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A ARTE DA DISSIMULAÇÃO |
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*Cláudio Damião Santos Pereira
"Mentiram-me ontem/e hoje mentem novamente. Mentem de corpo e alma, completamente. E mentem de maneira tão pungente que acho que mentem sinceramente(...)" (Affonso Romano de Sant’Anna)
No jogo da dissimulação há momentos em que a mentira ganha contornos de verdade. Floreada, lapidada, burilada com tintas coloridas, engana e confunde aos que estão menos atentos aos fatos. É a sutil arte da enganação. Uma meia verdade encobre uma verdade inteira ou esconde uma meia mentira? Ou uma meia verdade é um truque para se esconder uma mentira inteira e transformá-la numa verdade artificial? Uma meia verdade ou uma mentira inteira apresentada como fato real tem como objetivo transformar a realidade. Substitui-se assim a atual realidade por outra mais "favorável". É o jogo de cena, de esconde-esconde, de deformação dos fatos. No início do ano passado, em razão da decisão que determinou a redução do número de vereadores nas Câmaras em todo o país, (em Nova Friburgo de 19 para 12) eu ingressei com uma Ação Popular propondo a redução do repasse de verbas para a nossa Câmara na proporção da redução do número de vereadores (a Ação está tramitando). Fiz isso porque os atuais vereadores não tomaram tal iniciativa. A legislatura anterior, com 19 vereadores, recebeu R$4,8 milhões em 2004. A atual, mesmo com a redução de 7 vereadores, recebeu R$5,5 milhões em 2005. Ou seja, um abuso com o dinheiro público. Poderia ser economizado cerca de R$2 milhões seguindo-se apenas a regra da proporcionalidade: menos vereador, igual a menor custo. Mas, qual nada! Com dinheiro sobrando os atuais vereadores contrataram mais um assessor, aumentando as despesas da Câmara e, em vários casos, aumentando a renda familiar. Nos quadros de assessores estão maridos, esposas, filhos, irmãos, etc... ou seja, o nepotismo como meio de vida. Eles poderão até alegar que isso não seja ilegal, mas será difícil convencer a opinião pública de que não seja algo imoral. O atual presidente da Câmara no final do ano passado, em clima de festa, (de sessão extra e de jeton) fez a devolução de cerca de R$600 mil à prefeitura e afirmou: "com o apoio de todos os vereadores, que entenderam a necessidade de cortar na própria carne (...)" "(...) fizemos uma administração austera (...)". Diz ainda que houve uma redução nos gastos em torno de R$1.6 milhão e de 48% com gasolina. Fez tanto barulho e ao final devolveu apenas R$600 mil. Eis o jogo da dissimulação, da meia verdade. É como mostrar o bife para esconder o boi. Apresenta-se a meia verdade ou a verdade que interessa, enquanto dá-se um jeito de esconder, escamotear outros fatos mais importantes (o boi). O presidente da Câmara não fala, por exemplo, o que será feito dos R$1,6 milhão economizado. Não fala do aumento de custo com a máquina administrativa com a contratação de mais assessores. Pior, não propõe uma ação de moralidade pública pondo fim ao nepotismo. E, principalmente, não fala que o orçamento da Câmara para 2006 recebeu um acréscimo de R$500 mil em relação ao ano passado. Ou seja, os R$600 mil que foram entregues com fogos e pompa em sessão solene, retornam silenciosamente aos cofres da Câmara através do aumento do repasse da Prefeitura, que pulou de R$5,5 milhões para R$6 milhões. E o mais estranho é que os vereadores calam-se: cúmplices da mentira, do enredo ensaiado, do desrespeito a inteligência da opinião pública.
*Presidente do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo E-mail: claudiodamiao@pop.com.br |