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O governo Lula na América Latina: construir a democracia e governar a interdependência (1) |
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por
Antonio
Negri e Giuseppe Cocco
Na
Europa e nos Estados Unidos, nos meios "anti-mondialização"
e da intelectualidade de esquerda, essas mudanças decisivas que
caracterizam a América Latina são apreendidas de maneira insuficiente.
Dogamatismos e sectarismos da tradição socialista e comunista,
residuos teóricos terceiro-mundistas, bloqueiam um debate adequado e,
portanto, o apoio a essa renovação estratégica da ação do
contra-Império. Da
política nacional para o governo da interdependência O
espaço continental sul americano é atravessado por uma crise profunda,
articulada com vários momentos de ruptura e com diversos modelos de
desenvolvimento. A originalidade da situação está no fato de que os
momentos de ruptura bem como os modelos de desenvolvimento constituem,
no caso dos primeiros, um dispositivo de tendência e, no que diz
respeito aos segundos, um terreno de discussão e de escolha que se
configuram em termos absolutamente originais. O modelo cubano, ou seja,
a tentativa de fechar as diferenças do movimento e os projetos
revolucionários dentro de um esquema ideológico parece entregue ao
passado. Vejamos bem: isso vale também para a direita. Os projetos
populistas-fascistas-autoritários, incorporados pelas instituições pró-yankees
e neoliberais, constituem, na América Latina de hoje, uma exceção.
Trinta anos depois da repressão chilena, a exceção não é mais
Allende, mas Uribe, o fantoche norteamericano.
Para
confirmar o elemento novo desta tendência, basta olhar para o que
aconteceu com as políticas neoliberais que se impuseram ao longo dos
anos 1980 e 1990. As políticas neo-liberais não foram capazes de ir além
de uma função negativa, destruidora (mas nem tanto) dos velhos pactos
corporativos e biopolíticos sul americanos. A inteligência de algumas
propostas era tão demasiadamente subordinada a uma idéia de equilibro
econômico voltado para a construção coerente do Império central, que
acabou conseguindo ser tão inaceitável quanto as velhas hipóteses da
ortodoxia revolucionária. A
novidade da vida política sul americana é ser atravessada pela diferença,
ser plural de aspirações e de experimentações radicalmente democráticas.
O tema da construção da democracia foi completamente subtraído às
ideologias passadas do socialismo ortodoxo e das mãos da embaixadas
norte-americanas. Hic
Rhodus, hic salta. Aqui
se coloca um primeiro problema: qual é o terreno de recomposição
dessa diversidade ? Qual é o ponto em torno do qual podem se unificar
– mantendo seu caráter de experiências enraizadas nos territórios e
portanto, na diversidade – as forças da transformação ? Agora, a
dinâmica brasileira mostra que, no âmbito continental, o primeiro
terreno sobre o qual a recomposição pode acontecer é o do pragmatismo
do governo da interdependência global. Foi um grande mérito do
governo Lula o de ter concentrado ao redor deste tema as forças para a
reconstrução de uma política continental que permitisse a renovação
das estruturas sociais e produtivas. O
movimento do qual falamos atravessou, de uma maneira ou de outra, a
geografia inteira da América Latina, constituindo um espaço
continental novo dentro do processo global de reorganização imperial
do mundo. Um novo sujeito nasceu: todo o mundo o viu na crise argentina
e a partir da eleição de Lula. Apesar disso, ninguém esperava que
esse momento de crise fosse interpretado e controlado de modo
completamente novo, original e constitutivo por parte dos governos do
Cone Sul. Por meio da assunção da interdependência (dentro das práticas
e dinâmicas de governo) foi proposto um salto revolucionário na relação
entre terceiro mundo (nesse caso a América Latina) e o governo político
econômico da mundialização. Vejamos
quais são os pontos sobre os quais as inovações econômica, social e
política são pensadas e acionadas.
a. Nos países da América
Latina, como de resto em qualquer país do terceiro mundo, há uma situação
que permite a um tipo de anti-modernidade se afirmar em formas
que a pós-modernidade pode acolher como prospectivas eficazes; pois
bem, esse é o tema da libertação dos escravos e dos servos. Aqui
temos uma outra tensão que podemos definir cosmopolítica: ela
atravessa o mundo onde vivemos e indica a necessidade de libertar todos
os que o biopoder esmaga em sua cadeia de comando.
b. O bloqueio da democracia na América Latina sempre foi
constituído em cima das hierarquias e das práticas ferozes do
biopoder. Tratava-se de quebrá-las. Tratava-se de fazer da mestiçagem
– indígena ou negra e posteriormente entre imigrantes de diversas
origens – uma chave, não de sujeição, mas de liberdade.
c. Precisamos parar de propor como modelo de recomposição da
ordem política, ainda que na perspectiva da liberdade, o modelo europeu
de democracia. Temos que parar de propor como novas formas de organização
e transformação as velhas tipologias da representação, dos partidos
e também da revolução. Aqui, na América Latina, é inútil procurar
o Estado moderno: o "Estado" fraco (inserido dentro dos
mecanismos coloniais) nunca chegou a ser uma realidade efetiva, sempre
foi o instrumento de exploração das elites, enraizadas nas
práticas do racismo e da exclusão. Agora, se não existe nenhum
"palácio de inverno" a ser conquistado, há uma estrutura do
biopoder (plantada no sangue e na vida de cada cidadão da América
Latina) que precisa ser
destruída. O "palácio de inverno" é a própria estrutura
racial do biopoder.
d. Por isso, a resistência só pode se dar no plano biopolítico.
