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 por Frei Betto

A 15 de outubro a Igreja Católica celebra  a  festa de Santa Teresa de Ávila. Passei a última semana de setembro  nesta  cidade espanhola do século VI, ocupada pelos árabes no século  VIII. Participei  de um congresso que debateu, entre outros temas, a  atualidade de Bartolomeu de  las Casas, frade dominicano que, no século  XVI, defendeu heroicamente, na  América Central, a liberdade e a  dignidade dos povos  indígenas.

Ávila é cercada por muralhas construídas  no  século XI. Com 2,5 km de extensão e 88 torres, são as mais belas de toda a   Espanha. Devido ao clima seco e ameno, no verão para ali se  transferiam os  reis católicos Fernando e Isabel. Hospedavam-se com os  frades dominicanos,  cujo convento ganhou o pomposo nome de Real  Mosteiro de Santo Tomás. Ali viveu  Torquemada, cérebro tenebroso da  Inquisição, e dali saíram Antônio de  Montesinos e Pedro de Córdoba, os  primeiros missionários que, na América, se  opuseram à opressão dos  indígenas por parte dos colonizadores.  

Quando a visitei na década de 1980, Ávila era ainda   uma cidade confinada às suas majestosas muralhas. Agora que a Espanha  dispara  como o país de maior crescimento na Comunidade Européia, a  malha de  edificações se estende pelos campos áridos que outrora  abrigavam oliveiras,  ampliando a população para cerca de 50 mil  habitantes.

A principal fonte de renda do município  é o turismo,  fomentado pelas construções medievais, as igrejas em  estilo românico, e a  peculiar culinária. Também atrai – em menor  número – turistas e peregrinos o  fato de ali terem vivido, no século  XVI, os mais destacados místicos da  história da Igreja: Teresa de  Jesus e João da Cruz, patrono dos poetas  espanhóis. Revisitei o  Convento da Encarnação, onde ela viveu 30 anos; o  Convento de São  José, sua primeira fundação; e a casa em que nasceu, hoje  transformada  em museu. Nos carmelos, a idade média das monjas é de 25 anos.  Aos 35  anos, uma das mais renomadas atrizes croatas acaba de tomar o hábito de   monja carmelita em São José.

Doutora da Igreja, Teresa exerce fascínio mundo  afora.  Sei de psicanalistas, filósofos e cientistas, gente atéia ou  agnóstica, que  nutre por ela inexplicável admiração. O que teve essa  mulher de tão  especial?

Teresa situa-se na raiz da modernidade.  Assim  como Copérnico superou a cosmologia de Ptolomeu e colocou a Terra em seu   devido lugar, Teresa arrancou Deus dos céus medievais, onde andava  aprisionado  pelo pietismo penitencial, e centrou-O no coração humano.   

Michelangelo, outra figura ímpar do  século XVI,  ilustrou o teto da Capela Sistina, no Vaticano, com a  figura de Javé recoberta  de mantos e barba, contrastando com o homem  nu, magneticamente atraído em  direção à Terra. O Criador estende o  dedo indicador à criatura, e esta  responde, como que simbolizando que  a nova época, moderna, embora  antropocêntrica, e não teocêntrica como  a anterior, não quer perder o vínculo  entre a Terra e o céu, a  humanidade e Deus.

Teresa subverteu a espiritualidade cristã. Feminista   avant la lettre, livrou a mística de seu racionalismo teológico  e  trouxe-a da razão ao coração. Nela o contemplar se faz gozar, como  bem o  expressa Bernini na escultura a ela dedicada e, hoje, exposta em  Roma. A  espiritualidade centrada na dor cedeu lugar ao amor; a culpa,  à amizade; a  penitência, ao êxtase; os mandamentos, às   bem-aventuranças.

Teresa se destaca também pelo vigor e talento   literários. Nenhuma mulher, até então, havia escrito como ela,  escancarando a  subjetividade e narrando, sem pudor e com muita  propriedade, as sucessivas  etapas de sua união amorosa com  Deus.

João da Cruz, discípulo dela, nasceu em  Fontiveros, na  região de Ávila, e viveu nesta cidade dois anos,  embebendo-se da  espiritualidade de Teresa. Ele é mais “anima”; ela,  “animus”. Seu talento  poético transparece inclusive em suas  narrativas.

Almocei com o bispo de Ávila.  Explicou-me que muitas  atividades – estudos místicos, retiros,  conferências – se promovem na cidade  para quem busca dessedentar-se na  espiritualidade teresiana. Mas admitiu não  haver nenhum programa  pastoral, em larga escala, voltado a jovens e  intelectuais. Propus-lhe  organizar, a cada ano, uma semana de Jornadas  Teresianas, combinando  eventos destinados aos jovens a debates, filmes, peças  de teatro, e  reunir artistas, humanistas e cientistas apaixonados por Teresa,  como  é o caso do romancista Deonísio da Silva, que lhe dedicou o romance   “Teresa”, levado ao palco.

Teresa salvou-me a fé. Graças à leitura meditada de   suas obras, em especial “Vida” e “Castelo Interior” ou “Moradas”, em  1965  descobri o que significa a relação Pessoa a pessoa. Desde então  Deus tornou-se  a minha paixão.


Frei Betto é escritor, autor, em parceria com  Leonardo  Boff, de “Mística e Espiritualidade” (Garamond), entre outros  livros.  


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