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por
Frei Betto
Faz
muito anos, um chargista da “Última Hora” de São Paulo
trocou o rosto de Nossa Senhora Aparecida pelo de Pelé, mantendo
o corpo da imagem. Foi um Deus-nos-acuda. Por pouco os fiéis não
empastelaram o jornal. Recentemente, um pastor evangélico chutou na TV
a imagem da padroeira do Brasil. Deu no que deu.
Estamos todos horrorizados perante os violentos
protestos dos muçulmanos à publicação de charges de Maomé. Será
que nós ocidentais, mergulhados numa cultura tão secularizada,
temos noção do que significa ridicularizar ícones sagrados?
Contou-me um missionário que atua entre indígenas
que, no início do século XX, um padre destinado a catequizar uma
aldeia do Xingu ficou indignado ao constatar que o ritual
religioso centrava-se numa flauta tocada pelo xamã, cuja música
estabelecia a conexão com o transcendente. Trancadas nas malocas,
mulheres e crianças eram proibidas de assistir à cerimônia.
Escoltado por soldados, o missionário trouxe a
flauta para o centro da aldeia, fez vir mulheres e crianças,
quebrou o instrumento musical rechaçado como idolátrico e pregou
a presença de Jesus na hóstia consagrada.
O que impedia aquela comunidade indígena de
vingar-se entrando numa catedral, abrindo o sacrário e rasgando as
hóstias? A força militar. Só isso. É o que permite ao
Ocidente, do alto de sua arrogância, acreditar que somos mais
cultos que a gente do Oriente. Eles, os fundamentalistas; nós,
filhos do Iluminismo, os esclarecidos.
Quanta ignorância de nossa parte! Ou preconceito, o que dá
no mesmo. O que seria da álgebra sem al-Kuarizmi, e a filosofia
sem os comentários de Avicena e, em especial, de Averróis “desplatonizando”
Aristóteles? O que seria do Ocidente sem a lógica e a ética, a
matemática e a epistemologia derivadas de sábios chineses e indianos,
sumérios e egípcios? Se o Oriente fosse tão pouco lógico, como
tenta impingir-nos a pretensão eurocêntrica, os chineses não
teriam inventado a bússola e o timão, o cultivo em fileiras e o
alto-forno, a pólvora e o estribo, o mastro múltiplo e o
carrinho de mão, o papel e a imprensa (centenas de anos antes de
Gutenberg).
Nós, ocidentais, dessacralizamos o mundo ou, como
prefere Max Weber, o desencantamos. A ponto de se decretar “a
morte de Deus”. Se abraçamos paradigmas tão cartesianos,
felizmente em crise, isso não é motivo para “quebrar a
flauta” dos povos que levam a sério suas raízes religiosas. Aliás,
o fundamentalismo religioso é encontrado também entre a direita
cristã dos EUA, incluindo Bush, e os ultranacionalistas que
defendem a expansão do Estado de Israel às custas da anexação
de territórios palestinos.
Erra o Oriente por ignorar a conquista moderna de
laicidade da política e da autonomia recíproca entre religião e
Estado. Erra o Ocidente por “sacralizar” a economia
capitalista e desdenhar as tradições religiosas, ao pretender
confiná-las nos templos e na vida privada.
Os orientais se equivocam por confessionalizar a política,
como se as pessoas se dividissem entre crentes e não-crentes (ou
adeptos da minha fé e os demais). Ora, o marco divisor da população
mundial é a injustiça que segrega 4 dos 6 bilhões de habitantes. Por
sua vez, os ocidentais cometem grave erro ao pretender impor a
todos os povos, pela força e pelo dinheiro, seu paradigma
civilizatório fundado no consumismo e no direito de apropriação
privada da riqueza em detrimento das condições de vida dos não-proprietários.
Não mais existem ateus. Existem, sim, aqueles que não
crêem no Deus da minha fé. Mas são piedosos devotos do mercado
“livre”, do sagrado direito à propriedade privada, da
supremacia do modelo ocidental de democracia (desde que Chávez e o
Hamas não resultem das urnas, e que não se queira impô-lo aos
países árabes fornecedores de petróleo aos EUA…).
Há qualquer coisa de podre no Reino da Dinamarca
quando a mídia satiriza valores religiosos de outros povos e
culturas. É fácil falar em “liberdade de opinião” quando
quebro a flauta protegido pela força frente ao objeto de minha sátira.
Que liberdade possui a panela de barro frente à de ferro?, indaga
o autor bíblico.
A reação violenta dos injuriados se explica, mas não
se justifica. Se partilhar a mesma fé fosse fator de unidade
entre povos, não haveria tantas divisões no interior das tradições
judaica, cristã e islâmica. A hegemonia católica na Idade Média
já provou que a fé não move montanhas. Só o amor, centrado na
prática da justiça - essa capacidade de aceitar o outro em
sua dignidade e diferença -, fará de todos nós uma única família
humana.
Frei
Betto é escritor, autor de “Típicos Tipos
– perfis literários” (A Girafa), entre outros livros.
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