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por
Frei Betto
Em 1911, um arqueólogo
estadunidense, Hiram Bingham, aos 36 anos,
descobriu Machu Picchu, santuário inca situado no alto Amazonas
peruano. Há dias, ali estive. Não há nenhuma outra
relíquia da Ameríndia que se possa comparar à suntuosa
beleza daquele lugar colado ao céu.
O império inca durou dois séculos (1300-1532), liderado
por uma dinastia
de doze incas, palavra que significa rei ou imperador, todos venerados
por seus súditos como filhos do deus Sol.
Os conquistadores espanhóis, embora numericamente inferiores,
lograram destruir, no século XVI, uma das mais sofisticadas civilizações
indígenas. Movidos pela cobiça de ouro e prata, que para
os incas só tinham valor ornamental, e por uma ótica religiosa
que encarava todas as crenças não-católicas como
idólatras, os sequazes de Pizarro exterminaram os incas. Assegurou-lhes
a vitória a superioridade das armas, como arcabuzes e canhões,
e as dissensões internas de um reino dividido entre dois irmãos,
Atahualpa e Huáscar. Tivessem os espanhóis chegado em
1450, a história seria outra.
Maravilhados com o esplendor de Cuzco, capital do império inca,
a mais populosa cidade da Ameríndia, os conquistadores entrevistaram
os sobreviventes do holocausto indígena (que sacrificou em todo
o Continente, apenas no primeiro século após o desembarque
de Colombo, cerca de 25 milhões de nativos). Nem os velhos com
mais de 90 anos fizeram qualquer menção a Machu Picchu.
Supõe-se que apenas um seleto grupo da nobreza inca tivesse conhecimento
da existência da cidade sagrada, toda em granito, madeira e fibras
vegetais, erguida a 2.350 metros de altitude, no ápice de um
conjunto de íngremes montanhas de extraordinária exuberância,
a mais inacessível região dos Andes. Possivelmente edificada
em meados do século XV para servir de refúgio à
nobreza inca, ameaçada por tribos amazônicas, Machu Picchu
abrigava nobres, cientistas (astrônomos, botânicos, médicos
etc.), sacerdotes e virgens consagradas ao Sol. Ali viveu, com certeza,
Tupac Amaru, o último imperador inca, assassinado pelos espanhóis
em 1572.
Em todo o reino, que se estendia do Equador ao Chile, as mais belas
meninas de 8 e 9 anos eram enclausuradas em caráter perpétuo,
dedicadas a confeccionar vestuários e utensílios domésticos.
Algumas, após os 16 anos desposavam nobres ou eram somadas às
concubinas do imperador. Outras, sacrificadas ao deus Sol em cerimônias
religiosas. Um terceiro grupo permanecia a vida toda segregado do convívio
social. É possível que Machu Picchu tenha sido, predominantemente,
um santuário de virgens; não tendo elas gerado descendentes,
sonegou aos séculos vindouros a memória de sua existência.
Impressiona na cidade-santuário a perfeita harmonia entre a obra
humana e a natureza. Os incas consideravam os acidentes geográficos
entidades vivas e tinham agudo senso de equilíbrio ecológico.
Possuíam avançados conhecimentos astronômicos, comprovados
pela localização e arquitetura dos templos de Machu Picchu,
cujas janelas marcam com precisão as mudanças de estações.
A agricultura se fazia em terraços simétricos à
encosta das montanhas e, por ali, ainda hoje são encontradas
lhamas, animais usados
para o transporte de cargas e que fornecem fios e couro.
Entre os documentos que nos atestam a história do império
inca destaca-se os Comentários reais, de Garcilaso de
la Veja (1539-1616), filho de um capitão espanhol e de uma princesa
inca. Nascido em Cuzco, deixou-nos uma curiosa condensação
dos relatos ouvidos e colhidos sobre a saga inca. E Hiram Bingham escreveu
A cidade perdida dos incas, onde relata como a descobriu Machu
Picchu.
O acesso à cidade só é possível a pé,
pela trilha dos incas (quatro dias de caminhada de Cuzco até
lá) ou por ferrovia, controlada pela Perurail, sob controle dos
ingleses durante 40 anos. A viagem de trem, morosa, leva quatro horas,
isso se os passageiros tiverem mais sorte do que eu e não encontrarem
pela frente um piquete de peruanos que, em protesto contra a concessão
aos ingleses, exigem o direito de também explorarem vias
alternativas, como a abertura de rodovia através dos desfiladeiros
andinos.
Se um dia existiu a utopia evocada por Thomas Morus, Campanella e Marx,
de uma sociedade em que todos tinham seus direitos plenamente assegurados,
sem dúvida foi em Machu Picchu. Ali se trabalhava para o proveito
comum, sem que houvesse salário e pobreza. E quando os incas
miravam o esplendor daquelas majestosas montanhas, com suas íngremes
encostas e profundos desfiladeiros, enxergavam mais do que beleza
natural. Viam ali a Pacha Mama, a Mãe Terra, de cujo seio extraíam
vida e a quem prestavam culto.
Frei Betto é escritor,
autor de
Sinfonia Universal a cosmovisão de
Teilhard de Chardin (Ática), entre outros livros.
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