Por uma TV como veículo de inclusão cultural e social (1ª parte)

 

 

*Cláudio Damião Santos Pereira

 

      

Certamente será mais fácil encontrar em uma casa pobre, em qualquer recanto deste nosso país, um aparelho de TV do que, por exemplo, uma geladeira ou uma máquina de lavar roupas. O que significa dizer que a TV talvez seja um dos poucos meios de entretenimento de boa parcela de nossa população e, por conseguinte, um dos principais veículos de informação - ou de deformação da informação, a depender do ângulo pelo qual se examina a questão da programação e seu conteúdo - de nosso povo. Espaço disputado apenas com o rádio, outro importante veículo de comunicação de massa e, de certa maneira, mais interativo que a TV.

Segundo uma pesquisa realizada em 2002, pelo Instituto de Pesquisas em Comunicação, a TV está presente em 87,7% dos domicílios; 88% dos brasileiros ouvem rádio todos os dias; 39% não lêem revistas ou só têm acesso a elas menos de uma vez por trimestre; 48% não lêem jornal ou só têm acesso ao veículo menos de uma vez por semana; 81% da população assiste à TV todos os dias e perdem 3,5 horas em média em frente ao aparelho.

Em alguns casos podemos considerar que há um processo de lobotomia que tira o poder de análise de parte dos que assistem à TV. Por falta de outros veículos em que possam formar opinião, a única fonte de informação torna-se, aos olhos desta parcela do público, verdade absoluta. Portanto, informação, ou a deformação da informação, transforma-se em fonte de poder para quem a detêm.

Não é a toa que apenas seis redes privadas nacionais, através de 138 grupos afiliados, controlam 668 veículos, entre rádios, TVs e jornais, que são instrumentos de poder regional e nacional. Também não é a toa que boa parte das concessões de rádios e TVs estão nas mãos de famílias poderosas, de oligarquias políticas e, agora também, religiosas.

É neste complexo cenário, onde não há clareza legal, ou seja, não há ainda limites estabelecidos na lei, que se pretende instalar no Brasil a TV digital.

O tema, por maior magnitude que tenha, não veio a furo nos meios de comunicação de massa. Não há debate sobre que tipo de TV o público quer. Não há, por exemplo, discussão com a opinião pública acerca dos mecanismos de interatividade que possam ser utilizados. Diferente do rádio, onde o ouvinte pode ligar, escolher uma música e, em alguns casos, dar a sua opinião, principalmente em rádios do interior, coisa que a TV não permite. Quando muito, estimula a participação do público para responder a perguntas imbecis que não agregam nenhuma cultura ou informação. No Big Brother, para citar um exemplo do que os meios de comunicação chamam de “interatividade”, esta “interatividade” torna-se fonte de renda para a emissora e a empresa de telefonia, que cobra do cidadão incauto que telefona para participar da inútil escolha de quem irá para o paredão.

Poderíamos estar discutindo interativamente, por exemplo, que tipo de programação queremos. Que programas gostaríamos que fossem produzidos para as crianças, principais vítimas do mal gosto reinante, presas fáceis para o consumismo e o modismo estabelecidos  nas programações que não agregam conceitos sociais, culturais, de informação e de entretenimento sadio, na maioria dos casos.

Poderíamos, de fato, estar discutindo a criação de novos canais. De um modelo que permita verdadeiramente a democratização da comunicação, ampliando o espectro para outros atores sociais. O espectro é a faixa que cada canal de TV ocupa. Com a nova tecnologia, a TV digital, este espaço de programação poderá ser divido e transmitir até quatro programações diferentes, ou seja, cada canal desdobraria-se em quatro novos canais. Seria a hora e a vez das TVs Comunitárias, Universitárias etc..., oferecendo ao público uma gama muito maior de opções e quebrando a hegemonia e o monopólio instalados no setor.

 

 

*Presidente do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo

E-mail: claudiodamiao@pop.com.br

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Publicado no A Voz da Serra 13.04.06