E a democracia só pode se constituir sobre uma prática política que
atravesse a mestiçagem e, pois, as relações de poder e de
riqueza/pobreza que se encontram nos corpos e nas consciências dos
sujeitos. Em outras palavras, a democracia só pode nascer, na América
Latina, da libertação que a multidão, trabalhando contra o capital, determinará
sobre e por meio dela mesma. Das
lutas ao programa: o trabalho da multidão é o fato novo Se
o modelo europeu não pode ser pensado como o paradigma da democracia e
da gestão de um poder democrático, poderá menos ainda funcionar como
base da resistência. A situação se torna ainda mais grave à medida
que compreendemos, justamente na base das velhas teorias socialistas,
que essa obsolescência e esgotamento das formas organizacionais do
capital (Estado) e do movimento de resistência (partido e hegemonia da
classe operária) juntam-se à obsolescência da relação salarial
enquanto relação fundamental da organização do trabalho e da exploração
e àquela da dependência enquanto trâmite da relação imperialista
entre Estados, capital central e sociedades do terceiro mundo. Pensar
a esquerda – uma nova esquerda – pensar a democracia, só pode se
efetivar a partir dessas constatações. Ou seja, do ponto de vista de
classe, precisamos repensar a relação de exploração como algo que
mexe diretamente com a multidão. Com certeza, a multidão se apresenta
como força produtiva, o seu conceito integra (e não exclui) o conceito
de classe operária mas, para construir uma nova esquerda, precisamos
nos colocar para além da relação de capital nacional e, igualmente,
para além da relação de dependência: trata-se de mobilizar-se na
interdependência das relações sociais e políticas no nível global.
Só quando insistimos nesses dois elementos (multidão e interdependência)
que uma nova esquerda, portadora e organizadora de poder constituinte,
pode acontecer. Isso
nos coloca diante de um monte de problemas. Um dos mais importantes é o
da luta para a independência do Cone Sul em face da dominação yankee.
Os governos democráticos da América Latina tiveram, efetivamente, avanços
nesse terreno. Mas, o espaço latino-americano de construção de uma
base política autônoma não consegue ultrapassar os impasses da
construção institucional do Mercosul e abrir-se a uma teoria e a uma
prática da autonomia dos movimentos. Isso porque essa linha de
desenvolvimento foi desenhada a partir de cima. Como é possível
se apropriar, desde baixo, desse terreno constituinte e dessas
finalidades revolucionárias, procedendo não apenas no sentido da
constituição de um mercado único sul-americano, mas definindo sua
realidade no sentido de uma expansão dos direitos sobre a renda e o
saber, de uma apropriação multitudinária dos modos de vida e de
administração do desenvolvimento? Como é possível desempenhar essa
tarefa em termos não apenas nacionais e tampouco continentais, mas
construindo modelos que possam ser vivenciados
e integrados nas práticas das multidões exploradas? Aqui
abre-se toda uma nova série de problemas. Eles têm a ver com a
necessidade de conceber a relação entre movimentos e governo como
um processo contínuo de negociação
e ruptura. Construir
democracia significa, pois, aprofundar uma proposta de comunismo
que se torne imediatamente efetiva. Trata-se,
portanto, de agir desde baixo, fazendo experimentações contínuas, sem
nos tornarmos prisioneiros de fórmulas generosas mas não efetivas
(como a da "democracia participativa"). As cidades, os municípios,
constituem, certamente, terrenos de experimentação desse processo. Com
efeito, é nesses níveis que a convergência das forças ao redor de
valores comuns (transportes, dimensões ecológicas do viver, segurança,
problemas urbanos etc.) não apenas se torna eficaz, mas experimenta
novas formas de governança coletiva, ou seja, multitudinária. Um
segundo terreno essencial é o da organização do trabalho das metrópoles.
50% do trabalho metropolitano é informal, a metrópole tornou-se o espaço
de um trabalho discriminado que deveria ser reconhecido, que deveria ser
remunerado como trabalho social. A renda de cidadania não é
apenas, desse ponto de vista, uma medida da distribuição do valor
acumulado socialmente. Ela é também a condição de renovação do
saber viver em comum, a base de uma expressão democrática (por isso
mesmo, produtiva). Com
isso chegamos ao nó fundamental, o da construção de um "direito
comum", que possa ir além dos direitos privado e público
(formas diversas da gestão do capital coletivo). Falar de direito comum
significa abrir e recompor o espaço de ação das forças singulares da
multidão em subjetividade política. O comum não é algo já dado, é
algo que encontramos ao mesmo tempo que nos apropriamos dele e o
reinventamos. As lutas no
global, pela re-apropriação dos espaços telemáticos, a lutas nos
países sub-desenvolvidos sobre as dimensões ecológicas-coletivas do
viver (agua, terra, ar, poluição, epidemias etc.) não são que a
continuação desse processo: é nesse terreno que os programas se
constituem. No
Brasil de Lula, esse programa é, paradoxalmente, mais avançado e mais
atrasado do que em outras regiões continentais do Império. Uma das
grandes vantagens da passagem acelerada (por mais dramática que seja)
do moderno ao pós-moderno implica a atuação imediatamente qualificada
do programa do comum. Esse
é o caminho que precisamos trilhar. Não temos outros. Pior, todos os
outros são reacionários (e, hoje em dia, o extremismo esquerdista na
América Latina o é com certeza!). É preciso ter muita coragem para avançar nesse terreno. Nesse terreno, as velhas ideologias da reforma e da revolução são varridas e os dogmáticos sabem apenas denunciar ilusões e traições. Ao contrário, como dizia Lenine, a revolução avança aos poucos, atravessando momentos de destruição do passado e propostas de de-vir. [1] Este artigo é em parte derivado das páginas finais de GlobAL: biopoder e lutas em uma América Latina globalizada escrito pelos autores e que será lançado no Brasil em novembro de 2005, pela Ediora Record. |