidos e encarcerados, funcionários
subalternos e pessoas destituídas de valor agregado. Segundo Mateus
25, 31-46, é neles que Jesus quer ser reconhecido, servido e amado.
É por eles que Deus Salvador entra em nossas vidas.
Frei Betto é escritor, autor de “A arte de semear estrelas”
(Rocco), entre outros livros.