DIMENSÃO HOLÍSTICA DA  ÉTICA


 por Frei Betto

Sócrates foi  condenado à morte por heresia, como Jesus. Acusaram-no de pregar aos jovens  novos deuses. Tal iluminação não lhe abriu os olhos diante do céu, e sim da  terra. Percebeu não poder deduzir do Olimpo uma ética para os humanos. Os  deuses do Olimpo podiam explicar a origem das coisas, mas não ditar normas de  conduta.

A mitologia, repleta de exemplos nada edificantes, obrigou os  gregos a buscar na razão os princípios normativos de nossa boa convivência  social. A promiscuidade reinante no Olimpo, objeto de crença, não convinha  traduzir-se em atitudes; assim, a razão conquistou autonomia frente à  religião. Em busca de valores capazes de normatizar a convivência humana,  Sócrates apontou a nossa caixa de Pandora: a razão.

Se a moral não  decorre dos deuses, então somos nós, seres racionais, que devemos erigi-la. Em  Antígona, peça de Sófocles, em nome de razões de Estado Creonte proíbe  Antígona de sepultar seu irmão Polinice. Ela se recusa a obedecer “leis não  escritas, imutáveis, que não datam de hoje nem de ontem, que ninguém sabe  quando apareceram”. É a afirmação da consciência sobre a lei, da cidadania  sobre o Estado.

 Para Sócrates, a ética exige normas constantes e  imutáveis. Não pode ficar na dependência da diversidade de opiniões. Platão  trouxe luzes ensinando-nos a discernir realidade e ilusão.  Em República,  lembra que para Trasímaco a ética de uma sociedade reflete os interesses de  quem ali detém o poder. Conceito retomado por Marx e aplicado à  ideologia.

 O que é o poder? É o direito concedido a um indivíduo  ou conquistado por um partido ou classe social de impor a sua vontade à dos  demais.

  Aristóteles nos arranca do solipsismo ao associar  felicidade e política. Mais tarde, santo Tomás, inspirado em Aristóteles, nos  dará as primícias de uma ética política, priorizando o bem comum e valorizando  a soberania popular e a consciência individual como reduto indevassável.  Maquiavel, na contramão, destituirá a política de toda ética, reduzindo-a ao  mero jogo de poder, onde os fins justificam os meios.

 Kant dirá  que a grandeza do ser humano não reside na técnica, em subjugar a natureza, e  sim na ética, na capacidade de se autodeterminar a partir de sua liberdade. Há  em nós um senso inato do dever e não deixamos de fazer algo por ser pecado, e  sim por ser injusto. E nossa ética individual deve se
complementar pela  ética social, já que não somos um rebanho de indivíduos, mas uma sociedade que  exige, à sua boa convivência, normas e leis e, sobretudo, a cooperação de uns  com os outros.

 Hegel e Marx acentuarão que a nossa liberdade é  sempre condicionada, relacional, pois consiste numa construção de comunhões,  com a natureza e os nossos semelhantes. Porém, a injustiça torna alguns  dessemelhantes.

  Nas águas da ética judaico-cristã, Marx  ressalta a irredutível dignidade de cada ser humano e, portanto, o direito à  igualdade de oportunidades. Em outras palavras, somos tanto mais livres quanto  mais construímos instituições que promovam a felicidade de  todos.

 A filosofia moderna fará uma distinção aparentemente  avançada e que, de fato, abre novo campo de tensão ao frisar que, respeitada a  lei, cada um é dono de seu nariz. A privacidade como reino da liberdade total.  O problema desse enunciado é que desloca a ética da responsabilidade social  (cada um deve preocupar-se com todos) para os direitos individuais (cada um  que cuide de si).

  Essa distinção ameaça a ética de ceder ao  subjetivismo egocêntrico. Tenho direitos, prescritos numa Declaração  Universal, mas e os deveres? Que obrigações tenho para com a sociedade em que  vivo? O que tenho a ver com o faminto, o oprimido e o excluído? Daí a  importância do conceito de cidadania. As pessoas são diferentes e, numa  sociedade desigual, tratadas segundo sua importância na escala social. Já o  cidadão, pobre ou rico, é um ser dotado de direitos invioláveis, e está  sujeito à lei como todos os demais.

 O capitalismo associa  liberdade ao dinheiro, ou seja, ao consumo. A pessoa se sente livre enquanto  satisfaz seus desejos de consumo e, através da técnica e da ciência, domina a  natureza. A visão analítica não se pergunta pelo significado desse consumismo  e pelo sentido desse domínio. E, de repente, a humanidade desperta para os  efeitos nefastos de seu modo de subjugar a natureza: o aquecimento global faz  soar o alarme de um novo dilúvio que, desta vez, não virá pelas águas, e sim  pelo fogo, sem chances de uma nova Arca de Noé.

 A recente  consciência ecológica nos amplia a noção de ethos. A  casa é todo o  Universo. Lembre-se: não falamos de Pluriverso, mas de Universo. Há uma íntima  relação entre todos os seres visíveis e invisíveis, do macro ao micro, das  partículas elementares aos vulcões. Tudo nos diz respeito e toda a natureza  possui a sua racionalidade imanente. Segundo Teilhard de Chardin, o princípio  da ética é o respeito a todo o criado para que desperte suas potencialidades.  Assim, faz sentido falar agora da dimensão holística da  ética.

  O ponto de partida da ética é assinalado por  Sócrates: a polis, a cidade. A vida é sempre processo individual e social. A  ótica neoliberal diz que cada um deve se contentar com o seu mundinho. Mas  fica a pergunta de Walter Benjamin: o que dizer a milhões de vítimas de nosso  egoísmo?



Frei Betto é escritor, autor de “A obra do artista – uma visão  holística do Universo” 
(Ática), entre outros livros.


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