O OLHO ELETRÔNICO DA DIVINDADE MONETÁRIA

 

por Frei Betto

A Grécia antiga orbitava em torno de idéias. O período  medieval, da fé. O moderno, nas possibilidades (que hoje sabemos exageradas)  da razão. Hoje, o paradigma é o mercado. “Consumo, logo existo.” Vive-se para  amealhar renda.

O dinheiro tornou-se mais que símbolo do valor da  mercadoria ou mediador das relações de troca. Impregnado de fetiche, como  observou Marx, é o novo ídolo venerado, solenemente guardado no sacrário do  sistema bancário e em honra do qual são sacrificados valores como a ética, o  respeito às leis e até vidas humanas. Quem o possui sente-se introduzido no  paraíso terrestre. Quem pena para obtê-lo, no purgatório. E quem dele carece,  no inferno, marginalizado pela pobreza e condenado ao rol dos que padecem sob  o peso sísifo das dívidas.

 Não é fácil a família, a escola  e a religião incutirem em crianças e jovens valores éticos numa sociedade que  presta culto ao dinheiro e a quem o ostenta. As instituições que o administram  – bancos e Bolsas de Valores – são catedrais estilizadas, cujas capelas se  espalham pela cidade em rede de agências. Nelas não se ingressa senão possuído  por aquela compunção de penitente rumo ao santuário, na esperança de bênçãos e  curas. A porta é estreita como a de toda senda que conduz à salvação e à  riqueza. Onipresente, o olho eletrônico da divindade monetária vigia cada um  de nossos passos e gestos. Uma vez lá dentro, há que suportar a fila com a  devoção de quem saldará suas dívidas, compensado pelo alívio de quem paga os  pecados, faz oferendas a Mamon ou aguarda o milagre de ser contemplado com  créditos e empréstimos. E o ritual exige, naturalmente, estar em dia com o  dízimo, as taxas dos bancos.

 A mídia exalta quem é bafejado  pelas bênçãos da fortuna. E exclui a turba anônima condenada à pobreza. O que  traz o dinheiro não é apenas o poder mágico de amealhar bens, conforto,  segurança e prestígio. É sobretudo poder, a propriedade de impor a própria  vontade às demais. Gente como Bill Gates, que possui bilhões de dólares  impossíveis de serem usufruídos ainda que ele retornasse por várias  reencarnações, não estocam tamanha fortuna por mera avareza, e sim porque ela  o torna mais poderoso.

A riqueza substitui, hoje, o sangue azul.  Outrora a nobreza ocupava o topo da pirâmide social. Ser monarca era questão  de destino dinástico. Nascia-se nobre. Hoje é o dinheiro que entroniza a  pessoa no poder e, passado de geração em geração, assegura a linhagem nobre.  Basta uma oscilação da Bolsa para derrubar reis e coroar plebeus. Qualquer  arrivista sem caráter pode brilhar na sociedade desde que possua muito  dinheiro. “O dinheiro é o nervo da vida numa República e aqueles que amam o  dinheiro constituem os alicerces mesmo da própria República", já dizia Poggio  Bracciolini em 1428 ("Da avareza e do luxo").

 Esse  paradigma do mercado, associado à apropriação privada da riqueza, faz com que  se fale tanto de negócios. Esquece-se que o vocábulo tem o sufixo ócio, como a  indicar não ser sadio cuidar de negócios sem jamais reservar tempo ao convívio  familiar, ao lazer, ao entretenimento, às amizades, ao aprimoramento da vida  espiritual.

 Sábios, nossos avós consultavam a Bíblia ao  iniciar o dia. Seus filhos, o serviço de meteorologia. Hoje, consultam-se os  índices do mercado financeiro. A saúde pessoal parece depender mais das  aplicações rentáveis que da disposição física, mental e espiritual. E a  relação com o dinheiro delimita o convívio social: quem o tem cerca-se de seus  pares e afasta-se de quem o perdeu ou nunca o possuiu. Falir é perder  prestigio e amizades. Estar endividado é, a olhos alheios, ter contraído uma  moléstia contagiosa.

Como dizia o professor Milton Santos, não  há futuro benéfico para uma sociedade que troca os bens infinitos pelos  finitos. Como ensinar em casa, às novas gerações, valores que não sejam  aqueles alardeados pelos operadores dos valores regidos pela Bolsa? 

 

Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Paulo Freire  e Ricardo Kotscho, 
de “Essa escola chamada vida” (Ática), entre outros livros.  


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