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por
Eduardo
Bassin*
O
automóvel sempre mexeu com a cabeça do homem. O brasileiro é um
apaixonado contumaz por este verdadeiro objeto de desejo e veneração.
Mais apaixonado por carros do que o brasileiro, somente o alemão. A
grande diferença é que os germânicos têm um padrão de renda muito
superior ao nosso.
Vejo a paixão por automóveis como algo positivo. Além de gerarmos
bem-estar próprio, estimulamos o crescimento econômico via demanda por
aqueles bens. A grande questão é que um bom planejamento financeiro
pessoal deve ser levado em consideração antes da aquisição do referido
bem, sob o risco de realização de um prejuízo muito grande se todas as
obrigações que um carro envolvem não couberem no orçamento do
comprador.
A prática mostra que é comum as pessoas adquirirem um automóvel e verem
seu padrão de vida declinar logo que vencem as primeiras parcelas do
financiamento.
Grande parte dos compradores de automóveis não comporta o pagamento das
prestações de forma planejada, veja: Atualmente 70% dos carros vendidos
estão na categoria dos populares e mais da metade da frota é adquirida
através de financiamentos muito extensos, que em sua maioria não
comporta o pagamento sem que o nível de vida seja afetado. Quando falo em
nível de consumo não considero bens supérfluos, mas apenas os gastos
correntes de primeira necessidade (alimentação,saúde,educação,transporte
e moradia). Eu já realizei análises financeiras onde a prestação do
carro novo do cliente consumia nada menos que 40% de toda a renda da família.
Este gasto foi feito sem planejamento e outros aspectos ficaram seriamente
comprometidos, dentre eles o pagamento da casa própria. É como dizia uma
propaganda de um revendedor de combustíveis: “movidos pela paixão”.
Quando o cliente viu que minha orientação contemplava a venda do carro,
a decepção foi nítida.
Dificilmente as pessoas fazem um planejamento financeiro antes de tomar a
decisão de adquirir um automóvel. Se assim o fosse, a prestação do
carro não ultrapassaria 15% da renda líquida. Este é um percentual
seguro para uma família com dois filhos. Ao comprar um carro financiado considerando
o percentual citado, a estrutura da família dificilmente
será abalada e a manutenção do padrão de consumo de itens de primeira
necessidade não seria afetada, além de haver recursos suficientes para a
constituição de poupança.
A busca pelo status é um grande propulsor da falta de razão e excesso de
emoção que envolvem o potencial comprador. As pessoas tendem a adquirir
um carro “um degrau” acima das suas condições. É o famoso “quem
pode pagar 10 pode pagar 12”. O livro “The millionaire next door”
(algo como: ”O milionário mora ao lado”) mostra que as pessoas que
realmente dispõem de altas quantias adquirem bons automóveis, não os
mais caros. Isso os faz “miseráveis unhas de fome”? Certamente não.
Não defendo que as pessoas deixem de comprar os carros dos quais gostam.
A questão é que o carro precisa caber no orçamento. É bom lembrar que
as despesas com o carro não se resumem às prestações. Há que se
computar o valor do seguro. Nesta lista também deve constar o
emplacamento, a depreciação devido tanto ao desgaste quanto a obsolescência,
IPVA, garagem, estacionamento, manutenção, troca de óleo, pedágios,
combustível, multas de trânsito e outros imprevistos. Não estaremos
exagerando se adicionarmos o custo de oportunidade de possuir o bem. Este
custo não é relevante para as pessoas mais abastadas, mas o é para a
maioria.
O custo de oportunidade é o custo que temos em possuir o carro e não
possuir outro bem ou um ativo. Por exemplo: quanto uma pessoa ganharia se
em vez de comprar o carro aplicasse o valor em alguma modalidade oferecida
pelo mercado financeiro ou de capitais? Apenas para ilustrar, quem deixou
de comprar um carro de R$30.000,00 há 12 meses e aplicou em fundo de ações
da Petrobrás teria hoje R$46.387,50. Acha pouco? Então some o valor do
seguro, que varia de 4% a 15% dependendo do perfil do motorista, IPVA,e
emplacamento. O valor subirá para R$52.881,75.
Não defendo que uma pessoa deva utilizar apenas o transporte público ou
andar a pé quando se pode ter um carro. Definitivamente, não. O que se
faz necessário é realizar alguns cálculos para verificar se o
pretendido carro não causará transtornos, levando o feliz proprietário
a ter que vender o bem alguns meses após a sua aquisição, o que, além
da frustração, acarretará prejuízo financeiro.
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Eduardo Bassin é economista,
pós graduado em marketing e consultor em finanças pessoais.
www.bassin.com.br
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